Dois dias de Carlos César (e não só) a “malhar” nos parceiros da esquerda — especialmente no Bloco de Esquerda — e nem António Costa para salvar a honra da “geringonça” na hora do balanço da legislatura. No discurso de encerramento das Jornadas Parlamentares do PS, o líder do partido falou durante 34 minutos onde elogiou César, Ferro Rodrigues e uma longa lista de feitos do seu próprio Executivo, mas acabou por resumir a experiência à esquerda a um simples “valeu a pena”. Ainda assim, o socialista pede “humildade” para não deixar para trás “muitos problemas que continuam a precisar” dos socialistas.

Mesmo que nas intervenções anteriores — e nomeadamente numa que antecedeu Costa — a esquerda não tenha sido poupada, o líder socialista não apareceu para passar a mão pela maioria de esquerda. Perante os deputados socialistas reunidos em Viseu, António Costa apenas referiu “PEV, PCP e BE” para garantir que o PS nada lhes deve, ou seja, que com eles “cumpriu escrupulosamente os seus compromissos”. O segundo momento em que a esquerda serviu à narrativa do socialista foi quando se referiu à eleição de Ferro Rodrigues — cujo desempenho de funções elogiou — , mas também aqui para argumentar a seu favor e em como essa eleição veio provar que “havia uma outra maioria na Assembleia da República”. Recorde-se que o nome proposto pela direita, Fernando Negrão, foi chumbado por falta da maioria que só o nome de Ferro acabou por colher.

Resumindo: “O que o sistema político demonstrou foi que tem mais vitalidade do que alguns pensavam e que é possível no quadro político institucional, no respeito pelas forças políticas tradicionais, encontramos alternativas de Governo (…) foi possível construir, no quadro parlamentar, uma solução política alternativa. Quatro anos volvidos podemos dizer que valeu a pena“. E ponto.

Antes, Carlos César tinha colado os partidos à esquerda do PS, durante dois dias, à irresponsabilidade nas contas públicas, acabando mesmo a reclamar a libertação dos parceiros. E Ascenso Simões, deputado do partido, acrescentou mesmo antes de Costa tomar o púlpito, que é tempo de o PS deixar de “depender dos achaques, circunstâncias e leituras individuais, por exemplo, da sra. dra. Catarina Martins“. Costa não apareceu para fazer igual, mas também não se dedicou a defender a sua própria construção — o que já aconteceu noutros momentos, mas desaparece agora a três meses das legislativas.

A “legislatura diferente” e a “mudança de quadro político” são méritos políticos que Costa atribuiu a si mesmo. Lembrou que no” início até parecia que afinal era fácil”, mas também que “muitos achavam que era absolutamente impossível”. Depois lembrou que foi a segunda vez (a outra foi Guterres em 95-99) que um governo minoritário chegou ao fim. E este, liderado por si. Mas isto aconteceu por algum mérito à esquerda? Nem por isso. “Foi porque fomos capazes de o preparar bem”. Com a esquerda? Também não era a isso que Costa se referia, mas sim à Agenda para a Década, apresentada em 2015, e na qual assentou o seu programa eleitoral.

Embora admita que “há muitos problema no país” e que no PS “não há a inconsciência de achar que vivemos num mar de rosas”, garante que também não “se limitou a gerir o presente. Estivemos sempre também a preparar o futuro”. Para o sustentar, Costa apontou para “um Estado que é o terceiro mais seguro do mundo [para negócios], um Estado onde as pendências judiciais se reduzem em 35%, onde se devolve a confiança e se cria condições económicas para saldos migratórios positivos, que é um dos quatro países do mundo com políticas mais amigas das famílias, que investe na requalificação dos jovens e dos adultos, que aumenta o investimento em investigação e desenvolvimento, dá prioridade ao combate às alterações climáticas e assegura a sustentabilidade futura da Segurança Social”. Este extenso rol — que na longa intervenção ainda foi mais detalhado — serviu para concluir que “não está só a olhar para os dias que correm. Está a olhar para o futuro do portugueses”. 

O último minuto da intervenção foi dedicado a um travão: “Temos o dever democrático de sermos humildes e nunca ignorar que há muitos problemas que continuam a precisar de nós e o sentido de responsabilidade de perceber que o voto de confiança nas europeias não foi um cheque em branco, é para fazermos mais e melhor”. Mas houve um único exemplo assumido pelo líder — e pelos socialistas nestas jornadas — de que nem tudo correu bem. “Estamos a resolver défices acumulados, como no Serviço Nacional de Saúde”. A admissão de um problema que, mesmo assim, trazia a mira posta no passado.