O objetivo era boicotar a transmissão do debate entre Rio e Costa, ou “Dupont e Dupond” — como a CDU apelidou os líderes do PS e PSD — que foi transmitido em simultâneo pela RTP, SIC e TVI a partir das 20:30 desta segunda-feira. A CDU já tinha mostrado há muito o seu descontentamento com o modelo de debates escolhido para estas legislativas, mas a estratégia de transmitir à mesma hora uma entrevista só foi conhecida na terça-feira.

O primeiro problema foi técnico e obrigou a atrasar a emissão da entrevista, que tinha hora marcada para as 21h, já o debate entre Rio e Costa levava grande avanço. O canal de Youtube, um dos locais onde seria transmitida a entrevista, não chegou a transmitir um único minuto em direto. E havia pessoas à espera, chegaram a ser mais de 200, depois das 21 horas. Ao mesmo tempo, a caixa de comentários ia-se enchendo de utilizadores do Youtube que esperavam “pacientemente e até que os olhos se fechassem” pelo início da transmissão.

Só no Twitter foi possível assistir à entrevista de 52 minutos, gravada na tarde de segunda-feira, ao secretário-geral do PCP. A jogar em casa, num estúdio montado pela campanha da CDU, Jerónimo de Sousa trouxe novidades, pelo menos no campo das críticas feitas aos partidos que concorrem às legislativas. O ataque mais direto — e talvez um pouco inesperado — foi mesmo para André Silva, o deputado do PAN, “que só agora descobriu a ecologia” e propõe eliminar a produção de carne e leite no país. Jerónimo de Sousa deu o exemplo dos Açores para criticar o partido: “Uma proposta destas está a dizer ao povo açoriano que o melhor é fechar as ilhas e vir embora porque não têm meios de subsistência?”.

O secretário-geral do PCP disse que “não conhece ninguém que não goste de defender os animais”, mas que isso não deve ser sinónimo de “adulterar ou subverter princípios fundamentais do relacionamento do homem com o próprio animal”. Jerónimo recordou ainda o trabalho “pioneiro” que Os Verdes — o partido com quem vai coligado às urnas — tem feito ao longos dos anos, mas não deixou de criticar “a falta de cobertura” aos temas do ambiente e da ecologia, caros a um partido “que não é só ambientalista, é ecologista” defende Jerónimo de Sousa.

Jerónimo defendeu que o custo dos transportes públicos deve ser reduzido, com o objetivo de alcançar a gratuitidade, que as pequenas explorações agrícolas devem ser protegidas, o eucalipto substituído por plantas autóctones e que a pegada ecológica seja reduzida, “mas não pela via que alguns defendem”. E a quem se referia Jerónimo de Sousa? Àqueles que têm uma “visão repressiva de impor a um povo” outros hábitos. E com algum humor à mistura Jerónimo acrescentou: “Eu também gosto de vegetais, mas um bom bife também calha bem”.

“Acabámos com as cativações”

Jerónimo de Sousa atirou para o ministério de Centeno a responsabilidade pelo desinvestimento em alguns setores públicos, já que — afirmou — o PCP “conseguiu verbas para este ou aquele serviço”, mas depois esbarravam nas cativações. “O Governo foi arrastando os pés, fazendo que anda mas não anda e chegava-se ao fim do ano orçamental e esse dinheiro não tinha sido aplicado nesses serviços públicos”, disse acrescentando depois que por iniciativa do PCP “hoje não existe cativação”.

“Nós acabámos com as cativações, a verdade é que tendo em conta as orientações rígidas do ministério das Finanças, hoje não existe cativação com aquela proposta do PCP, mas primeiro que se desembrulhem para concretizar o reforço do financiamento designadamente do SNS é uma carga de trabalhos.

Outra área que mereceu críticas de Jerónimo foi a proposta — “um malabarismo político” — do PS de dar 2% do Orçamento do Estado para a cultura, quando o PCP propõe 1%. “António Costa junta todas as verbas que são direcionadas para áreas culturais e não só. 1% para a cultura pode parecer uma proposta recuada, mas o governo propõe 2%, não propõe nada. Nos propomos 1% para a cultura, bailarinos, orquestras, teatro, cinema… Temos a necessidade de mais profissionais”, clarificou Jerónimo de Sousa.

Nos 52 minutos de entrevista apenas três questões foram colocadas, aparentemente, a partir do exterior — seguindo o apelo lançado pelo partido há uma semana nas redes sociais e no site —, lidas pela jornalista que conduziu a entrevista. E numa delas, sobre a questão da paridade, Jerónimo de Sousa fez questão de “clarificar um equívoco” frisando que “ser-se mulher não é condição para ter consciência de classe” e que tem na lista mais de 48% de mulheres, numa lista que é também “rejuvenescida”.

E a geringonça?

A questão veio de fora, anteriormente selecionada pelo partido, e questionava o secretário-geral do partido sobre alguns descontentes com o facto do PCP ter dado a mão ao PS e viabilizado o governo, com a famosa geringonça. Num tom ligeiro, Jerónimo de Sousa admitiu, sem dificuldade, que “pode haver um ou outro descontente, um ou outro preocupado ou com dúvidas”, mas não se mostrou preocupado com eventuais “consequências” dessa aliança com os socialistas (e bloquistas, ainda que nunca se fale no Bloco de Esquerda). Jerónimo tem a garantia que a decisão foi validada “pela direção, pelo comité central pelo Congresso e ouvidas as bases” o que traduz um verdadeiro exemplo de opção democrática, afirmou.

“Se vamos sofrer consequências pelo que fizemos que se diga, em abono da justiça, se foi por causa do que fizemos do que propusemos e conquistámos, teríamos um resultadão para a Assembleia da República no dia 6”, disse Jerónimo, aproveitando a deixa para criticar todas as vezes em que “António Costa não se libertou de uma política de direita” recordando as matérias dos táxis, das PPP, da legislação laboral e do Banif onde, diz, o PS “procurou a sombra protetora e o pronto socorro do PSD e do CDS”.

No que diz respeito aos ordenados e à tão afamada “maior carga fiscal de sempre”, com que o PS tem sido confrontado neste tempo pré-eleitoral, Jerónimo trouxe uma nova justificação: “Independentemente do volume, não existe carga fiscal, existe injustiça fiscal”. Jerónimo acusou ainda a direita de “procurar confundir os conceitos” quando na verdade aquilo que existe em Portugal é um regime desigual onde “quem ganha pouco paga muito e quem ganha muito paga pouco”.