Migrações

Barco em que morreram mais de 700 migrantes causa polémica na bienal de Veneza

Mais de 700 passageiros do pequeno barco vindo da Líbia morreram no seu naufrágio em 2015. Agora, o artista Christoph Büchel apresenta-o na bienal de Veneza com o nome "Barca Nostra".

"Barca Nostra" está exposto na bienal de Veneza

AFP/Getty Images

Uma “obra útil”, um “espetáculo” ou um “caixão”? Chama-se Barca Nostra (Nosso Barco), é do artista suíço-islandês Christoph Büchel e é a obra que mais tem provocado debate na bienal de Veneza. Trata-se de um barco específico que se afundou no Mediterrâneo em abril de 2015 — morreram mais de 700 pessoas que seguiam a bordo. “A obra apelará às nossas consciências”, promete o curador Ralph Rugoff, citado pela Rai. Mas entre os sobreviventes e aqueles que acompanham de perto a crise de refugiados as opiniões sobre a pertinência da obra dividem-se.

O naufrágio aconteceu a 18 de abril de 2015. A traineira com capacidade para cerca de 20 pessoas transportava entre 700 a mil passageiros, como explica o Le Monde. Eram na sua maioria jovens, vindos sobretudo de países africanos, que tinham pagado aos traficantes para conseguirem um passaporte para o El Dorado europeu. A esmagadora maioria, contudo, acabaria no cemitério a céu aberto do Mediterrâneo, vítimas do naufrágio.

O barco estava a cerca de 180 quilómetros de distância da ilha de Lampedusa quando pediu ajuda. O cargueiro português King Jacob respondeu ao pedido, mas, não se sabe exatamente por que razão, as duas embarcações acabaram por colidir. A grande maioria dos passageiros vindos da Líbia caiu ao mar e o pequeno King Jacob conseguiu apenas resgatar 28 sobreviventes. O capitão da traineira acabaria por ser condenado a 18 anos de prisão por um tribunal italiano.

Ao todo, 723 pessoas terão morrido no naufrágio, um quinto de todas as mortes de migrantes no Mediterrâneo em 2015, de acordo com contas da Organização Internacional para as Migrações citadas pelo New York Times. O número foi calculado após uma investigação da antropóloga Cristina Cattaneo, com a ajuda de uma equipa forense, que analisou os restos mortais que estavam no barco, resgatado pelas autoridades italianas e transportados para uma base da NATO na Sicília.

O barco foi agora cedido ao artista Christoph Büchel para ser exposto na Bienal. “Pareceu-nos um projeto válido”, disse Cettina Saraceno, porta-voz da associação responsável pela preservação da memória da tragédia ao New York Times. “É o momento certo”, acrescentou, referindo-se ao projeto Barca Nostra como “um jardim da memória”.

É uma relíquia da tragédia humana, mas também um monumento à migração contemporânea, destacando fronteiras reais e simbólicas e a (im)possibilidade da liberdade de movimento e de informação das pessoas”, diz o comunicado do projeto, que destaca ainda a “responsabilidade mútua” dos políticos “na criação destes naufrágios”.

Na bienal de Veneza, a traineira está exposta sem nenhuma placa descritiva, uma decisão tomada pela organização para criar “um convite ao silêncio e à reflexão”. Da mesma forma, Büchel não tem aceitado dar entrevistas sobre a sua obra. O correspondente da Radio France Internationale em Veneza recorda assim a sua visita ao local: “Um silêncio perturbado pelo barulho da esplanada vizinha. Em frente ao barco naufragado, os visitantes bebem [o cocktail italiano] spritz. Trabalhadores imigrantes esvaziam os caixotes do lixo.”

“Se se converter num espetáculo, a morte dos meus irmãos não servirá para nada”

As reações ao Barca Nostra têm sido variadas, mas nenhuma revelou indiferença. O jornal espanhol El Mundo contactou alguns dos 28 sobreviventes do naufrágio para lhes perguntar o que pensam do facto de o barco onde seguiam ser agora uma obra de arte. “Não sabia sequer que tinham tirado o barco do fundo do mar. Espero que as pessoas que o vão ver saibam o que aconteceu. E o autor da obra devia doar o dinheiro que ganhará às associações que ajudam os migrantes”, sentenciou Moussa, de 24 anos, que vive atualmente em Sarcelles (França) e trabalha numa empresa de hortaliças.

Já Sony (nome fictício), senegalês que vive atualmente no norte de Itália, tem sentimentos contraditórios: “Parece-me bem que as pessoas possam ver os restos de um barco onde morreu tanta gente que só queria uma vida melhor. Parece-me bem que os brancos se detenham perante ele e repensem se a Europa está a fazer tudo o que pode para que não morram pessoas no mar. Se for para homenagear e honrar a memória dos mortos, será uma obra útil. Mas se se converter num espectáculo, a morte dos meus irmãos não servirá para nada.

Lorenzo Toddo, correspondente sobre migrações em Itália para o The Guardian, escreveu um artigo de opinião onde questiona a relevância de uma obra deste tipo, dizendo que o local onde está exposto, “tão distante das instituições responsáveis pela tragédia”, faz com que possa perder impacto, correndo o risco de se tornar numa mera “provocação”.

Imagino uma multidão — bem vestida, a beber spritzes — em frente a um barco que, para mim, é um caixão que levava 700 pessoas dentro. Imagino o seu olhar fixo na pintura a descascar, do mesmo tom do céu veneziano. Penso nos 28 sobreviventes do naufrágio e no que eles dariam para ter um segundo da atenção destas pessoas”, declara.

Outros, como a porta-voz da agência de refugiados das Nações Unidas Carlotta Sami, têm um entendimento diferente. “Este barco será agora visto pelo mundo”, declarou ao Washington Post a mulher que esteve em Lampedusa naquele fatídico 18 de abril para receber os sobreviventes. “Sinto que não poderá ser considerado uma relíquia do passado. Hoje mesmo, um novo naufrágio diz-nos que este barco é o nosso presente”, afirmou referindo-se a mais uma tragédia que ocorreu no Mediterrâneo, no dia em que visitou a bienal. Ao todo, 65 pessoas morreram nesse dia.

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