Pensar em Jürgen Klopp, à partida, é pensar num dos treinadores mais emotivos do futebol europeu. O técnico alemão corre, grita, esbraceja, testa os limites das linhas das zonas onde pode estar e confronta os árbitros de frente. Quem observa Klopp durante os 90 minutos de uma partida — quem observou Klopp durante os 90 minutos da segunda mão das meias-finais da Liga dos Campeões, em que o Liverpool eliminou o Barcelona em Anfield –, depreende que o futebol é tudo para o treinador. Em tudo o que tem de bom e em tudo o que tem de mau, o futebol parece preencher grande parte da vida do alemão. Mas mais do que observar, é preciso ler e compreender. E quando escreve e procura compreensão, Jürgen Klopp abre uma caixa de Pandora que tem vários vértices para lá do futebol.

Na semana em que foi considerado o melhor treinador do mundo pela FIFA, ao conquistar o The Best na gala que decorreu em Milão e deixar para trás Pep Guardiola e Mauricio Pochettino, Jürgen Klopp escreveu um longo texto para o The Players’ Tribune, onde abordou aquilo a que chama “vida real”: a vida que teve antes de se tornar um dos treinadores mais populares da segunda década do novo milénio. “Honestamente, quando tinha 20 anos, se alguém do futuro me dissesse tudo o que iria acontecer na minha vida, eu não teria acreditado. Se o Michael J. Fox [protagonista do filme “Regresso ao Futuro”] aparecesse no skate voador dele a dizer-me o que iria acontecer, eu teria dito que era impossível”, começa por dizer o alemão, explicando depois como era o dia-a-dia na altura em que ainda estudava e tinha acabado de ser pai do primeiro filho.

O treinador recebeu esta segunda-feira a distinção de melhor treinador do mundo na gala da FIFA que decorreu em Milão

“Dormia cinco horas todas as noites, ia para o armazém de manhã e depois para as aulas durante o resto do dia. De noite ia para os treinos e depois voltava para casa para tentar passar algum tempo com o meu filho. Foram tempos muito difíceis. Mas ensinaram-me coisas sobre a vida real”, garante Jürgen Klopp, que explica depois que os treinadores e jogadores de futebol não são deuses — são “simplesmente pessoas que nunca desistiram dos sonhos”. Numa forma de apoiar o projeto Common Goal, criado por Juan Mata, em que vários jogadores e jogadoras estão a doar 1% dos respetivos salários a organizações não governamentais que financiam escolas de futebol em países em desenvolvimento, o alemão lembrou que todos os envolvidos no mundo do futebol são “extremamente afortunados”.

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“É nossa responsabilidade, enquanto privilegiados, ajudar as crianças no mundo inteiro que só precisam de uma oportunidade na vida. Não nos devemos esquecer do tempo em que tínhamos problemas reais. Esta bolha em que vivemos não é o mundo real. Peço desculpa, mas nada que aconteça num campo de futebol é um problema real. Deve existir um propósito maior para este jogo do que dinheiro e troféus, não? Se calhar sou ingénuo. Se calhar sou só um velho louco e sonhador”, acrescentou Klopp. O treinador do Liverpool, que está atualmente na liderança da Premier League, revelou ainda que não assistiu ao momento do golo de Origi que colocou os ingleses em vantagem na eliminatória frente ao Barcelona e garantiu a passagem à final da Liga dos Campeões que acabaram por conquistar.

“Infelizmente, o momento mais inacreditável na história da Liga dos Campeões…eu não o vi. Talvez isto seja uma boa metáfora para a vida de um treinador de futebol, não sei. Mas eu perdi completamente o momento de génio do Trent Alexander-Arnold. Vi que era canto. Vi o Trent a andar para bater o canto. Vi o Shaqiri ir atrás dele. Mas depois virei as costas porque estávamos a preparar uma substituição. Estava a falar com o meu adjunto e — arrepio-me sempre que penso nisto — só ouvi o barulho. Virei-me para o campo e vi a bola a voar para a baliza”, contou o técnico de 52 anos.