José Azeredo Lopes não se lembra de ter recebido no seu telemóvel, através da aplicação WhatsApp, o memorando da Polícia Judiciária Militar (PJM) relativo à encenação (ilegal) da recuperação das armas de Tancos. Se recebeu, porém, uma mensagem com o memorando, esta terá sido apagada: é que Azeredo diz que “tinha por hábito todas as semanas apagar tudo” do seu telemóvel, por medida de segurança (“foi o conselho que me deram”), e “antes de sair dos telemóveis” apagou “os telemóveis todos”.

As explicações foram dadas pelo antigo ministro da Defesa, acusado de quatro crimes, ao juiz de instrução João Bártolo, durante um interrogatório no Tribunal de Instrução Criminal (TIC) a cujo conteúdo o semanário Expresso teve acesso.

[Contradições, revelações e o que ficou por explicar. O filme da Comissão de Inquérito a Tancos:]

O interrogatório aconteceu “a 4 de julho, no dia em que foi constituído arguido no caso” — e antes de o Observador ter revelado que a acusação ao ex-ministro apresenta como prova um SMS aparentemente comprometedor que Azeredo terá enviado ao deputado socialista Tiago Barbosa Ribeiro, a dizer “eu sabia” — os dois estariam a falar da recuperação das armas de Tancos, que acontecera de modo ilegal e que acabara de se tornar pública. Eis as comunicações entre o ex-ministro e o deputado socialista que a acusação apresentará como prova:

“TBR: Parabéns pela recuperação do armamento, grande alívio…! Não te quis chatear hoje
AL: Foi bom: pela primeira vez se recuperou [sic] armamento furtado. Eu sabia, mas tive de aguentar calado a porrada que levei. Mas, como é claro, não sabia que ia ser hoje
TBR: Vens à AR [Assembleia da República] explicar?
AL: Venho [sic] mas não poderei dizer o que te estou a contar. Ainda assim, foi uma bomba”

Vasco Brazão? “Não está bom da cabeça”

Acusado pelo antigo major da Polícia Judiciária Militar, Vasco Brazão, de ter estado a par do processo de recuperação ilegal das armas roubadas nos paióis de Tancos, Azeredo Lopes terá tentado descredibilizar Brazão ao juiz João Bártolo, a 4 de julho, dizendo (segundo o Expresso): “As suas declarações mostram que é alguém que está perturbado, é um mitómano, não está bom da cabeça”. E questionou: “Que interesse tinha eu em ficar cúmplice de um crime? Qual era a minha vantagem?”