A Operação Oikos que rebentou na semana passada em Espanha, com a detenção e identificação de mais de 20 pessoas no âmbito de um complexo esquema de jogos combinados, teve na figura de Raúl Bravo a personificação de toda essa teia de interesses. E teve por variadas razões: 1) porque, de acordo com as autoridades, o antigo defesa era um dos principais cabecilhas da trama; 2) porque se tratava de um antigo campeão europeu pelo Real Madrid, onde ganhou vários títulos; 3) porque, no plano teórico, tinha o perfil de figura neste tipo de situações, por ser um ex-jogador reformado há não muito tempo, com notoriedade e que passou por vários clubes. No entanto, este processo está longe de se circunscrever apenas a uma só figura e é através de outro ex-jogador que chegam os últimos desenvolvimentos que confirmam a presença de jogos da Primeira Liga entre os suspeitos.

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Carlos Aranda, espanhol de 38 anos que deixou de jogar em 2015 e que chegou a ser internacional nas camadas jovens (Sub-17), tem ainda o registo do atleta que passou por mais clubes do primeiro escalão de Espanha: formado no Real Madrid, onde esteve nas mesmas equipas de Raúl Bravo, o antigo avançado esteve depois no Villarreal, no Albacete, no Sevilha, no Numancia (por onde já passara mas no escalão secundário), no Osasuna, no Levante, no Saragoça e no Granada, terminando a carreira na Segunda Liga. Mais do que os golos apontados, hoje é notícia por duas frases intercetadas pelas autoridades que poderão provar a existência de jogo combinado entre Valladolid e Valencia, que deu aos visitantes o acesso à Liga dos Campeões.

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“Olha irmão, o Valencia ganha a primeira e a segunda parte, ok?” e “Havia sete jogadores comprados” são duas das provas a que a acusação teve acesso através das escutas telefónicas que foram feitas com outros dos visados, de acordo com o El Mundo. O jornal avança que o juiz de instrução número 5 de Huesca tem na sua posse seis meses de escutas telefónicas. “O resultado acertado foi a vitória do Valencia no final da primeira parte e a vitória no final do jogo da mesma equipa, prognóstico este que efetivamente se cumpriu com a ajuda dos jogadores do Valladolid. Pela sua parte, Carlos Aranda e Raúl Bravo fizeram apostas desportivas nessa mesma linha do resultado combinado”, defende a acusação desta Operação Oikos. “Aposta 10.000 que vais ganhar 20.000 mas ninguém pode saber”, aconselha Aranda numa outra chamada intercetada pelas autoridades.

Como pivô desta estratégia estaria Borja Fernández, capitão do Valladolid que terminou a carreira no final desse mesmo jogo e que, segundo a acusação, terá sido a peça chave na hora de “condicionar e predeterminar” o resultado da partida com o Valencia –Borja Fernandez que, na sua formação, esteve também nas equipas C e B do Real Madrid, com Bravo e Aranda. “Tinha uma posição privilegiada para propor e influenciar alguns jogadores”. Há ainda mais pormenores da investigação, sobretudo em torno de Raúl Bravo, descrita como “a personagem mais esquiva, que muda constantemente de número e toma precauções utilizando telemóveis encriptados”: além de ter estado reunido nas instalações do Valladolid sem que se percebesse o final desse encontro, contactou com Borja Fernández dois dias antes do jogo, no Bar Corinto que pertence ao ex-capitão de equipa.

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Existiu ainda um churrasco em casa de um dos jogadores do Valladolid, Keko (emprestado pelo Málaga), que é visto como outro dos pontos chave da investigação. Nesse encontro estiveram ainda Borja Fernández, Antoñito, Kiko Olivas (todos titulares nesse jogo com o Valencia), Óscar Plano, Nacho e Moyano (estes últimos não utilizados). Em declarações feitas à COPE, o antigo capitão justificou o encontro como uma homenagem depois de ter anunciado que iria terminar a carreira, da mesmo forma como revelou que o encontro com Raúl Bravo serviu apenas para ajudar o antigo defesa no seu curso de treinador.

Ainda nesta Operação Oikos, neste caso sobre o jogo que acabou por iniciar todo este processo, há mais dados que mostram as dúvidas que existiam à volta do Huesca-Nàstic… ainda antes de se realizar: a investigação fez uma espécie de retrato da semana que antecedeu essa partida em 2017/18, a contar para a Segunda Liga, e percebeu que já existiam suspeitas internas de que o jogo poderia ter o seu resultado combinado de tal forma que, como escreve o El País, houve mesmo um prémio extra para os jogadores caso vencessem o jogo de festa pela primeira subida de sempre ao principal escalão por forma a evitar qualquer situação irregular como era falado nos bastidores. No dia seguinte à derrota, e perante as críticas feitas à exibição, os jogadores não só negaram qualquer tipo de esquema como alguns foram mesmo falar com o diretor desportivo da equipa, que era na altura Emilio Vega, dizendo que não tinham gostado da forma como o seu profissionalismo tinha sido colocado em causa.