Primeiro foi Rio que respondeu a Marcelo, agora é Centeno que responde a Rio. O ministro das Finanças de António Costa, também presidente do Eurogrupo, esteve este domingo na Feira do Livro e foi questionado pelos jornalistas sobre a alegada “crise de regime” que Rui Rio diz existir no país. As declarações, transmitidas pela TVI24 e pelo jornal Eco, discordou: “Não acho nada que haja uma crise de regime”.

São 19 democracias maduras na área do euro, Portugal orgulhosamente faz parte desse grupo”, afirmou o ministro das Finanças.

Não encontrando crises, Centeno vislumbra nos 19 países que aderiram à moeda única uma situação positiva na área da economia e das finanças públicas: “Temos apenas de, com os instrumentos que temos, com base na situação económica e financeira muito positiva que hoje todos os países vivem, de reduzir a incerteza política”.

O ministro de António Costa comentou deste modo as declarações de Rui Rio, que afirmara na véspera, sábado, 1 de junho, que “a crise não está só à direita, a crise está no regime como um todo. Neste momento está à esquerda no poder e portanto disfarça à esquerda. Mas o problema é transversal, nós temos uma crise efetiva de regime, com um descrédito muito grande de todo o sistema partidário”.

As declarações de Rui Rio surgiram por sua vez após uma análise política do Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa, num comentário feito aos resultados dos partidos portugueses nas eleições europeias, previu que “há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos”.

Abstenção resulta sobretudo de “incerteza política”, diz Centeno

Afirmando que é preciso “reduzir a incerteza política” porque é aí que “reside a parte mais facilmente explicável e [mais] significativa da abstenção assim como das nossas incertezas económicas”, o ministro socialista nomeou exemplos específicos de situações que estimulam a incerteza: “Estamos há três anos a discutir o Brexit, levamos já anos a discutir as tensões comerciais, [existe] a incerteza sobre o processo orçamental italiano…”

Embora não encontre uma crise de regime em Portugal, Centeno encontra uma crise nos partidos de direita e centro-direita — e não apenas portugueses. Durante a apresentação do livro A Europa não é um país estrangeiro, de José Tavares, o ministro das Finanças apontou, citado pela RTP, que  “os partidos da direita e centro-direita europeu viveram em todos estes países durante muitos anos sem nenhuma oposição. Isso deixou de ser assim. Mas deixou de ser assim, na minha interpretação, porque a resposta e o benefício que esses partidos tentaram retirar e o benefício que tentaram retirar de uma gravíssima crise pela qual a Europa passou foi da expressão não há alternativa“, ou TINA (There Is No Alternative).

Para Centeno, o direita e centro-direita na Europa “não conseguiram lidar com o pós-crise, com a recuperação económica, com os desafios” que se colocavam, refugiando-se numa tese política de que não havia alternativa — não a tendo nomeado diretamente, referir-se-ia presumivelmente à austeridade enquanto solução de saneamento das finanças públicas de países do euro. A governação à direita na Europa “colocou, em muitos países, em muitos maus lençóis os partidos sociais-democratas”.