Robert Mueller já tinha avisado, a 29 de maio, quando apareceu no Departamento da Justiça dos Estados Unidos da América para ler uma declaração escrita. Disse então: “Tem-se discutido uma eventual audição no Congresso. Qualquer testemunho não irá além do que está no nosso relatório. Ele contém as nossas descobertas e análises e as razões que nortearam as decisões que tomámos. Escolhemos aquelas palavras com cuidado e o trabalho fala por si mesmo. E o relatório é o meu testemunho. Não irei fornecer mais informação além da que já foi tornada pública em qualquer presença perante o Congresso”.

Quando Mueller afirmou que não diria nada de novo no Congresso — por palavras mais adequadas a um procurador-especial de Justiça que coordenou uma investigação que até poderia colocar um presidente dos EUA na mira de um impeachment (ou destituição) —, isso não demoveu o Partido Democrata, que acabou por coordenar com a sua equipa e com o departamento de Justiça norte-americano uma audição para este mês.

Esta quarta-feira, Mueller foi mesmo ao Congresso, mas provou que estava a falar a sério quando anunciou que não fugiria muito do guião. Na véspera, por exemplo, a revista New Yorker antevia: “Já temos uma ideia relativamente precisa do que Mueller vai dizer, porque ele já nos disse o que dirá”. Assim foi: quando ainda faltava mais de uma hora para o final da sua primeira audição, Mueller já tinha remetido respostas para a informação presente no relatório (há muito relevado) mais de 30 vezes. E assim continuou ao longo da manhã (tarde em Portugal). Na ponta final da audição no Congresso, a CNN fez as contas: Mueller “adiou” respostas (afirmando ter de verificar documentação posteriormente para responder), declinou responder ou remeteu respostas para as conclusões do relatório “pelo menos 111 vezes” durante as primeiras três horas em que esteve no Congresso, a responder ao Comité Judicial da Câmara.

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Novidades, Robert Mueller não deu muitas — a não ser a certeza que a interferência russa na política norte-americana “não foi uma tentativa única”: “Estão a fazê-lo enquanto estamos aqui sentados e esperam fazê-lo durante a próxima campanha”, garantiu.

Além disso, revelou pela primeira vez que não se tinha candidatado ao cargo de diretor de FBI imediatamente antes da sua nomeação para liderar a investigação à interferência russa nas eleições presidenciais dos EUA. Trump reagiu logo no Twitter, desmentindo-o e dizendo que tinha testemunhas de que Mueller se tinha candidatado e tinha sido rejeitado — que incluem “o vice-presidente” do país, Mike Pence.

Resposta em falso ou fugiu-lhe a boca para a verdade?

Já na ponta final da primeira audição, Mueller quase disse o que ainda não tinha dito — ou melhor, disse mesmo, mas corrigiu a seguir. Tudo aconteceu quando o antigo procurador-especial, progressivamente com mais hesitações e notoriamente mais desgastado com o passar das horas, foi questionado pelo democrata Ted Lieu se o motivo pelo qual não tinha acusado Donald Trump de obstrução à justiça fora a posição da OLC, divisão do departamento de Justiça dos EUA, que entendeu que um presidente em funções não poderia ser acusado. O antigo procurador-especial foi claro: “Correto”. Pouco depois, acrescentou mais cautelosamente que não subscrevia necessariamente que as ações de Trump (descritas no relatório) consubstanciassem, por si, crime de obstrução à Justiça.

A adenda foi defensiva: por um momento, pareceu que Mueller estava mesmo a dizer que, caso pudesse acusar juridicamente um presidente em funções, teria colocado Trump no banco de tribunal. Ou seja, que só não o acusava porque não podia. Mueller já tinha referido que essa limitação tinha afetado “muito” as deliberações finais do relatório, documento que o antigo procurador voltou a lembrar esta quarta-feira que “não iliba realmente e completamente” o presidente, ao contrário do que Trump e os seus apoiantes reclamam (embora também não o acuse formalmente). Nunca tinha, porém, dito tão claramente — embora corrigindo a seguir — que o motivo principal pelo qual não acusou o presidente norte-americano foi não o poder fazer, segundo a lei. Debbie Lasko, do Partido Republicano, não deixou de notar a discrepância: “Não foi isso que disse”, acusou.

Talvez acusando no toque, no início da segunda audição, Mueller quis clarificar acrescentando “uma correção ao meu testemunho desta manhã”. Lembrando que Ted Lieu lhe tinha perguntado se não tinha acusado Trump “por causa da opinião da OLC”, apontou: “Não é a forma correta de o dizer. Como dizemos no relatório e como disse na abertura [da primeira audição], não chegámos a uma determinação sobre se o Presidente cometeu um crime”. Ou seja, não foi só por não o poder acusar que Trump não foi acusado.

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O que Mueller não disse nem antes nem esta quarta-feira foi algo que poderia ser importante para construir o puzzle da reação de Trump à investigação sobre a interferência russa nas eleições norte-americanas. Questionado sobre se Trump tinha recusado ser entrevistado pela equipa de investigadores, Mueller confirmou logo na primeira audição: tentou durante mais de um ano uma entrevista presencial. Era “vital” para a investigação — e Trump e a sua equipa foram informados disso, mas não acederam. A alternativa foi enviar perguntas, a que Trump respondeu por escrito. Questionado sobre se as perguntas envolviam questões relacionadas com eventual obstrução à justiça, Mueller confirmou — mas não disse, porque teria “de verificar” para confirmar, se o presidente dos EUA respondeu a perguntas sobre esse tema em específico (muito menos disse o que Trump respondeu).

Na segunda audição, voltou a ser confrontado com o testemunho de Trump, enviado por escrito. Questionado sobre se algumas das suas respostas “incompletas” estavam relacionadas com um projeto de construção em Moscovo, afirmou: “Sim”. Face à insuficiência das respostas, foram enviadas novas perguntas. O Presidente respondeu? “Não”. As suas respostas estavam em contradição com outras provas reunidas durante a investigação, correto? “Sim”.

Instado a responder sobre se o presidente norte-americano se mostrou credível no testemunho, o antigo procurador especial de justiça afirmou: “Não posso responder a essa questão”. Mas as respostas mostram que nem sempre disse a verdade? “Diria… geralmente sim”. Então, porque é que não forçou uma audição presidencial de Donald Trump? Mueller explicou: o tempo de litigância jurídica não permitia essa opção e, no balanço entre as provas já reunidas, o valor da entrevista e o tempo que demoraria a obter o depoimento, entendeu-se que seria melhor não prolongar em demasia a investigação.

“Não vou especular”, “vou passar essa”…

Entre as expressões mais utilizadas por Mueller durante as cerca de três horas da primeira audição no Congresso, estiveram “não vou aprofundar mais esse assunto”, “não vou especular”, “vou passar essa”, “remeto para o que está escrito no relatório”, “não vou responder a essa pergunta” e “na generalidade, diria que sim” — a última das quais uma confirmação recorrente às muitas perguntas (quase retóricas) de alguns elementos do Partido Democrata no Comité Judicial do Congresso. O que Mueller não fez foi validar ou corroborar as teses dos congressistas democratas, que ligaram Donald Trump a obstrução de justiça por vários motivos, resumidos pela CNN:

  1. Por ter pedido a demissão de Mueller como investigador principal
  2. Por ter encorajado a que se mentisse de modo a que a vontade de demitir Mueller não fosse tornada pública
  3. Por ter tentado interferir no andamento da investigação, pedindo que esta o excluísse
  4. Por ter encorajado a que não se cooperasse com a investigação, premiando elementos como o seu antigo chefe de campanha Paul Manafort
  5. Por ter encorajado o seu antigo advogado Michael Cohen também a não cooperar com a investigação judicial, cortando relações com ele quando o fez

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Na segunda audição, já perante um outro comité — para assuntos relacionados com os Serviços Secretos —, manteve-se cauteloso (não respondeu claramente por mais de 60 vezes, segundo a CNN) e insistiu na defesa da sua investigação, garantindo que não se tratou de uma “caça às bruxas”. Questionado sobre se campanha russa de desinformação nas redes sociais nas presidenciais norte-americanas pretendia beneficiar Donald Trump ou Hillary Clinton, respondeu contundente: “Donald Trump”. Logo a seguir, acrescentou: “Embora tenha havido momentos nos quais Hillary Clinton foi sujeita ao mesmo comportamento”.

Outro dos momentos fortes foi quando a democrata Terri Sewell recordou um momento em que Donald Trump Jr., filho do então candidato presidencial, recebeu a notícia de que elementos russos teriam informação comprometedora sobre Clinton e estariam na disposição de “ajudar”. A resposta foi “love it” — e elementos próximos de Trump ainda marcaram uma reunião com as tais fontes russas, mas acabou por ser “uma perda de tempo”. Sewell perguntou: “Alguém na campanha de Trump alguma vez falou ao FBI dessa oferta, por aquilo que sabe?”. A resposta de Mueller: “Creio que não”. Apercebendo-se que Sewell prosseguiria, acrescentou: “Vou… vou… [o que disse] é tudo o que vou dizer sobre este aspeto”.

A declaração mais explosiva surgiria já cerca de seis horas depois de Robert Mueller ter começado a responder no Congresso dos Estados Unidos da América. Questionado se achava que a interferência russa nas presidenciais de 2016 tinha sido uma “tentativa única” de envolvimento em eleições norte-americanas ou se poderia ser repetida, o antigo procurador especial de justiça foi incisivo e não descansou ninguém: “Oh, não foi uma tentativa única. Estão a fazê-lo enquanto estamos aqui sentados e esperam fazê-lo durante a próxima campanha”.

O trabalho do poder judicial está feito, deu Robert Mueller a entender esta quarta-feira, defendendo a qualidade, seriedade e assertividade do relatório, perante as muitas críticas republicanas — foi acusado de ter tido uma equipa de investigadores parcial, anti-Donald Trump, de se ter apoiado muito em notícias de jornais que o presidente dos EUA considera seus inimigos e de ter perseguido sem motivos um cidadão que não está acima da lei, “mas também não deve estar abaixo da lei”. Também foi colocada em causa a origem desta investigação. Mueller recusou todas as críticas e garantiu que nunca lhe tinha ocorrido “perguntar a uma pessoa a sua afiliação política” antes de a integrar numa investigação. Agora, o que se segue cabe ao poder político: como Mueller já tinha dado a entender, e reforçou esta quarta-feira, o presidente dos EUA só pode ser acusado e julgado após sair de funções. Até lá, cabe a democratas e republicanos avaliarem a gravidade dos atos descritos no relatório que a sua equipa gizou.

Mueller insiste: “Se tivéssemos confiança de que o Presidente não cometeu um crime, tê-lo-íamos dito”