Rui Rio não está “minimamente preocupado” com o que vai acontecer no dia a seguir às eleições: se fica na liderança do PSD ou se sai. Em entrevista à TVI, o líder do PSD afirma que no day after vai fazer uma análise ao custo-benefício, sendo que o benefício é ser ou não capaz de prestar um serviço ao país (ser ou não útil ao país). “Se conseguir prestar esse serviço, justifica-se lá estar. Se não conseguir, então o custo é demasiado alto e isto torna-se insuportável”, disse na primeira parte da entrevista. E o que é esse serviço ao país? É António Costa chamá-lo para um acordo amplo de reformas estruturais.

A concretização do que queria dizer, contudo, só veio depois, na segunda metade da entrevista: se o PSD não ganhar as eleições, como preveem todas as sondagens, então Rui Rio admite vir a viabilizar o governo do partido que ganhar (leia-se, PS), mas só se estiver em causa um acordo parlamentar para as grandes reformas estruturais, como a Segurança Social ou a Justiça. Ou seja, Rio deixa o outro governar se for em nome das reformas estruturais, e não para “governar por governar” em nome de um acordo como o que a atual “geringonça” fez, que apenas dizia respeito a questões de “gestão corrente”.

Para esse tipo de negociação de mercearia, Rio não quer contribuir. Outra coisa diferente é um acordo que seja feito em nome das reformas estruturais, reformas essas que o país só consegue fazer com o entendimento extra-partidário. Isso, sim, é ser “útil”, é “servir o país”.

“Um acordo no Parlamento, com um partido ou dois, alargado ou não, permitindo naturalmente que um outro partido possa governar, que dê ao país oportunidade de fazer as reforma estruturais, isso acho que sim. Tanto faz eu ficar em primeiro e ganhar ou em segundo e não ganhar. Ponho a questão do país à frente”, disse o líder do PSD quando procurava justificar que na sua cabeça está a ideia de que, se perder eleições, só se manterá no cargo se for para se “sentir útil”.

Questionado sobre se equaciona um acordo idêntico ao que a atual “geringonça” assinou, Rio rejeitou a ideia de negociar, orçamento a orçamento, o aumento disto ou daquilo. “Não é para isso que estou neste lugar, não tenho grande perfil para andar de orçamento em orçamento a fazer uma coisa tipo queijo limiano, de baixa aqui ou acolá. Temos é de jogar com o poder dado pelo eleitorado para forçar o país a ter as reformas que o país precisa de ter”, disse. E concretizou: “Qualquer acordo que possa haver, estando eu maioritário ou não, tem de ser um acordo de ordem estrutural”. O que é “relevante” para Rui Rio é que “nestes quatro anos se consiga que o país rompa os estrangulamentos que tem”.

Antes, Rui Rio já tinha rejeitado a ideia de um bloco central de governação, insistido contudo na ideia de que “o país precisa de pessoas com capacidade para dialogar”. “Posso não perceber nada de política, e podem dizer que sou tolo, mas esta é a minha convicção”, disse. “O mais importante não é se viabiliza o governo ou deixa de viabilizar, o importante são as reformas que o país precisa e que só é possível com os dois maiores partidos”, disse na mesma entrevista, sublinhando que PSD e PS têm essa “obrigação”. Uma obrigação que se traduz, em termos práticos, em “acordos de incidência parlamentar” e não num bloco central de governação.

Questionado sobre o cenário macroeconómico do PSD e a possibilidade de vir ser alterado em função de uma crise económica externa, Rui Rio afirmou que nunca irá “desequilibrar as contas públicas”, admitindo por isso ajustamentos no “grau” de aplicação das medidas propostas pelo PSD em função da conjuntura externa. “Não temos bruxos, temos economistas — dos bons, mas não são bruxos”, disse, admitindo que se houver uma alteração do cenário externo, daqui a um ano, o cenário macroeconómico do PSD pode ter de vir a ser ajustado. Em todo o caso, afirma, o plano de redução de impostos, aumento do investimento público e aumento da despesa corrente foi desenhado em cima daquilo que o Conselho de Finanças Públicas considera mais “previsível”.

O problema, diz, foi que o “PS distribuiu tudo o que tinha, e não ficou com nada para preparar o futuro”. É isso que o PSD quer evitar. Para isso, o plano passa pegar numa folga orçamental de 15 mil milhões de euros e, dessa folga, usar 25% para reduzir impostos (metade sobre a família, metade sobre as empresas), 25% para aumentar investimento público e 50% para aumentar a despesa corrente, explicou, sublinhando que o quadro económico do PSD não é “otimista”.

Perante uma pergunta de Mário Nogueira, presidente da Fenprof, que estava na plateia, Rui Rio admitiu ainda que vai insistir na questão da contagem do tempo dos professores, mas ressalvando que a contagem pode não se traduzir inteiramente em salário. Foi o polémico episódio da crise dos professores, em vésperas de eleições europeias, que fez os partidos da direita ficarem ao lado da esquerda radical na fotografia, deixando para o Governo a imagem de garante das boas contas. Na altura, António Costa ameaçou demitir-se caso PSD e CDS aprovassem, com a esquerda, a proposta de reposição integral do tempo de carreira congelado. Agora, foi a vez de Rio fazes as pazes com o líder da Fenprof, e prometer que se vai bater por uma “negociação global” em nome da “dignificação da carreira docente”.