Uma equipa de paleontólogos da Universidade do Kansas defende que “o princípio do fim” — assim é descrito a queda do meteorito que levou à extinção dos dinossauros — começou com um tremor de terra que levantou ondas gigantes que provocaram a extinção daqueles animais pré-históricos no continente americano durante as primeiras horas da catástrofe.

A localização arqueológica do cemitério de 66 milhões de anos fica na Dakota do Norte, nos Estados Unidos da América, e foi descoberto no fim dos anos 70, por Luis e Walter Alvarez, autor do estudo, publicado na revista PNAS. Este local da escavação, onde se encontraram os fósseis, na área Tanis, é mais conhecido como a formação HellCreek. Fica a 3 mil quilómetros da cratera de Chicxulub, no México, onde caiu o asteróide responsável por extinção dos dinossauros. O corpo espacial, que tinha 12km de largura e que matou 75% da vida no planeta, provocou uma cratera com mais de 100km de diâmetro e 30km de profundidade. Atualmente, uma grande parte está coberta pelo mar e sob 600 metros de sedimentos.

Local da escavação

Robert DePalma, co-autor do estudo, defende que “todos os organismo de diferentes idades e fases da vida, morreram ao mesmo tempo, no mesmo dia”.

A análise começou há 6 anos, em 2013 e foram descobertos esturjões e peixe-espátula fossilizados com esferas de vidro nas guelras, dentes de tubarão, restos de lagartos, mamíferos, insetos, árvores e peixes pulverizados, amonites (espécie de molusco), criaturas marinhas, e um triceratops. “Todas estas criaturas foram compactadas na mesma camada”, explica DePalma.

Também foram encontrados trilhos de dinossauros e tocas de mamíferos pré-históricos.

Segundo noticia o ABC, os cientistas acreditam que o asteróide pode ter causado a morte dos seres vivos de diversas maneiras — através do envenenamento do planeta com metais pesados, transformando o ocenano em ácido; envolvendo a Terra em escuridão, ou incendiando-a com tempestados globais; e ainda, a possibilidade de ter provocado enormes erupções em vulcões.

Os fósseis registam o momento que terá lançado biliões de toneladas de rocha derretida e vaporizada no céu, em todas as direções, por milhares de quilómetros e evidências de uma inundação. Segundo DePalma, em conjunto com os seus colegas, Mark Richards, professor de Ciências Espaciais da Universidade de Washington e Walter Alvarez, professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia (conhecido por ser o primeiro cientista a ter proposto a hipótese da queda do asteróide, como causa da extinção dos dinossauros), é possível reconstruir a sequência de eventos que ocorreu após o impacto:

  • Com a queda do asteróide criaram-se grandes tsunamis e um terramoto classificado entre 10 e 11 na Escala de Richter
  • A mistura das ondas gigantes e do terramoto criou um corpo de água, chamado seiche (ondas estacionárias), no Mar Interior Ocidental, que devido à sua movimentação, separou a América dos outros continentes;
  • Para além do terramoto e dos tsunamis, o impacto do asteróide lançou para a atmosfera uma quantidade massiva de rocha derretida que acabou por se condensar, transformando-se em tectitos;
  • Esses tectitos regressaram à Terra em forma de “chuva” de vidro e fogo, que devido à alta temperatura das rochas, causaram incêndios, e espalharam-se por, praticamente, todo o globo, acabando por matar os animais que sobreviveram aos tsunamis e às ondas sísmicas — quer pelo impacto da queda das rochas, quer pelo fogo e inalação de fumo, ou pela transformação dos alimentos em cinzas.

A teoria é confirmada pela alta presença de Irídio, um metal muito raro no planeta, mas bastante comum em corpos espaciais, funcionando como a impressão digital de um cometa, no local da escavação, o que prova a relação direta dos fósseis com o asteróide.

A grande amostra de organismos no mesmo local, levou Alvarez a afirmar que “nunca me passou pela cabeça que encontraríamos um leito de morte como este.”

Como explica o ABC, a devastação da região aconteceu muito rápido. A presença de tectitos nas guelras dos peixes são um indício de que estes animais foram as primeiras vítimas do evento catastrófico. “A sedimentação ocorreu tão rapidamente que tudo ficou preservado em três dimensões. Não estão esmagados”, explicou David Burnham, co-autor do estudo. “É como uma avalanche que colapsa quase como um líquido e depois assenta como cimento. Morreram de repente devido à violência da água. Temos um peixe que bateu numa árvore e se partiu ao meio”. O mar transformou-se num muro de água de mais 10 metros de altura e arrastou os animais para a costa. De seguida, uma segunda onda gigante inundou a costa e cobriu os animais com sedimentos, selando-os e preservando-os durante 66 milhões de anos. Mark Richards explica que “é como um museu do fim do Cretáceo numa capa de metro e meio de espessura”.

Tectitos encontrados nas guelras dos peixes

DePalma revelou que “um tsunami teria demorado pelo menos 17 horas ou mais para chegar ao local da cratera, mas as ondas sísmicas — e uma onda subsequente — terão atingido o local em dezenas de minutos”. O paleontólogo acrescentou ainda que a qualidade dos fósseis é extraordinária. “Alguns parecem ser novas espécies, outros são os melhores exemplos conhecidos da sua espécie. É um dos eventos mais notáveis da história da Terra. Nenhum outro lugar tem um registo como este.” DePalma explicou que este acontecimento está diretamente relacionado com o ser o humano, porque “foi aqui onde herdamos o planeta. Nada foi o mesmo depois deste impacto. A Terra tornou-se um mundo de mamíferos, em vez de um planeta de dinossauros.” O cientista defende que “como seres humanos, descendemos de uma linhagem que, literalmente, sobreviveu às cinzas do que era o glorioso reino dos dinossauros”.

Estima-se que 3 em 4 espécies morreram na extinção do Cretáceo-Paleogeno, conhecido por Nível/Evento K-PG ou extinção K-T.