Um dia, a espera havia de terminar. Esse dia chegou: 11 de Outubro de 2019, data em que se inaugura oficialmente o renovado Teatro do Bairro Alto, TBA em versão reduzida. Um dia antes da abertura de portas ao público – com um programa que inclui dois espectáculos, de Josefa Pereira e Alessandro Sciarroni, e uma conferência de Franco “Bifo” Berardi – Francisco Frazão, diretor artístico, recebeu alguns jornalistas à porta, para uma visita guiada que começou ainda na rua. Sim, porque qualquer tour de (re)conhecimento carece sempre de um enquadramento, para que ninguém vá vendado. Foi aí que Frazão explicou que o TBA “é o novo teatro municipal de Lisboa, dedicado à experimentação nas artes performativas”, que surge depois do fecho do teatro Maria Matos (a programação infantil e juvenil desse mesmo extinto teatro já tinha encontrado nova morada no LU.CA).

Prosseguiu, focando o importantíssimo legado que o TBA recebe por se inscrever no antigo espaço de uma das mais importantes companhias portuguesas de teatro de sempre: o Teatro da Cornucópia. E foi precisamente a estrutura dirigida por Luís Miguel Cintra e por Cristina Reis que lhe deu o nome, Teatro do Bairro Alto, em homenagem a António José da Silva, mais conhecido por “O Judeu”, um essencial dramaturgo e criador português do século XVIII, que muito utilizava bonifrates – uma espécie de bonecos suspensos, talvez antecessores ou primos das marionetas – no seu teatro, que tinha este nome. E não se fica por aqui. Ainda Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo não tinham formado a Cornucópia e fizeram, no Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, com encenação de Cintra, “O Anfitrião”, um texto de António José da Silva, que continha uma personagem chamada Cornucópia.

É por todas estas linhas e mais algumas que a nova equipa do Teatro do Bairro Alto lhe decidiu manter o nome e também porque TBA, a sigla, em inglês, significa To Be Announced, expressão que sempre se testemunha em datas de digressão por anunciar, em pedaços de programação incompletos.

“Isto liga-se com o nosso trabalho porque queremos que o TBA não seja visto como um teatro que está agora a começar, mas que foi começando, e que terá vários momentos, vários começos”, explica Francisco Frazão, que antes de aqui chegar estava à frente da programação de teatro da Culturgest, durante a administração de Miguel Lobo Antunes.

Por isso houve também um programa que antecipou a sua abertura ao qual chamaram “(Quase) Teatro do Bairro Alto”: entre junho e julho, em vários espaços em redor do Príncipe Real, foram apresentadas conferências, performances e espectáculos como que para abrir o apetite.

Convém explicar que as principais obras e o grosso do investimento feito pela EGEAC no imóvel teve que ver com questões de acessibilidade – para que pessoas e artistas com mobilidade reduzida possam frequentar o TBA – e de segurança, bem como um investimento bastante avolumado em aspetos técnicos, mantendo a versatilidade que a sala da Cornucópia já tinha. “Tivemos também uma preocupação ecológica na sala, poupança de energia, e ao mesmo tempo, quisemos torná-la mais eficiente em termos de rapidez e facilidade de montagem, porque o nosso ritmo de apresentação e o nosso modelo de produção é distinto do da Cornucópia. Não é melhor, nem pior, é diferente, ainda que nesse sentido acho que há que fazer um luto não só pelo fim da Cornucópia, que habitou este espaço nos últimos 41 anos, mas também por uma forma de fazer as coisas que, pelos vistos, deixou de ser possível fazer em Lisboa”, afirma Francisco Frazão.

Os corredores, as salas, os WC sem género

Enxugadas as lágrimas – dentro do possível, claro – entramos. Onde estava a bilheteira será o elevador, que ainda não chegou, mas que deve chegar até ao final do ano. A bilheteira atual está onde estavam as casas de banho da entrada do tempo da Cornucópia. Em baixo, o foyer, onde também está o bar, prevalece como Sala Manuela Porto, mulher essencial no teatro e na literatura da primeira metade do século XX em Portugal.

É aí que temos o primeiro assalto mais surpreendente: não que esteja francamente diferente, mas porque lá está uma instalação de José Capela, cenógrafo da Mala Voadora, chamada deslocação do baldio para o fim da rua. Quem muito ia à Cornucópia saberá do que falamos, está a ver aquele baldio ou parque de estacionamento, se preferir, que está ao fim da Rua Tenente Raúl Cascais? A partir de fotografias de José Carlos Duarte, Capela reinventou o foyer do teatro com uma instalação que para gente fraca – como quem escreve estas palavras – é tontura imediata. No fundo, parece que estamos dentro desse tal baldio ao fim da rua, todas as paredes são forradas com a natureza daquele espaço, o chão é igual, a areia e a sua rugosidade, as plantas invasoras, a vegetação rasteira, as beatas no chão. É difícil perceber o que é que aqui é real ou é ilusão. Parece um desafio de realidade virtual. E é de uma beleza impressionante. Até as mesas e os puffs lá colocados estão forrados com o solo do baldio.

No mesmo piso, há umas portas-espelhos deslizantes que servem para abrir o espaço como prolongamento do bar e como acesso às casas-de-banho, que, já agora – e até apetece dizer finalmente – são WC SEM GÉNERO. E como não há bengaleiros, há cacifos, num recanto que devolve a memória do namoro escolar num canto mal iluminado.

Mas a memória também pode ser tramada. Pode levar a uma extensão no tempo indesejada, a uma falsa verdade. Isto para dizer que a verdade é que já se suspirava por ver este espaço aberto. A equipa está aqui desde Setembro, mas a primeira visita de Francisco Frazão ao espaço foi em Fevereiro de 2018, ainda em processo de candidaturas. Agora que está tudo, praticamente, no ponto, fomos obrigados pela consciência a perguntar ao diretor artístico como é que se sente ao ver o bebé nascer finalmente:

“Os pais não reparam que os filhos estão a crescer, portanto não me sinto nada numa relação de paternidade com este espaço, mas acho que o facto de acompanharmos o dia-a-dia, acho que faz com que as grandes transformações apareçam gradualmente e por isso não há aquele impacto que pode haver para quem vier cá depois de dois ou três anos. Mas sim, eu vim cá ainda durante o processo de candidatura, tenho visto o espaço em todas estas fases e é incrível ver que a coisa aconteceu e que o esforço de muita gente que foi bem para lá daquilo que estava obrigado a fazer compensou”.

Está pronto… mas não totalmente

É, ainda assim, verdade que há um ou outro detalhe por cumprir. A ausência do elevador é algo que deixa Francisco Frazão pouco confortável, isto porque num teatro que tanto apostou na acessibilidade… é meio complicado justificar que ainda não o tenha pronto, mas um elevador, enfim, não é um maço de tabaco que se mete no bolso: “O elevador, com muitos sentimentos de culpa… nós queríamos começar com a ideia da acessibilidade já pronta, é algo tão importante para o nosso projeto, foi até uma coisa que muito posta em causa quando se disse que este seria o novo teatro municipal, mas que não conseguimos, e que tem que ver com o fornecimento do próprio elevador. Nós sabemos que estamos a desiludir algumas pessoas que queriam vir nos primeiros tempos, mas ao mesmo tempo pesaram os compromissos com os artistas e também o não querer defraudar essas expectativas, seria sempre uma escolha difícil”, clarifica.

Refira-se ainda que, no verão de 2019, a entrada dos artistas, que é um terreno municipal, sofrerá também obras para que se torne acessível a todos os artistas, mesmo aqueles com mobilidade reduzida. Mais a sala de ensaios, que neste momento, ainda serve de escritório para a equipa do TBA, mas que em breve será efetivada como sala de ensaio e ainda poderá receber pequenos espectáculos, de lotação reduzida, ou conferências.

Todos sabemos como todas as obras se complexificam, como há sempre qualquer coisa que não corre bem, como há sempre um custo extra. Neste caso, o que se passou foi diferente, foi mais o cunho de Francisco Frazão e da sua equipa, que quiseram alterar o projeto inicial para o espaço e que era “uma proposta muito mais interventiva e muito mais cara”, explica Frazão, antes de prosseguir:

“A ideia passou a ser muito mais a de preservar as qualidades da sala, isto sem esta dimensão é uma black box como outra qualquer, basta tirarmos uns metros de um e do outro lado e deixa de haver todas as possibilidade que este espaço teve e que vai continuar a ter”.

Pois é nessa sala – saudades – que agora entramos. E, de facto, a coisa está diferente. Isto é: mais moderna. Todas as vigas que eram manuais são agora automáticas ou têm motores que ajudam à sua movimentação. A régie, que era fechada, está aberta e essa varanda, no alto, ganhou 80 centímetros em direção ao palco, portanto é mais espaçoso e confortável. Há uma nova varanda técnica e a bancada amovível está lá, neste momento encostada. Assim como está um relógio, mantido na parede, do espectáculo Cimbelino, de Shakespeare, que o Teatro da Cornucópia fez em 2000.

E para não dizerem que só damos ao dedo para as letras e nunca para os números, aqui vão eles. 322.500€ para a parte cénica e técnica; 148.500€ para segurança e acessibilidade; 280.000€ para equipamento técnico. De resto, continua a ser uma sala imponente, que tem dois espaços: o espaço onde estaria a bancada, que antecede o palco e o próprio palco. É uma black box impressionante, imponente, com possibilidades infinitas que terão a configuração que cada artista quiser que tenha. Por exemplo, para este fim-de-semana, Josefa Pereira apresenta “Hidebehind” em cima do palco – sexta a domingo às 20h – e Alessandro Sciarroni apresenta cá em baixo, em arena, “CHROMA_don’t be frightened of turning the page”. A lotação máxima que algumas configurações conseguem gerar é de 200 pessoas, o que não é propriamente pouco.

Os primeiros dias

Para este fim-de-semana de abertura há então dois espectáculos que podem ser vistos de seguida, como quando íamos ao cinema em miúdos e mudávamos de sala sem o segurança se aperceber só para não pagar outro bilhete. “A hipótese do público ver dois espectáculos no mesmo dia, como agora na abertura, e de propor aos espectadores que façam esse trabalho de relação, ou de justaposição ou de contraste… gosto desse tipo de desafio. Temos outro momento assim, mais no final do ano [6 a 15 de Dezembro], não com dança, mas com teatro, com uma peça do Alex Cassal e outra da Raquel Castro, é um momento em que os espectáculos ficam mais algum tempo em cena, portanto existe a possibilidade de termos duas velocidades de programação”.

Há um novo capítulo para o teatro em Lisboa que hoje se começa a escrever. Tudo a pegar na caneta.