Há 25 anos que Melfi produz automóveis, primeiro para a Fiat e agora igualmente para a Jeep, integrada no grupo italo-americano FCA. O primeiro veículo a sair da linha foi o Punto, em 1994, mas já então estas instalações no sul de Itália se destacavam das restantes por serem altamente robotizadas, especialmente na zona de soldadura da carroçaria. Desde então, não parou de evoluir e actualizar-se, tanto ao nível da secção de pintura, onde há muito cumpre todas as obrigações ambientais, como em termos energéticos, onde uma gestão inteligente de recursos lhe permitiu reduzir 40% do consumo de electricidade nos últimos três anos.

Com 7300 funcionários e uma capacidade de fabricar 1.200 veículos por dia, 400 por turno, Melfi conta com a colaboração de 14 fornecedores instalados na região para atingir os seus objectivos, tanto em matéria de qualidade como de quantidade. 60% da sua produção – de Fiat 500X, Jeep Regenade e Jeep Compass – é destinada aos mercados da região EMEA (Europa, Médio Oriente e África), com 38% a rumar a países do Nafta (Canadá, EUA e México) e os restantes 2% aos APAC (Ásia-Pacífico), onde se destacam Índia, China e Austrália.

Inteligência artificial e Academia para evoluir

Para estar preparada para os novos desafios que se avizinham, com veículos electrificados, baterias e novas plataformas, a fábrica italiana vai começar a investir em breve em inteligência artificial para se tornar mais eficiente, poupando recursos, ou seja, tempo e dinheiro.

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Paralelamente, conta com a capacidade de formação da Plant Academy, uma espécie de universidade integrada para não só dar formação aos operários, como formar igualmente líderes capazes de alimentar Melfi e outras fábricas da FCA. Importante quando a fábrica está localizada no interior, entre Nápoles e Bari, e conta quase exclusivamente com empregados italianos, dos quais 80% são oriundos da região.

A Plant Academy serve ainda para testar soluções que, a revelarem-se eficazes, serão depois implementadas na linha de produção. Isto simplifica o processo e permite que se realizem testes e simulações, sem interromper a laboração, para mais numa linha que funciona em contínuo, sem paragens e onde cada aperto em cada parafuso é registado, registo esse que é depois guardado durante 15 anos.

Daqui saem os SUV da Fiat, Jeep e os PHEV

A oportunidade de visitar as linhas de produção de Melfi surgiu num período de transição, correspondente à validação do fabrico dos novos híbridos plug-in (PHEV) da FCA. À linha habitual, onde são fabricados os Fiat 500X, Jeep Renegade e Jeep Compass (este último a partir do início de 2020), Melfi dedicou-se nos últimos meses a modificar uma linha pré-existente, adaptando-a à montagem dos PHEV, modelos que têm como motor principal uma unidade a gasolina, cuja potência complementam com um motor eléctrico e a respectiva bateria. Esta permite-lhe percorrer cerca de meia centena de quilómetros em modo 100% eléctrico e, uma vez esgotada a capacidade, continuar a funcionar como híbrido, reduzindo consideravelmente o consumo e emissões.

A linha dedicada aos veículos ditos normais, ou seja, exclusivamente com motor de combustão, funcionava sem sobressaltos, gerando cerca de 1.200 automóveis por dia, mas a outra, a dos modelos electrificados, estava limitada a cinco ou seis unidades por turno, ou seja, menos de uma vintena de carros por dia. Para já, os PHEV da FCA a fabricar na Europa são apenas os Jeep Renegade e Compass, aguardando-se que a Fiat decida se e quando avança para o 500X PHEV, o que não será difícil dado tratar-se exactamente da mesma plataforma e mecânica do Renegade.

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Os dois Jeep híbridos plug-in vão ser apresentados ainda em Novembro, para depois a sua comercialização no mercado europeu se iniciar no princípio de 2020, no âmbito de uma estratégia que resulta do investimento de 5 mil milhões de euros da FCA em Itália. Além dos novos PHEV e da fabricação do Compass, que assim se junta ao Renegade na produção europeia, fazem igualmente parte da avultada injecção de capital a introdução de 13 modelos, novos ou completamente renovados, além da electrificação de 12 versões, entre os quais se integram os dois modelos PHEV da Jeep.

FCA quer ser a Netflix e não a Blockbuster

Em matéria de electrificação, a FCA está apostada em surfar as ondas que conduzem ao futuro, em vez de se manter agarrada ao passado. Segundo Roberto Di Stefano, o responsável pela e-Mobility na FCA para a região EMEA, “o caminho está traçado e caminhamos rumo à electrificação, sobretudo na Europa, pelo que o grupo está decidido a ser a Netflix e não a Blockbuster que, ao não conseguir evoluir, acabou por falir, ao contrário da Netflix que vale 28 mil milhões”.

Depois desta analogia, o homem que comanda os destinos da FCA na electromobilidade defendeu o acordo com a Tesla, através do qual a FCA comprou créditos de carbono para evitar as multas de Bruxelas. “Se tentássemos antecipar a entrada nos eléctricos, sem ser nas condições ideais, a prazo perderíamos ainda mais dinheiro do que aquele que vamos pagar à Tesla”, justificou.

“Já em 2020 vamos começar a ver surgir modelos electrificados, os primeiros PHEV, gama que vai continuar a crescer nos próximos tempos, sendo reforçada em breve pelos 100% eléctricos”, adiantou Di Stefano. O objectivo a curto/médio prazo passa por oferecer versões electrificadas em todas as gamas de todas as marcas, o que acontecerá até 2022. “O primeiro 100% eléctrico será o Fiat 500 a bateria, que será montado numa nova plataforma”, avançou o responsável pela e-Mobility da FCA, admitindo que ainda está em estudo o momento ideal para o grupo começar igualmente a dedicar-se à produção de packs de baterias e até mesmo a células.

Mas o responsável italiano fez questão de deixar bem patente que, na sua opinião, “os veículos eléctricos ou PHEV, só por si, não resolvem o problema, sendo necessário criar infraestruturas de recarga para que os potenciais compradores sintam confiança neste novo tipo de mobilidade que ainda suscita muitas dúvidas”. Por isso, a FCA assinou um acordo com a EnelX para instalar 13.000 pontos de carga na Europa, 8.000 dos quais nos concessionários da FCA. Outro acordo foi firmado com a Terna, para produzir 700 veículos eléctricos a bateria experimentais com capacidade de funcionar em V2G, permitindo armazenar 25 MWh para estabilizar a rede eléctrica, em caso de necessidade durante as horas de pico. Com a Transtel foi igualmente acordado o desenvolvimento de uma solução para ter todos os veículos eléctricos e electrificados conectados à Internet, não só para conseguir gerir melhor a energia e as soluções de recarga, como para fornecer uma série de serviços que carecem de ligação à rede.

Roberto Di Stefano abriu ainda o jogo em relação às novidades que vêm aí em matéria de veículos eléctricos e electrificados, informando que além dos Jeep Renegade e Compass PHEV, disponíveis em alguns mercados europeus no início de 2020 e em Portugal apenas na segunda metade do ano, a Fiat vai igualmente oferecer o novo 500 eléctrico (meados de 2020), o 500 mild-hybrid e o Panda mild hybrid. A estes vai juntar-se o Ducato 100% eléctrico, em data a definir.