Uma visão do país, da política e de alguns dos problemas mais estruturais da sociedade portuguesa. José Manuel Fernandes e Rui Ramos, fundadores e colunistas do Observador, foram desafiados a reunir em dois livros algumas das suas crónicas mais marcantes e apresentaram esta segunda-feira o resultado final. Os livros “A Conspiração Oligárquica” e “Como garantir que Portugal Ficará Pobre Para Sempre” foram editados pela Cinco Um Zero, a editora que é também responsável pelos projetos em papel do Observador.

Numa conversa informal que teve lugar na FNAC do Colombo, em Lisboa, João Miguel Tavares, publisher da editora Cinco Um Zero, fez a apresentação das duas obras — que inauguram, assim, a coleção “Biblioteca Observador” — e contou como tudo nasceu de um desafio colocado aos dois colunistas para reunirem as suas melhores crónicas.

O livro de Rui Ramos, “Conspiração Oligárquica”, reúne cerca de meia centena de artigos que o historiador publicou desde o fim do governo de Passos Coelho até à reta final do governo de António Costa. E porquê este título, com a palavra “oligarquia”? Em parte, responde, com um sentido provocador e também com um objetivo de ser um fio condutor entre as crónicas. “Quando o João Miguel Tavares me propôs uma reunião de artigos da minha colaboração no Observador, sugeriu-me também que o livro tivesse uma linha condutora, que não fosse pura e simplesmente uma seleção de textos. E para atingir isso foi extraordinariamente vantajoso, de facto, que eu tivesse esta ‘obsessão’ com a palavra oligarquia, porque permitiu imediatamente arranjar esse fio condutor”, explicou Rui Ramos durante a apresentação.

O historiador explicou ainda que “quando foi preciso restringir aquilo que o Estado parecia dar aos cidadãos” — em alturas de dificuldade do poder económico e num “enquadramento dos cidadãos num sistema de dependência” — “houve uma tendência para se reforçarem determinados mecanismos de controlo”. O objetivo, conta, foi “identificar a elite política que estava a fazer isso”, daí também a palavra oligarquia, que “refere logo um regime minoritário ou um regime de pouca gente”.

Uma característica da atual democracia portuguesa é a manutenção do poder: os mesmos personagens e as mesmas organizações há muitos anos”, sublinhou ainda Rui Ramos.

No seu entender, e tal como refere a sinopse do livro, a democracia portuguesa deu origem a “uma classe dirigente especializada”, que foi dominando a economia e o espaço público através do Estado. Esta “conspiração oligárquica” a que se refere Rui Ramos é, em grande parte, protagonizada pelo Partido Socialista. “A partir de uma base de recrutamento restrita (‘uns quantos amigos e umas quantas famílias’), formou-se um poder ideologicamente indefinido mas muito forte, que hoje domina Portugal”, refere ainda a sinopse seu livro.

Já sobre a palavra “conspiração”, também presente no título do seu livro, Rui Ramos explicou durante a apresentação que a fragilidade do regime e da economia portuguesa “criou uma mentalidade mais defensiva e, portanto, é conspirativo nesse sentido”.

Quis chamar aqui a atenção para um outro tipo de movimento que também pode colocar em causa uma democracia: aqueles que já estão instalados, a elite dirigente instalada, a classe política profissional. Ela própria, de alguma maneira, contribui para a degradação do regime através de mecanismos defensivos. Esta degradação pode ser feita através de uma maior opacidade, de uma maior resistência ao escrutínio, por exemplo”, acrescentou ainda Rui Ramos durante a apresentação.

As crónicas de José Manuel Fernandes sobre um “país de oportunidades perdidas”

José Manuel Fernandes apresentou o livro “Como Garantir que Portugal Ficará Pobre para Sempre”, que reúne mais de duas dezenas de artigos publicados ao longo dos últimos anos e que traçam um retrato do Portugal contemporâneo. Para o jornalista e publisher do Observador, Portugal é um “país de oportunidades perdidas”, refletido numa “falta de ambição” que impede “perspetivas de um futuro melhor para as novas gerações”.

O título do livro é também o título de uma das crónicas que foram publicadas. Os textos, admite José Manuel Fernandes, “refletem algum pessimismo” em relação à situação portuguesa. “E é um pessimismo que não tem apenas a ver com o poder neste momento. Acho que há algumas questões que são mais estruturais na sociedade portuguesa e que não me deixam muito otimista”, referiu o jornalista do Observador.

José Manuel Fernandes explicou ainda que no momento em que começou a ver o que tinha escrito para reunir as crónicas para o seu livro, percebeu que os problemas que abordava “tinham a ver, no fundo, com a razão pela qual o país foi ficando para trás nos últimos tempos”. E, aponta, eram várias as questões: “O porquê de termos tido três bancarrotas, o porquê de eu sentir que a minha geração podia ter feito bastante melhor do que aquilo que fez, o porquê de termos uma população que criou dependências do Estado muito grandes, de uma classe empresarial que nunca se libertou dessas dependências e que vive nessa cultura”. “Olhámos para trás e vemos que isso não é de hoje, encontramos isso bem para trás“, acrescentou.

Para o publisher do Observador, há uma certa prisão ao passado que “está bastante entranhada na sociedade”. E por isso, acrescenta, “é que é tão difícil em Portugal fazer reformas”. “Cada vez que há uma reforma há uma desconfiança enorme em relação àquilo que se passa porque há um terrível receio de correr risco, de coisas que impliquem um maior grau de liberdade, de tudo o que saia da norma. Não temos medo de coisas que sejam novas, desde que elas não estejam dentro daquilo que não implique pôr em risco os nossos hábitos”, explicou.

Apesar do pessimismo que diz ter, José Manuel Fernandes foi desafiado a apontar também algumas qualidades portuguesas: “Quando temos um estímulo forte, safámo-nos”, começou por dizer. Além disso, há que ter em conta também o grande crescimento das cidades nos últimos anos: “Não tenho nenhuma nostalgia de Alfama a cair de podre ou de o bairro da Sé do Porto cheio de tráfico de droga. Nenhuma nostalgia disso”, enfatiza.

Os livros de José Manuel Fernandes e Rui Ramos já estão disponíveis em qualquer livraria e têm um custo de 7,90 euros.