10 de abril de 1986. Aeroporto de Gatwick, sul de Londres. Uma assistente de vendas repara num carrinho de bebé abandonado na casa de banho das senhoras enquanto lava as mãos. A cobri-lo está uma manta. Curiosa, Beryl Wright retira a manta e depara-se com um bebé recém-nascido. Nessa tarde, começaria o mistério do bebé abandonado no aeroporto.

Funcionários do aeroporto compraram roupa e comida para o rapaz. Um polícia alimentou-o e uma mulher embrulhou o bebé num cachecol. Um sargento da polícia ofereceu-se mesmo para ficar com o bebé se os pais não aparecessem. E nunca apareceram. Na altura, páginas de jornais fizeram manchetes mas os pais nunca foram conhecidos. O bebé foi apelidado de “Gary Gatwick”, nome da mascote do aeroporto londrino, e entregue para adoção. Beryl Wright contaria anos mais tarde que nunca deixou de pensar no que aconteceu ao bebé do aeroporto de Gatwick.

Steve Hydes. Eis o nome escolhido para o rapaz pela família que o adoptou. Cresceu num bom lar, com três irmãs. “Tenho uma óptima família, tenho mais sorte que muita gente”, assumiu. Vive em Sussex, muito perto de Gatwick, trabalha como jardineiro e já é pai de um rapaz e de uma rapariga. Em 2004, começou a procurar a verdade, com ajuda da sua parceira, Sammy. Ser pai foi, precisamente, o que despoletou a necessidade de Hydes descobrir as suas raízes e a família biológica. E conseguiu, noticia o Washington Post.

“Quero que a minha mãe saiba que não estou zangado com ela e que se ela aparecer não vai ser conhecida pelo público. Mas há tantas coisas que lhe gostava de perguntar, e tantas coisas que gostava de saber sobre o meu passado”, disse Hydes em 2011.

Depois de anos de procuras e de becos sem saídas, Hydes anunciou no início deste mês que conseguiu descobrir os seus pais biológicos. Numa página de Facebook que o próprio criou para documentar a sua busca, o “bebé” informou que conseguiu chegar aos pais verdadeiros através de pesquisa genealógica. No entanto, Hydes nunca poderá perguntar à mãe o que tinha em mente. “Infelizmente, a minha mãe biológica já faleceu, por isso não serei capaz de descobrir o que aconteceu exatamente nem porquê”, escreveu na página.

Hi guys,Some good news! After 15 years of searching I am happy to confirm that with the very hard work of Genetic…

Posted by Gary gatwick airport baby abandoned on Saturday, May 11, 2019

Hydes iniciou a sua busca em 2004 e cedo percebeu que não seria tarefa fácil. Começou por reunir informação transmitida pelos media na altura em que foi abandonado. A equipa de relações públicas do aeroporto também organizou um reencontro entre o Gatwick Baby e os funcionários que o encontraram e cuidaram dele naquela tarde: o polícia que o alimentou, os funcionários que lhe compraram roupa, a mulher que o embrulhou num cachecol e, claro, Beryl, a mulher que o descobriu abandonado na casa de banho.

“De certa forma, eles sabiam mais de mim do que eu próprio. O que me fascinou foi o quanto eles se preocupavam comigo”, disse Hydes.

Fotografia do dia em que o “Gary Gatwick” foi encontrado

Steve tentou ainda requisitar os documentos e relatórios da investigação policial. No entanto, estes tinham sido destruídos. Os relatórios poderiam conter informações cruciais sobre o abandono do bebé. A imprensa avançou na altura que uma mulher ligou para a polícia dois dias depois de o bebé ter sido encontrado, alegando que seria a mãe. Terá dito que a criança se chamava Michael e que era muito nova para ser mãe. A polícia chegou a encontrar a mulher e a interrogá-la, mas as declarações que prestou viriam a ser dadas como falsas.

O local onde Hydes foi encontrando dificultou ainda mais a busca. Abandonado num aeroporto do Reino Unido, o bebé poderia ser, literalmente, de qualquer parte do mundo. Steve Hydes pode mesmo nem ser inglês, refere o Washington Post. Na sua pesquisa, começou então a reunir registos de todos os aviões que descolaram e aterram em Gatwick naquele dia.

Recorte de uma notícia publicada num jornal em 1986

No inicio de 2010, um teste de ADN ajudou a esclarecer o passado de “Gary Gatwick”. Um geneticista da Universidade de Edimburgo analisou o cromossoma Y de Hydes e conseguiu associá-lo a linhagem do seu pai no Leste de Inglaterra. Mas os testes não surtiram mais efeito.

No mesmo ano, o bebé abandonado publicou uma carta aberta à sua mãe numa revista tabloide britânica. “Mãe, eu perdoo-te por me teres abandonado” foi o título dado ao texto. Seria uma última tentativa desesperada para fazer com que a mulher assumisse que era a mãe. A carta nunca obteve resposta.

Excerto da carta enviada à mãe do rapaz publicada numa revista

Mas testes científicos permitiram a Hydes encontrar, finalmente, a sua família biológica. Apesar de a mãe ter morrido, Hydes reencontrou-se com o pai e tios paternos e maternos. No Facebook, Hydes explica que o pai e todos os seus familiares não tinham conhecimento da sua existência.

O caso continua, ainda assim, envolto em algum mistério. Continuam por desvender o porquê de o bebé de dez dias ter sido abandonado no aeroporto londrino naquela tarde de 1986. Bem como a forma como isso foi feito. “Como podem imaginar, este é um assunto muito recente e sensível para todos os envolvidos. Mas é altura de agradecer a todos pelo apoio ao longo destes anos”, escreveu Steve Hydes este mês.