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Vodafone Paredes de Coura

“O futuro é agora, motherfuckers”. O tornado Patti Smith varreu Coura com a liberdade na ponta da língua

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Era de Patti Smith o concerto mais aguardado do último dia de atuações. Paredes de Coura fechou para férias, mas despediu-se com um símbolo aglutinador de um passado indie-punk.

Hugo Lima

Se os New Order eram a banda que mais curiosidade suscitava para a edição deste ano do festival de Paredes de Coura, que entrou já na lista de uma das melhores da década, Patti Smith era o nome que todos conheciam: mais velhos e mais novos, melómanos e ouvintes de música mais ocasionais. A música é importante, claro, mas Patti Smith é uma figura multidisciplinar. Há quem a leia, quem a oiça, quem lhe conheça a influência e a militância no meio intelectual nova-iorquino das últimas décadas. É uma celebridade indie e punk além música e é difícil encontrar quem não a tenha na melhor consideração mesmo que não a oiça diariamente.

O estatuto foi visível este sábado, no concerto mais mobilizador do último dia de atuações do festival. Do início ao fim, houve comunhão total entre “Patti Smith e a sua banda”, como se apresenta oficialmente e nos cartazes há muito, e os ouvintes de Coura. Mas foram merecidas: num concerto de hits (muitos dos quais alheios), a norte-americana correspondeu por completo ao estatuto de cabeça de cartaz e recuperou o espírito de contracultura dos anos 1960 e 1970 e da “paz e liberdade” que apregoou também em Portugal como bandeiras.

As primeiras palavras, se não foram de circunstância, foram de quem tem na memória o carinho sentido em atuações anteriores: “Olá a todos, é bom estar de volta”. Vestida de casaco preto e calças também escuras, arrancou com um dos seus êxitos mais famosos que ditaria o tom do concerto: “People Have the Power”, onde lembra que as pessoas “têm o poder para redimir o trabalho dos loucos”. Ainda a canção ia a meio e Patti Smith, sempre discretamente performativa, já tirara a boina e a atirara para trás de si. Acabou de braço erguido, a dar o mote para a sua constante pregação: “Não se esqueçam de usar a vossa voz”, gritou.

À frente no palco, tendo por perto a maioria dos elementos do grupo que atualmente a acompanha — um guitarrista, o veterano e prestigiado Lenny Kaye, um teclista, um baixista e outro (fantástico) guitarra, ficando o baterista mais atrás — passou para “Redondo Beach”, um dos temas do seu histórico álbum de estreia Horses, que já apresentou ao vivo na íntegra noutro festival português, o Primavera Sound do Porto.

Já com o cabelo comprido e grisalho ao vento — brincou com isso mais tarde dizendo que tinha um “fio de cabelo prateado na boca” –, Patti Smith avançou para uma das várias versões de “clássicos respeitados” que tocou esta noite: “Are Your Experienced?”, na qual os guitarristas da sua banda brilharam, tentando fazer jus àquele que para quase todos foi um dos maiores génios do instrumento, Jimi Hendrix. Apresentou a versão — que já cantara no álbum de versões Twelve, de 2007 — antes de a interpretar, como sendo “uma canção sobre unidade”, porque “é o que precisamos para este mundo, não precisamos de nacionalismo nem de isolacionismo, precisamos de unidade!” E quando o tema chegou aos versos “Trumpets and violins I can hear in the distance / I think they’re calling our names / Maybe now you can’t hear them, but you will”, gritava já como diseur de poesia interventiva, pregadora inconformada dos direitos humanos e da liberdade.

“Are You Experienced?” chegou ao fim e Patti Smith explicou: tinha-se enganado, quando falara numa canção sobre a importância de as pessoas se unirem estava a referir-se ao tema seguinte, “escrito pelo Lenny” (o seu guitarrista). Mas estava tudo bem porque “o Hendrix também era defensor da unidade, da fucking peace and love [paz e amor]”.

Em “Ghost Dance” a banda já tinha dois guitarristas acústicos, Patti Smith voltava a interagir com o público batendo palmas e recebendo-as de volta. a nova-iorquina já dividia o microfone e terminava a pedir para o público abanar ambas as mãos. Feliz com a resposta, atirou: “Obrigado. Vocês são lindos”. Prosseguiu daí para um registo quase spoken word, a atirar aos “homens tolos” e ao desperdício de “plástico” juntando a intervenção ao clássico dos anos 1980 “Beds Are Burning”, dos Mignight Oil, cujo refrão (“How can we dance when our earth is turning / how do we sleep while our beds are burning”) toda a gente tinha na ponta da língua.

Depois de um “pequeno problema técnico” que contornou perguntando às pessoas “como estavam”, se estava “toda a gente bem?”, Patti voltou à sua discografia: recuperou “Dancing Barefoot” à ponta final dos anos 1970 e foi aos anos 1990 resgatar a balada que escreveu a meias com Lenny Kaye, “Beneath the Southern Cross”, que chegou a cantar com Jeff Buckley, para dedicar “a todos os que amamos e perdemos mas continuam vivos na nossa memória. Para todos os que perderam e têm na vossa memória, [esta canção] é para eles, que sejam todos abençoados”. E que grandes solos de guitarra se ouviram, até Patti Smith voltar a pregar o seu apelo à rebelião construtiva: “Levantem os braços, pessoas! Sintam a vossa liberdade. Vamos o mundo o mundo, o futuro é agora, motherfuckers”. Poderá soar piroso a quem não tiver sentido a tensão latente de Patti a gritar, como se algumas das palavras fossem as mais importantes que alguém algum dia poderá dizer, nomeadamente “free! free! alive!”, que repetiu como se fossem receitas mágicas.

A segunda metade do concerto foi estrondosa. Começou por um medley de “I’m Free”, dos The Rolling Stones, com “Walk on the Wild Side”, de Lou Reed (esta última interpretada boa parte sem Patti Smith em palco), depois de a banda lembrar que 2019 é “o 50º aniversário do melhor e mais livre festival de sempre”, o Woodstock, pelo que iriam continuar a “celebrar a liberdade”. Ouviram-se gritos de “Patti! Patti!”, ela agradeceu com as mãos cruzadas sobre o coração, houve uma belíssimo versão de Neil Young (“After the Gold Rush”), ouviu-se mais uma canção do Patti Smith Group (“Pissing in a River”) e tudo acabou com os dois grandes ases da cantora e escritora, “Gloria” (escrita por Van Morrison para o seu grupo Them) e “Because the Night”, composta por Bruce Springsteen e Patti Smith e que a cantora lançou em 1978.

Pode-se argumentar que, não fossem as versões de êxitos alheios, dificilmente um concerto de Patti Smith seria tão memorável em 2019: faltam-lhe êxitos populares e de massas (embora lhe sobrem canções históricas, cujas letras evidenciam uma enorme qualidade lírica) para poder ter o público a cantar consigo do início ao fim sem recorrer a repertório alheio. Mas soma-se o magnetismo que Patti Smith emana, de cabelo grisalho ao vento e movimentos deliciosamente desconjuntados, uma voz que aos 72 anos permanece única e uma banda que parece capaz de tocar qualquer coisa que se lhe peça, e apetece dizer duas coisas. A primeira é que Patti Smith faz bem em frisar que os concertos que dá são em grupo. A segunda é que esta banda que lidera, quando não interpreta com brilhantismo as grandes canções que Patti registou (também o faz), é a melhor banda de versões do mundo.

Hip-hop deslocado com Freddie Gibbs e Madlib, britpop com os Suede

Como nos dias anteriores, com os The National, New Order e Spiritualized, também este sábado todos os restantes concertos do dia pareceram não se aproximar sequer das faíscas criadas por Patti Smith. Isso diz mais do impacto que toda esta gente teve no público, tirando os Spiritualized que não lograram o mesmo consenso mas contornaram-no com brilhantismo musical, do que dos concertos, porque a 27ª edição do Vodafone Paredes de Coura distinguiu-se das anteriores também pela qualidade e diversidade do alinhamento musical dos seus dois palcos.

Um concerto pareceu especialmente deslocado, este sábado: o de Freddie Gibbs e Madlib. Não é que a dupla que reúne o histórico produtor musical de hip-hop de Oxnard, Califórnia, ao rapper-gangster de Indiana, seja pouco digna do festival. Na verdade, Gibbs e Madlib têm construído juntos algumas peças —dois discos, mais especificamente, o último dos quais lançado este ano — de um puzzle que é o melhor hip-hop dos últimos anos: ainda sujo, ainda sem cantorias e melodias delicodoces, ainda das ruas. Mas o tom do concerto, sem banda e com agressividade e incisão máximas, soou estranho e desalinhado das restantes atuações.

Para as filas da frente, que conheciam muitas letras de cor e festejaram com encontrões e festa juvenil boa de ver, foi um grande concerto, de um produtor de beats absolutamente icónico e de um rapper que disparar rimas a uma cadência vertiginosa. Para muitas filas mais recuadas da colina, foi estranho ver um rapper em tronco nu, pose de rufia do bairro com mais talento do que os vizinhos, a gritar repetidamente “fuck the police”. A atuação merece uma nova oportunidade, perante um público mais identificado com a linguagem que Madlib e Freddie Gibbs dominam como poucos, porventura num outro festival que tenha mais familiaridade com o hip-hop.

Se Freddie Gibbs e Madlib não convenceram na íntegra a maioria do público que estava no festival para ouvir Patti Smith, os britânicos Suede, que encerraram a noite no palco principal — 20 anos depois de terem atuado na primeira grande enchente de Coura —, aproximaram-se um pouco mais do tom pop-rock que predominou nesta edição. Muitos jovens (à exceção de alguns resistentes, que permaneceram maravilhosamente sempre junto às grandes, a absorver tudo o que ouviam) deram lugar a trintões, fãs antigos do britpop, linha dura do cabelo à irmãos Oasis. Ainda assim, a sintonia entre público e banda, não tendo sido inexistente, também não foi total: atrás das primeiras filas de convertidos de longa data, viciados no pop-rock luminoso e de guitarras cervejeiras do Reino Unido, via-se alguma apatia e indiferença ao que Brett Anderson e companhia faziam em palco.

Intercalando energia elétrica com versões acústicas e baladas, revisitando sobretudo o legado deixado pela banda nos discos dos anos 1990 (até ao já menos consensual Head Music, o quarto, foram resgatar duas canções, “You can’t Get Enough” e — já no encore e em versão acústica — “She’s in Fashion”) embora com passagens por canções recentes, os Suede deram um concerto saudosista que convenceu sobretudo os já mais do que convencidos. Ainda assim, é impossível não notar a boa forma de Brett Anderson, que continua a ser um performer magnético: é impossível tirar os olhos do vocalista dos Suede durante todo  o concerto. Mesmo sendo injusto ignorar a base instrumental assegurada por baterista, guitarrista, baixista e teclista, é no vocalista que todas as atenções se prendem, enquanto Brett Anderson, lavado em suor, canta ajoelhado, deitado, a saltar, no meio do público, ajoelhado no fosso dos fotógrafos, de todas as formas e feitios. Só não para quieto, chegando a levar emprestada por um momento uma das câmaras de vídeo que asseguravam a transmissão nos grandes ecrãs para a voltar para o público das filas dianteiras, enquanto cantava para ele.

Num concerto eficiente e coerente com a história da banda, ao longo de pouco mais de uma hora, destacaram-se a intimidade de “By The Sea” — com Brett Anderson a começar a cantar deitado no chão —, o rock de “So Young” (com riffs de guitarra que deram a muitos saudades do Reino Unido dos 90’s) e o êxito, ainda popular, ainda contagiante, “Beautiful Ones”. Notório foi também o engenho do vocalista, elogioso para com o público e mais comunicativo do que o costume, em contornar a necessidade lógica de tocar canções novas: quando por aí enveredou, sacou mais uns truques de espetáculo da manga, criando focos de entretenimento e atenção (por exemplo, aproximando-se dos fãs) que evitaram que a passagem por temas menos conhecidos tornasse o concerto desigual.

A uma hora menos adiantada, viram-se ainda das atuações que mobilizaram público e que se revelaram apostas acertadas, cada uma à sua dimensão: a dos portugueses Sensible Soccers, no palco secundário, e a da cantora e compositora nascida no Japão, estabelecida nos EUA mas com morada passada em vários países, Mitski, no palco principal. Os primeiros, oriundos de Vila do Conde, mostraram que são hoje uma banda mais robusta ao vivo do que no passado, interpretando com “nota artística”, para usar a expressão de um treinador português de futebol, a sua eletrónica ora mais espacial ora mais direta e dançante, quase permanentemente estimulante. Foi tão bom que soube a pouco: apetecia adiantar a hora do horário do concerto dos Sensible Soccers para noite mais avançada, porventura antecipando o concerto do britânico do funk-jazz Kamaal Williams, também interessante na sua mistura de tradição com vanguardismo digital mas que exigia menos uma hora tardia.

Já Mitski foi a escolhida para atuar ao final da tarde no palco principal e revelou-se uma aposta certeira do público. Bastante acarinhada pela imprensa e crítica musical — o seu quinto álbum, Be The Cowboy, foi eleito no ano passado o melhor de 2018 para a publicação musical de referência Pitchfork —, atraiu muito público à colina principal do recinto para o habitual num horário diurno. Era notório que muita gente tinha curiosidade em vê-la pela primeira vez ao vivo e era percetível também que muitos melómanos conheciam as suas canções. A atuação, teatral e performativa, não nos convenceu por inteiro: às canções parece faltar algum sal que as torne tão boas quanto sugerido por algumas publicações musicais. Já a Mitski pareceu-nos faltar algum poder vocal para as engrandecer ao vivo num palco desta dimensão. Não foi um mau concerto, apenas pareceu acertada a decisão de colocar uma coqueluche do indie norte-americano a uma hora diurna no palco principal. Tivesse a atuação sido agendada para mais tarde e talvez já resultasse em deceção.

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