“Quantas vezes já quisemos ir a uma loja, num shopping, não a encontramos e andamos ali feitos doidos à procura? Quantas vezes já nos perdemos num hospital? Quantas vezes já fomos para o aeroporto em stress porque não sabíamos onde era a porta de embarque?” É provável que, pelo menos uma vez, toda a gente já se tenha identificado com uma das três situações que João Fernandes apresentou ao Observador. E foi a pensar nelas que criou a BuzzStreets, um startup que desenvolve uma solução de mapeamento, navegação e localização indoor, ou seja, para interiores.

Por outras palavras, a BuzzStreets funciona como uma espécie de Google Maps do interior de grandes estruturas como hospitais, universidades, centros comerciais e aeroportos e está, neste momento, a terminar a fase piloto em alguns locais no Reino Unido e em Portugal. Mas a ideia inicial, conta o fundador do projeto ao Observador, não passava por este conceito e foi preciso um “falhanço” para chegar ao atual objetivo da empresa.

“A minha ideia era criar uma plataforma que pudesse agregar ou congregar todas as informações de trânsito de uma cidade num espaço só para transmitir às câmaras, em primeiro lugar, em tempo real. E isto foi em 2014, numa altura em que todo este “open data” nas câmaras não existia”, explica João Fernandes.

O problema desta ideia, conta o empreendedor, era o facto de estar a ser implementada em tempos de crise e, apesar de haver interesse, não havia orçamento para apoiá-la. “O nosso modelo de negócio inicial estava errado. Aquilo que eu queria que fosse um aliviar do tráfego e do caos na cidade não estava a ter viabilidade financeira e o negócio tinha de se sustentar”, acrescenta João Fernandes.

Uma viagem a Londres, em 2015, mudou a vida do empreendedor e o conceito do projeto, mas já vamos a essa parte. Agora, a BuzzStreets fornece serviços a várias estruturas, ao criar um sistema de navegação que pode ser utilizado gratuitamente pelos clientes através da app de cada estrutura. Num hospital, por exemplo, o serviço desenvolvido pela empresa indica o caminho até ao edifício, o transporte a utilizar e, já dentro do espaço, qual é o piso e a sala para onde os utentes se devem dirigir. “A aplicação dá independência às pessoas para andarem no espaço sem terem de pedir informações a ninguém” explica o empresário de 47 anos.

As pessoas mais velhas, por exemplo, não gostam de ser dependentes de terceiros e a aplicação ajuda as pessoas que vão ao hospital em primeiro lugar saberem onde ele está. Chegando lá, continua a dar mais informações, principalmente quando estamos a falar de hospitais muito grandes, onde é muito desafiante encontrar o local certo”, refere João Fernandes ao Observador.

A mudança para Londres que fez nascer a BuzzStreets como ela é

João Fernandes confessa que a BuzzStreets (ainda com a ideia inicial) “era uma startup com a qual andava a sonhar há algum tempo”. Formado em Marketing, o empresário já viu nascer e morrer vários projetos e, em 2015, quando percebeu que a ideia do controlo do tráfego não iria funcionar, pensou que seria mais uma a cair. Foi nesse momento que recebeu uma chamada do grupo britânico Canary Wharf, proprietário da área que concentra instituições financeiras, cinco centros comerciais e 36 prédios.

“Disseram-nos para irmos lá mostrar o que valemos. E assim foi”, conta João Fernandes. Juntamente com programadores, partiu para Londres para apresentar o projeto e participar num programa de aceleração na área da mobilidade.

Quando lá chegou, João viu um cenário diferente do que esperava: “Nas primeiras semanas percebemos que o trânsito deles não tinha problemas nenhuns, porque é um estado privado. Têm polícias próprios, têm gestão própria e não havia tráfego”. A equipa começou, então, a questionar a utilidade de uma plataforma para o trânsito naquele local. E foi depois de perceber que teria de mudar de estratégia, que a BuzzStreets foi para a rua saber qual o maior problema das pessoas que por lá passavam e trabalhavam.

“Percebemos que a preocupação de toda a gente que lá trabalhava era, muitas vezes, não encontrar as coisas, não saberem o que tinham mais lá dentro”, explicou João, acrescentando que o próprio grupo Canary Wharf investe muito em sinalética e mapas que são entregues às pessoas nos locais. Depois dos resultados, o foco da BuzzStreets passou do outdoor para indoor. A startup está ainda na fase piloto com o grupo, mas em breve vai ter o seu serviço a funcionar. Neste espaço em particular – “um mundo dentro de um mundo” –, vai ajudar clientes e futuros trabalhadores a encontrar serviços como lojas, empresas, restaurantes e exposições.

O investimento no projeto, conta João Fernandes, chegou aos 250 mil euros partidos de capital próprio, além dos fundos do Portugal2020 para a internacionalização. Mas todo este investimento só foi feito depois de o empreendedor perceber que tinha ali, efetivamente, um negócio viável. “Quando vi qual seria o modelo de negócio mais apropriado e a tecnologia certa, aí investi 200% do meu tempo e dedicação ao projeto”, referiu. O grupo Canary Warf tornou-se, assim, no primeiro cliente da BuzzStreets.

É muita responsabilidade, não deixámos de ser uma startup, eles são uma empresa de três mil milhões de libras. Estamos ainda a ganhar credibilidade junto deles para efetivamente podermos fazer um trabalho mais exaustivo”, referiu ao Observador João Fernandes.

Atualmente, João anda “de lá para cá” e já fez mais de 58 voos ida e volta Londres-Lisboa para colocar a BuzzStreets em ação. A startup está a trabalhar com empresas em Londres — como o Queen Elizabeth Birmingham Hospital e o Southampton, Glasgow and Aberdeen Airport  — e já está a preparar a entrada em Portugal com uma universidade e um hospital público, estando ainda numa fase de teste piloto. A equipa é atualmente constituída por sete elementos, incluindo um grupo de programadores, todos divididos entre os dois escritórios em Londres e Lisboa – “Escolhi Portugal muito por carolice, por ser português e querer ajudar os portugueses, e Londres por razões óbvias: é uma das maiores economias do mundo”, acrescenta João.

A navegação é o ouro dos clientes, mas os dados são o das estruturas

Os serviços da BuzzStreets são B2B, ou seja, de empresa para empresa e, normalmente, mais associados a grandes estruturas, pois “trata-se de uma tecnologia cara e que só empresas de grande dimensão poderão rentabilizá-la”. E se a principal essência deste serviço é o facto de os utilizadores se conseguirem orientar nestas estruturas, há um aspeto que João salienta e que pode ser “o ouro para as empresas”. “O maior benefício, além de ajudar os utentes dos aeroportos, centros comerciais e os hospitais a não se perderem e a serem independentes num espaço, é o facto de se poder recolher muita informação”, explica o empreendedor.

Mas, que dados são estes? “Basta pensar que um aeroporto, muitas vezes, adapta o próprio espaço consoante os passageiros e os visitantes do mesmo, ou seja, o aeroporto quer que as pessoas encontrem rapidamente o seu destino, mas quer também perceber quais são os fluxos, para onde é que as pessoas vão primeiro, quais são as portas de embarque que enchem mais ou que enchem menos, por onde é que as pessoas andam nas lojas, etc.”. Isto significa que, ao utilizarem o serviço na aplicação de cada espaço, os utilizadores estão também a dar informações importantes a esses mesmos espaços sobre o seu funcionamento, de forma a que estes possam adaptar o seu serviço de acordo com as maiores necessidades dos clientes.

Para os que não veem com bons olhos o facto de estarem a dar alguns dados, o empreendedor assegura que o sistema começa por ser fechado e o utilizador pode simplesmente utilizar a aplicação apenas como sistema de navegação. “Nunca identificamos a pessoa, nem nunca há necessidade de saber isso. O que sabemos é que existe alguém que tem um aparelho, que o usa para chegar ao seu destino e que o seu destino é o lugar a, b ou c. Não nos interessa mais nada”, esclarece o fundador da BuzzStreets.

Se o utilizador autorizar o fornecimento de mais alguns dados, “aí sim passa a haver uma comunicação entre, por exemplo, um hospital e o paciente”. Nesta fase, que ainda está a ser discutida, os centros hospitalares podem ter uma ligação mais direta com os seus pacientes.

Em vez de estarem com telefonemas, com serviços como as SMS, esta rede é perfeitamente utilizável para outras funcionalidades como os check-in, com a passagem de resultados médicos, como sugestões e até mesmo, em último grau, o paciente estar em casa e ser consultado por esta rede. Eu tenho um sistema que me faz chegar à porta do meu médico, mas também se não poder sair por qualquer razão, o médico pode vir a casa como pode comunicar comigo diretamente”, explicou o fundador da startup portuguesa.

Um sucesso que adiou uma campanha de financiamento

Ainda em terras britânicas, João Fernandes conseguiu levar a BuzzStreets ao London Tech Week, um dos maiores eventos de tecnologia. E para mostrar e dar a conhecer o projeto, a startup criou um sistema de navegação específico para o evento, permitindo que os participantes pudessem encontrar os caminhos para os vários espaços das palestras em cada dia, bem como os transportes mais rápidos para lá chegar e a possibilidade de verificar informações em tempo real sobre reservas e bilhetes.

Exemplo do serviço que a BuzzStreets criou especificamente para a London Tech Week

A experiência foi bem-sucedida e várias empresas mostraram-se interessadas no serviço da BuzzStreets. Mas foi depois disso que surgiu um dilema: “Já tínhamos começado uma campanha na Seedrs [plataforma de equity crowdfunding, ou seja, de financiamento colaborativo] e em três meses chegamos a 80% do objetivo. Eram 500 mil euros por 12,5% do capital”. Só que com o sucesso da presença na London Tech Week, a startup decidiu suspender a campanha, que servia essencialmente para desenvolver a sua solução e contratar mais pessoas. No entanto, o objetivo é que esta campanha seja retomada mais tarde, se possível ainda este ano.

Como ainda está a consolidar o negócio, a BuzzStreets ainda não teve um retorno significativo em faturação, ate porque a tecnologia que utiliza exige um grande investimento, bem como os profissionais que trabalham neste tipo de serviços. É este, aliás, o maior desafio que o empreendedor tem encontrado neste mercado: “São tecnologias que obrigam a skills muito específicas nesta área do sistema de navegação. É um trabalho muito de sensores, de sinais, de juntar isso tudo. Parece fácil, mas a tecnologia que está por detrás é um código muito complexo de se realizar”, explicou João Fernandes, acrescentando que, para já, o mapping da estrutura é feito no estrangeiro, mas o objetivo “é tentar tornar o serviço 100% nacional através da ajuda de universidades”.

Apesar de ainda estar no início, João acredita que o seu projeto vai melhorar a vida de muita gente e facilitar o contacto entre cliente e serviços: “A ambição é criar algo que está a crescer, é uma criança pequena que rapidamente vai entrar na adolescência e quando estiver na fase adulta vai ajudar muita gente a ter um pouco de mais qualidade de vida”.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.