Paulo Marques é enfermeiro “por vocação” há 32 anos. Foi no Porto, a sua cidade natal, que começou na prática clínica, mas em 2002 enveredou pela via académica e dedicou-se ao ensino. Hoje é professor na Escola Superior de Enfermagem do Porto e investigador do CINTESIS — Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde. Depois de publicar vários livros técnicos, há cerca de um ano surgiu a ideia de colocar no papel o “período negro” da sua profissão sentido em plena crise financeira e que teve como consequência o aumento do fluxo de emigração de enfermeiros portugueses. “Comecei a contactar antigos alunos que se viram obrigados a emigrar e lancei-lhes o desafio de partilharem a sua experiência”, explica em entrevista ao Observador.

Paulo selecionou nove histórias de jovens enfermeiros naturais do Porto, com idades compreendidas entre os 23 e os 25 anos, e que em comum tinham o facto de não quererem ir trabalhar para fora. “Em pleno pico da crise, entre 2011 e 2013, as oportunidades nesta profissão eram quase inexistentes e os valores que se praticavam eram pouco dignos, muitos pagavam apenas três euros por hora, já para não falar da falta de regalias, reconhecimento e valorização da nossa área”, lamenta o autor do livro Fora da Zona de Conforto.

“Fora da Zona de Conforto”, de Paulo Marques (Coolbooks)

Estados Unidos, Arábia Saudita, Inglaterra, Irlanda, França, Bélgica, Suíça e Alemanha foram alguns destinos escolhidos. “Queria reunir diferentes países para mostrar uma realidade diferente em todos eles.” Se uns foram sozinhos, outros levaram a família ou foram com um grupo de amigos, mas quase todos sentiram na pele dificuldades de integração, como a língua, “uma das dificuldades mais mencionadas no livro.” Apesar disso, a experiência profissional é vista como “algo positivo”, pois a adaptação à realidade de enfermagem local é fácil. Para Paulo Marques, isto prova que os enfermeiros portugueses estão entre os melhores do mundo e que o nível de formação em Portugal “é elevado” e “transversal”.

Uns trabalham em hospitais públicos, outros em privados, mas nenhum dos nove enfermeiros entrevistado por Paulo pretende regressar a Portugal.

“Esta é precisamente a ultima questão que lhes coloco no livro e nenhum deles pensa em voltar. Alguns ponderam regressar na reforma outros admitem daqui a uns anos pensarem de forma diferente, mas neste momento sabem que estão melhores lá fora.”

O professor considerou “fundamental colocar no papel o momento crítico” vivido na sua profissão, como forma de o eternizar para não cair no esquecimento. “Agora que se aproximam as eleições legislativas, espero que este assunto faça parte da agenda política.” Paulo Marques diz sentir “uma desmotivação muito grande” nos seus colegas, acrescentando que se trata de um “período triste” para a sua profissão.

“Espero que este livro seja o ponto de partida para uma discussão pública sobre o papel, a importância e a responsabilidade dos enfermeiros no nosso país. Se isso acontecesse já ficaria contente”, conclui.

Fora da Zona de Conforto será apresentado amanhã na Livraria Bertrand do Alameda Shopping, no Porto, tendo lançamento marcado para o início de julho em Lisboa.