Sporting

Entre bancadas, Afeganistão e banco, Varandas festejou na tribuna – e assim cumpriu a sua promessa

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Varandas vibrou na pele de adepto em 1995 e 2002, festejou os golos de Tiuí no Afeganistão em 2008, esteve na final de 2015 como médico e ganhou agora enquanto líder, cumprindo a primeira promessa.

Frederico Varandas levou a medalha de finalista vencido da Taça de Portugal em 2018 para o primeiro discurso como presidente

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Em menos de quatro meses, houve duas imagens fortes de Frederico Varandas que, mesmo em contextos distintos, não deixaram de estar correlacionadas: a 20 de maio, o então responsável pelo departamento médico do Sporting foi um dos elementos que mais tempo esteve a consolar Rui Patrício na final da Taça de Portugal, em lágrimas depois da derrota frente ao Desp. Aves alguns momentos antes de subir a escadaria da bancada central e passar pela tribuna para receber a medalha de finalista vencido da competição; na madrugada de 9 de setembro, o aí recém eleito presidente sacou da sua medalha de 2018 que confessou nunca ter visto com atenção com a promessa de que um dia iria para o museu mas com a taça. Este sábado, o conjunto verde e branco tinha a primeira oportunidade para cumprir esse desejo mas, para o líder leonino, seria sempre uma final diferente.

Adepto do Sporting desde miúdo, com passagem pela ginástica do clube a partir dos três anos, Frederico Varandas falhou apenas uma final onde os leões marcaram presença no Jamor… e por estar a cumprir missão no Afeganistão. Tudo começou com a edição de 1987, quando não tinha feito ainda oito anos, e prolongou-se a 2019 mas com papéis (e lugares) diferentes.

Nessa temporada, o conjunto então orientado por Keith Burkinshaw perdeu com o Benfica do também inglês John Mortimore por 2-1, com bis de Diamantino antes de Marlon Brandão reduzir a pouco mais de dez minutos do final. Seguiu-se a final, que teria finalíssima, frente ao FC Porto de Bobby Robson, onde os leões de Carlos Queiroz foram derrotados no prolongamento por 2-1 num jogo com muita polémica à mistura. À terceira foi mesmo de vez e, com o Jamor pintado de verde e branco na esperança de quebrar um longo jejum sem troféus, um bis de Iordanov decidiu a partida diante do Marítimo (2-0). Mais uma época, mais uma final, neste caso um dia negro para o desporto nacional: o Benfica venceu o dérbi (3-1, com golos de Mauro Airez, dois de João Pinto e Carlos Xavier) que ficou marcado pela morte de um adepto verde e branco atingido por um very light.

Com familiares ou amigos, Varandas, que quando era mais novo fez parte da claque Juventude Leonina, ia assistindo sempre nas bancadas do Jamor às finais do Sporting, com mais (2002, frente ao Leixões, com golo de Jardel; e 2007, diante do Belenenses de Jorge Jesus, com golo de Liedson) ou menos (2000, finalíssima ante o FC Porto, com golos de Clayton e Deco) motivos para festejar. Em 2008, ao contrário do que era normal, não assistiu ao vivo ao clássico com os azuis e brancos que seria decidido no prolongamento com um bis de Rodrigo Tiuí mas nem por isso deixou de ouvir o relato… onde menos se esperava.

“Estávamos em Kandahar, no meio do deserto, só com os talibãs, e perguntei se conseguíamos apanhar o relato. Nesse dia estávamos em alerta máximo porque os serviços secretos afegãos avisaram-nos de um possível ataque que poderíamos sofrer. Evacuámos toda a gente e só ficaram os necessários para combate, nos quais se incluíam o médico e o enfermeiro. Saímos das tendas porque poderiam ser atacadas e ficámos num sítio, refugiados, quietos e em silêncio obrigatório. Sem luzes, sem nada. Fui à mochila, com o jogo quase a começar, agarrei no rádio e passados uns minutos estávamos a ouvir a Antena 1. Dos 130 homens, metade estava ali junto a mim a ouvir o relato. Costumo dizer que, pela primeira vez, afegãos e talibãs ouviram o rugido do leão. Nunca esquecerei esse dia”, recordou, quando era o médico oficial da missão do Exército português no Afeganistão.

Nessa fase, Frederico Varandas já tinha passado pelo V. Setúbal, passando a liderar o departamento médico dos sadinos em 2009. Dois anos depois, mudou-se para o Sporting, subindo na estrutura após a saída de Gomes Pereira e marcando presença pela primeira vez no banco de suplentes na final de 2012, quando os leões então comandados por Sá Pinto perderam com a Académica de Pedro Emanuel com um golo logo a abrir de Marinho. Três anos depois, o primeiro triunfo no Jamor no banco verde e branco, numa final decidida no desempate nas grandes penalidades que parecia perdida perante o 2-0 para o Sp. Braga de Sérgio Conceição a dez minutos do final do tempo regulamentar e com os leões de Marco Silva reduzidos a dez desde os 14′ por expulsão de Cédric – e ainda hoje tem em plano de destaque na sala uma foto e as luvas de Rui Patrício nesse jogo. No ano passado, a imagem de ambos ficou guardada pelas piores razões e, poucos dias depois da final, anunciou a intenção de avançar com uma candidatura à presidência do Sporting assim que existissem eleições no clube.

Agora, na primeira vez em que assistiu ao jogo na tribuna enquanto presidente, viu de novo o Sporting a ganhar aquela que foi a sua 17.ª Taça de Portugal. E, com isso, cumpriu a primeira promessa feita na madrugada de 9 de setembro de 2018, quase quatro meses após ter estado como responsável do departamento médico na pesada derrota na final anterior com o Desp. Aves.

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