A líder do Partido Conservador na Escócia, Ruth Davidson, anunciou esta quinta-feira a demissão. Davidson justifica a decisão sobretudo com motivos pessoais — por querer passar mais tempo com a família, nomeadamente o filho, nascido no ano passado — mas também profissionais. “Temo que, por ter tentado ser uma boa líder nos últimos anos, mostrei ser uma má filha, irmã, parceira e amiga. O partido e o meu trabalho sempre estiveram em primeiro lugar, muitas vezes à custa das relações e compromissos com os entes queridos. O nascimento do meu filho significa que agora faço uma escolha diferente”.

Ruth Davidson liderava os tories escoceses desde 2011 e é contra um Brexit sem acordo. Durante o referendo de 2016, Davidson fez campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia e chegou a debater contra Boris Johnson num debate televisivo.

“Enquanto que nunca escondi o que sentia sobre o Brexit, tentei traçar um caminho para nosso partido que reconhecesse e respeite o resultado do referendo, procurando maximizar oportunidades e mitigar os riscos para os principais negócios e setores escoceses”, disse na carta de demissão, publicada no Twitter. Além disso, refere que “inevitavelmente, muito mudou durante os anos da minha liderança — a nível pessoal e no contexto político”. E descreve a liderança do partido como “o privilégio da minha vida”.

Numa conferência de imprensa esta quinta-feira, Ruth Davidson apelou aos membros do Parlamento para que aprovem um acordo, de forma a evitar uma saída desordenada. O apelo estendeu-se a Boris Johnson, a quem diz ter pedido, numa reunião na semana passada, que garanta uma saída com acordo em Bruxelas. Davidson avançou que Johnson lhe garantiu que “categoricamente” estava a tentar esse desfecho. “Apoio-o nesse esforço”, disse.

E dirigindo-se aos colegas do parlamento, acrescentou: “Tiveram três oportunidades, desperdiçaram cada uma delas, não desperdicem uma quarta. (…) Por favor, tornem claro que se um acordo voltar à Casa dos Comuns, vocês vão votar a favor e vão permitir que a União Europeia vos oiça dizer isso, para que eles saibam que vale a pena reabrir as negociações.”

E concluiu: “Se o primeiro-ministro trouxer um acordo à Casa dos Comuns como sei que está a tentar fazer, por amor de Deus, apoiem-no e à quarta vez aprovem”.

As reações à demissão não se fizeram esperar. Depois de mais de um mês em silêncio no Twitter (a última publicação é de 24 junho, data da sua demissão), a ex-primeira-ministra britânica Theresa May voltou a esta rede social para lamentar a saída da líder escocesa. “Obrigada por tudo o que fizeste pelo teu partido e pela nossa União, ao longo dos último oito anos, e aproveita o teu tempo de família bem merecido com Jen e Finn”.

O primeiro-ministro, Boris Johnson, agradeceu o “serviço maravilhoso” de Davidson, que “dedicou muito tempo e energia” à liderança dos conservadores escoceses. “Tem sido fundamental para o renascimento de nossas vitórias eleitorais na Escócia”. Numa outra publicação escreve mesmo: “Sentirei falta da incrível liderança que ela deu ao nosso Partido na Escócia, mas estou feliz por ela continuar a usar a sua paixão e dedicação para defender o lugar da Escócia no Reino Unido. Desejo a Ruth, Jen e Finn tudo de melhor para o futuro”.

Jo Swinson, líder do Partido Liberal Democrata, também usou o Twitter para deixar uma mensagem a Ruth Davidson. Reconhecendo que a política do seu partido é diferente, Jo Swinson elogia a “abordagem radical” de Ruth Davidson. “Desejo-te a ti e a Jen tudo de bom. Aproveita todos aqueles momentos mágicos com o bebé Finn”, acrescentou.

Em reação à notícia, Nicola Sturgeon, primeira-ministra da Escócia, disse que “mais tarde haverá oportunidade para discutir a decisão” da sua demissão, mas não para já. “Por enquanto, desejo-lhe simplesmente o melhor”, escreve.

Parlamento suspenso até 14 de outubro

Na quarta-feira, Nicola Sturgeon tinha dito, depois da suspensão do Parlamento, que o plano de Boris Johnson é “um dia negro para a democracia do Reino Unido”. E já na altura deixou um conselho a Ruth Davidson.

Dadas as suas declarações anteriores contra um Brexit sem acordo, seria bom ter a confirmação de Ruth Davidson hoje [quarta-feira] de que todos os deputados Tory escoceses apoiarão o esforço de vários partidos na próxima semana para pará-lo. E que eles também se oporão à tentativa de Boris Johnson de encerrar o Parlamento”, publicou no Twitter.

Nick Bowles, que este ano saiu do Partido Conservador depois de ter apresentado um plano para um Brexit mais “suave”, que foi recusado duas vezes, também já se pronunciou na rede social Twitter esta quinta-feira sobre a decisão de Boris Johnson. “O comportamento descuidado dos destruidores que agora controlam o Partido Conservador torna muito mais provável várias reformas políticas e constitucionais: representação proporcional, uma constituição escrita e separação de poderes entre o executivo e o Parlamento. Eles podem vencer esta batalha em particular. Mas vão perder a guerra.”

O Governo britânico refutou as críticas, garantindo que vai haver tempo para debater sobre o ‘Brexit’, afirmou esta quinta-feira o ministro para os assuntos parlamentares, Jacob Rees-Mogg.

“Vai existir o debate sobre o Discurso da Rainha, que normalmente dura entre quatro a cinco dias, e durante esse período as pessoas [deputados] podem levantar qualquer tema que desejem. Podem dedicar o tempo todo a discutir a saída da União Europeia. Mas também vai realizar-se o Conselho Europeu e haverá tempo para discutir quaisquer decisões que sejam tomadas nesse Conselho”, disse à BBC.

Entretanto, uma petição contra a suspensão do Parlamento britânico já conseguiu mais de 1 milhão de assinaturas, e o número continua a aumentar.

O parlamento não pode ser suspenso ou dissolvido a menos que o artigo 50.º tenha sido suficientemente prolongado ou a intenção do Reino Unido de sair da União Europeia tiver sido cancelada”, lê-se na petição.

O artigo 50.º do Tratado da União Europeia, que rege a saída de um Estado-membro, dita que um país possa sair dois anos após o pedido formal de saída, data que pode ser adiada a pedido do País em causa e com a concordância de todos os outros Estados-membros. A data atual para a concretização do Brexit é 31 de outubro. O primeiro-ministro britânico já prometeu que o país sairá da UE nesse dia, “com ou sem acordo”.

O antigo primeiro-ministro conservador, John Major, colocou em causa a legalidade da decisão de Boris Johnson, acrescentando não ter dúvidas de que o objetivo foi “contornar um Parlamento soberano que se opõe à sua política sobre o Brexit”. Em reação, Johnson garantiu que é “completamente mentira” que esteja a tentar evitar que o Parlamento se organize de modo a impedir um Brexit sem acordo.

Um pouco por todo o Reino Unido multiplicaram-se os protestos — num dos quais uma portuguesa deixou o seu testemunho emocionado —  nomeadamente junto ao Palácio de Westminster, em Londres.

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E foram já apresentadas duas ações judiciais contra a suspensão do Parlamento. Uma entregue por Gina Miller, uma ativista que já em 2016 recorreu à justiça para forçar o parlamento a legislar contra o Brexit antes que o artigo 50 fosse invocado. A ação agora entregue por Miller num tribunal superior é um recurso urgente para analisar o plano de Boris Johnson de suspender o parlamento. A ativista argumenta que pode provar que o primeiro-ministro “enganou o país”.

A outra ação judicial parte das mãos dos advogados de um grupo de deputados escoceses — que acreditam ser possível reverter a suspensão do parlamento e que a decisão de Johnson é inconstitucional — e vai ser apresentada num tribunal da Escócia. Aqueles opositores do Brexit acreditam que é possível reverter a suspensão do parlamento e vão pedir aos juízes que receberem o caso para declararem a medida ilegal e inconstitucional.

Os deputados ainda vão reunir a 3, 4 e 5 de setembro, mas o Parlamento será suspenso a partir de 9 de setembro. Uma nova sessão só será reaberta a 14 de outubro.