O Pavilhão João Rocha recebeu na noite desta quinta-feira a Assembleia Geral do Sporting para votação do Relatório e Contas do exercício de 2018/19, com um lucro ligeiramente superior a 140 mil euros. No entanto, e tal como já era aguardado, este foi mais um encontro onde se notou a contestação a Frederico Varandas, presidente dos leões que viu tarjas no exterior e ouviu apupos do início ao fim no interior do recinto, numa reunião magna que terminou com a aprovação do único ponto na Ordem de Trabalhos com 52,95% dos 7.431 votos a favor mas com mais associados a votar contra (596 contra 756), naquele que foi o Relatório a passar mais à tangente nas últimas décadas. Aliás, contando com brancos e nulos, as percentagens seriam 51,65% a favor e 45,85% contra.

“Impera a democracia no Sporting, no Sporting vai imperar sempre a democracia. O Sporting é uma grande instituição, com mais de 160 mil sócios, com mais de 90 mil sócios pagantes. Vai sempre prevalecer a vontade da maioria dos sócios, quer gostem quer não. Apresentar a demissão? Essa pergunta é ridícula”, atirou Frederico Varandas à saída do Pavilhão João Rocha. “Os sócios votaram como entenderem e o Sporting é democrático. As ilações políticas destes resultados terão de ser retiradas pela Direção a seu tempo, a quem o compete. O Sporting é um clube muito grande. O trajeto que tem de ser feito é para a pacificação do clube. Porque temos de pôr os olhos num clube que tem 3 ou 4 milhões de adeptos. O sucesso do futebol, financeiro e das modalidades levará o clube à união”, acrescentou Rogério Alves, presidente da Mesa da Assembleia Geral.

Quando os membros dos órgãos sociais desceram do Multidesportivo de Alvalade (onde curiosamente se realizou a primeira AG com Frederico Varandas na liderança do clube) até ao Pavilhão João Rocha, foram ouvidos alguns insultos entre duas tarjas colocadas nos arredores da rotunda junto ao recinto, uma com a hashtag #VarandasOut que já tinha sido vista em alguns pontos da A3 e da CRIL, bem como no jogo com o Desp. Aves, e outra que acusava os atuais responsáveis de serem “Amadores” – tarjas que, a pedido da força policial que marca presença junto ao Pavilhão, acabaram por ser retiradas entretanto dessas zonas onde tinham sido colocadas.

No interior do recinto, que contava inicialmente com quase 600 inscritos às 20h30 (hora da segunda chamada, de acordo com a convocatória anunciada pelo clube), o presidente verde e branco voltou a ouvir alguns apupos, tal como Rogério Alves, líder da Mesa da Assembleia Geral que recusou alguns requerimentos para acrescentar pontos ou inverter a ordem de trabalhos mas comentou no meio da argumentação que estava em marcha o processo de alteração estatutária, tema que já tinha sido falado na última campanha – mesmo tendo em conta as mudanças ainda na vigência de Bruno de Carvalho, em fevereiro de 2017. A alusão a Jorge Fonseca também foi contestada, não pelo feito do atleta mas por um alegado “veto” que terá sido feito pelo Sporting no seguimento do seu triunfo no Campeonato do Mundo pelos elogios feitos ao antigo líder do clube.

Em pouco mais de meia hora, Frederico Varandas usou da palavra entre assobios e aplausos, subindo depois ao palanque Francisco Salgado Zenha, vice para as finanças, para explicar em resumo o Relatório e Contas que será votado. Mas também aqui há margem para protestos: ao contrário do que é normal (ou numa exceção nunca antes vista no passado recente), a votação abriu no arranque da reunião magna, sem as habituais explicações ao documento em causa, o que permitiu por um lado que algumas pessoas exercessem o seu direito e saíssem, e outras contestassem aquilo que entendem ser uma “manobra” para conseguir uma maior votação favorável.

Entre outras notas, Frederico Varandas teve uma frase que acabou por despertar sentimentos contrários mas que não passou ao lado, quando disse que gostaria de unir todos os sportinguistas mas não pode fazer nada quando alguns sportinguistas não querem estar unidos. No discurso, voltou a utilizar a frase “credibilizar a instituição e evitar a falência do Sporting” (também muito contestada), além de ter falado da necessidade de dar estabilidade ao clube, das reformas que têm vindo a ser feitas e da reestruturação financeira, sempre numa ótica de projeto a médio/longo prazo que terá frutos ao longo da próxima década na realidade verde e branca.

Antes, uma parte onde se concentram mais elementos das claques ou apoiantes de Bruno de Carvalho acusaram Varandas de ser um “ditador”. Nas intervenções seguintes dos associados, grande parte a contestar o atual elenco, foram levantadas questões como a apresentação dos rendimentos dos órgãos sociais que tinha sido abordada durante a campanha eleitoral; a auditoria de gestão que chegou ao domínio público com os vencimentos de todos os funcionários da SAD e do clube sem que houvesse resultado do inquérito interno feito; ou o concurso público de adjudicação para as obras que estão agora a ser feitas na Academia.

Ao todo, estavam inscritos na primeira hora e meia de Assembleia Geral 1.406 associados, com uma nuance: muitos faziam a respetiva acreditação, votavam e saíam do recinto. Em relação aos discursos, 28 sócios apresentaram à Mesa a intenção de exercer a palavra (com uma estimativa média de três minutos por cada uma das intervenções, que de quando em vez é superado). Miguel Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho no processo do ataque à Academia em Alcochete, foi um dos primeiros a falar no Pavilhão João Rocha. Pouco depois, por volta das 22h, houve um momento de maior tensão com a tentativa de chegada a um associado por parte de seguranças mas tudo acabou por serenar até com responsáveis de uma das claques a serenar os ânimos. Sousa Cintra, antigo presidente e líder da SAD com a Comissão de Gestão, queria intervir mas não conseguiu, votando e saindo. Pontualmente existem ainda alguns focos de tensão no Pavilhão mas de fácil resolução.

“Varandas não está a conduzir bem os destinos do Sporting e queria dizer isso frente a frente. Não entendo como não houve uma palavra de agradecimento ao trabalho fantástico da Comissão de Gestão, uma coisa absurda. Estiveram lá por amor ao clube, sem ganhar nada. Depois o chorrilho de disparates que disse… Disse-lhe que lamento bastante, ele disse coisas que não são verdade. Sobre Bas Dost, aumentei apenas o empresário. Sobre Bruno Fernandes, tive de aumentar o empresário que o Sporting devia-lhe dinheiro. Fiz o que era possível fazer. E o que ele tem feito? Não respeita minimamente os sócios, não tem jeito para ser presidente do Sporting, para isto. Parece que é dono da quinta, só ele basta”, comentou Cintra à saída do Pavilhão.

Na parte final, subiram ao palanque alguns vices do Sporting. Salgado Zenha tocou na questão da reestruturação financeira sem dar grandes pormenores “para não favorecer os rivais” e repetiu alguns dos argumentos utilizados na AG da SAD sobre o protocolo com o Wolverhampton para entrada no mercado asiático que fez com que dois milhões de euros “caíssem” no acordo com o clube inglês por Rui Patrício; já João Sampaio, além de admitir que o clube não tem a capacidade de apurar de quem foi a fuga da informação que colocou a auditoria no domínio público e entregou o caso às autoridades, fez ainda a comparação sobre a questão dos aumentos salariais dos administradores com o período de Bruno de Carvalho; Filipe Osório de Castro garantiu que houve um concurso de adjudicação para as obras na Academia; e Miguel Afonso assumiu ter havido um erro do jornal a propósito de Jorge Fonseca mas disse também que o atleta faltou ao respeito aos leões. Varandas, no último discurso, sentiu mais a contestação entre um ambiente de maior tensão, elevou o tom de voz visivelmente exaltado com as críticas e atirou “beijinhos” para as bancadas, altura em que voaram alguns Relatórios e Contas.

Curiosamente, ao contrário do que se poderia pensar, o comunicado enviado na véspera à CMVM a propósito da reestruturação financeira acabou por não ser tão abordado como se esperava. No mesmo, e em resumo, a SAD do Sporting anunciou a opção de recompra dos VMOC por 40,5 milhões em vez dos 135 milhões de euros, além de uma diminuição da percentagem que fica na banca para reembolso antecipado obrigatório e reforço das Contas Reserva. Em relação ao Relatório e Contas do clube que está agora a ser votado, o mesmo apresenta um lucro de 141 mil euros, existente também graças aos 1,7 milhões do mecanismo de solidariedade de Ronaldo.

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