Uma frase da primeira congressista norte-americana a usar o véu islâmico (hijab), um vídeo do Presidente e a memória de um dia traumático para os Estados Unidos — 11 de setembro de 2001 — são os ingredientes para a polémica que envolve a congressista democrata muçulmana Ilhan Omar.

O caso arrasta-se há alguns dias, com os republicanos a acusarem Omar de desvalorizar o terrorismo islâmico e os democratas a criticarem o Presidente pelo que consideram ser uma instrumentalização do 11 de setembro para atacar uma muçulmana.

Este domingo, a secretária de Imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, pronunciou-se sobre o tema em duas entrevistas a cadeias de televisão norte-americanas, para clarificar a posição de Donald Trump: “É claro que o Presidente não deseja mal e muitos menos violência a ninguém”, reforçou perante a ABC e a Fox News. “Mas o Presidente deve chamar a atenção da congressista e vai continuar a fazê-lo.”

A frase da polémica: “Algumas pessoas fizeram uma coisa”

Em causa estão as declarações de Omar num evento do Conselho pelas Relações Islâmico-Americanas (CAIR na sigla original), sobre a situação dos muçulmanos nos Estados Unidos. “Durante demasiado tempo vivemos com o desconforto de sermos cidadãos de segunda e, sinceramente, estou farta disto e cada muçulmano neste país devia estar também”, afirmou a congressista. “A CAIR foi fundada depois do 11 de setembro porque eles reconheceram que algumas pessoas fizeram uma coisa e que todos nós começámos a perder acesso às nossas liberdades civis.”

O Presidente publicou no Twitter um vídeo com um pequeno excerto da declaração de Omar — “algumas pessoas fizeram uma coisa” — alternado com imagens do 11 de setembro e a legenda “Nós nunca nos esqueceremos”.

O Washington Post publicou um fact check às declarações de Omar deixando claro que a CAIR foi fundada em 1994 e não em 2001 após o 11 de setembro. Contudo, foi a frase “algumas pessoas fizeram uma coisa” que provocou polémica, com muitos norte-americanos a questionarem se Omar estaria a desvalorizar os atos de terrorismo no 11 de setembro, quando as Torres Gémeas do World Trade Center foram atacadas. 2.977 norte-americanos morreram no ataque.

Do lado dos republicanos, os ataques não tardaram, com o congressista Dan Crenshaw a classificar as declarações de Omar como “inacreditáveis”. Também o apresentador da Fox News Brian Kilmeade afirmou “uma pessoa até se questiona se ela é, antes tudo, americana”. O tablóide New York Post publicou na capa uma imagem das Torres Gémeas em chamas com o título “Aqui está o teu ‘uma coisa'”.

Do lado dos democratas houve várias afirmações a criticar o vídeo de Trump, a começar pela líder do partido na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi: “O Presidente não devia utilizar imagens dolorosas do 11 de setembro como ataque político”, afirmou a democrata. Também colegas de Omar, como Alexandra Ocasio-Cortez, saíram em defesa da congressista muçulmana, afirmando que o “ataque” do Presidente pode reforçar a ameaça que paira já sobre Omar — no início do mês, um homem foi formalmente acusado depois de ter ameaçado matar a congressista num telefonema para o seu gabinete.

Também a maioria dos candidatos do partido à presidência apoiaram a congressista. Elizabeth Warren declarou que o Presidente está “a incitar à violência contra uma congressista em funções e contra um grupo inteiro de americanos, com base na sua religião”, enquanto que Bernie Sanders afirmou que “os ataques nojentos e perigosos contra [Omar] têm de acabar”.

A própria Ilhan Omar reagiu no seu Twitter, citando uma frase do antigo Presidente George W. Bush a propósito do 11 de setembro. “As pessoas — e as pessoas que deitaram estes edifícios abaixo vão ouvir-nos em breve”, foi a frase escolhida por Omar, questionando se Bush também estaria a “desvalorizar um ataque terrorista” por ter usado aquela formulação e qual teria sido a reação às suas palavras se o Presidente fosse um muçulmano.

Quem é Ilhan Omar, uma das primeiras congressistas muçulmanas?

Ilhan Omar, filha de refugiados vindos da Somália para os Estados Unidos, foi eleita nas eleições intercalares do ano passado como representante democrata pelo estado do Minnesota na Câmara dos Representantes, tornando-se uma das duas primeiras mulheres muçulmanas a serem eleitas para o Congresso norte-americano (a outra é Rashida Tlaib, eleita pelo Michigan). É também a primeira mulher a usar o hijab na Câmara.

Com apenas 37 anos, Omar tem pouca experiência política, tendo sido apenas eleita para a Câmara dos Representantes do Minnesota em 2016, antes de dar o salto para a política nacional dois anos depois.

A sua estreia no Congresso norte-americano foi marcada pela polémica desde cedo. Em fevereiro, Omar publicou um tweet onde criticava a influência dos lobistas pró-Israel sobre a política externa norte-americana, que incomodou até membros do seu próprio partido. À altura, Pelosi publicou um comunicado conjunto com outros líderes do Partido Democrata onde se afirmava que os comentários da congressista eram “profundamente ofensivos”, classificando-os como anti-semitas. O partido promoveu ainda uma resolução na Câmara contra “o discurso de ódio”.

À altura, Omar reagiu com um pedido de desculpas público, explicando que ainda tem “muito para aprender”.

Quando alguém me diz que ficou magoado por algo que eu disse, vou sempre ouvir e reconhecer essa dor”, declarou à altura a congressista do Minnesota.

Desta vez, após o vídeo publicado por Trump, não só o partido se uniu em torno de Omar como a própria democrata não adotou o mesmo tom. “Não me candidatei ao Congresso para ficar calada. Não me candidatei ao Congresso para ficar nos bastidores. Candidatei-me porque acredito que é altura de restaurar clareza moral e coragem ao Congresso”, afirmou Ilhan Omar numa série de tweets. “Obrigada por me apoiarem — contra uma administração que se candidatou com base [num programa] para banir os muçulmanos deste país — na luta pela América que todos merecemos.”