Já aqui falámos em diversas ocasiões na batalha em que se transformou a luta entre a Porsche e a Tesla pela conquista do melhor tempo por volta na pista alemã de Nürburgring. Todos os fabricantes rodam no Anel Norte de Nürburgring para afinar os seus modelos mais desportivos e, invariavelmente, tentam cronometrar uma volta rápida, para verem como estão em relação à concorrência. Com as berlinas eléctricas desportivas não foi diferente.

A Porsche, que testa todos os seus modelos mais assanhados no histórico traçado alemão, levou ao Nordschleife o Taycan, o seu primeiro veículo 100% eléctrico. E abriu as hostilidades ao anunciar de imediato um recorde (não para carros eléctricos, pois esse é claramente da Nio) para berlinas eléctricas de quatro portas. Ora, sucede que a Tesla está convencida que não só tem mais conhecimentos na tecnologia ao serviço dos modelos eléctricos do que a Porsche – outra coisa não seria de esperar após 7 anos no mercado, contra um estreante, por muitos pergaminhos que possua a marca alemã –, como também produz, em densidade energética e preço, as melhores baterias do mercado (a Porsche adquire as suas à LG Chem, como a Renault para o Zoe. Por isso, a marca norte-americana decidiu contestar o recorde no Taycan, que não foi alcançado de forma oficial, o que implica sob a supervisão de responsáveis pelo circuito, que verificam se o modelo é de série, que não está aligeirado, que usa pneus homologados para estrada.

Mas não foi apenas isso que motivou a deslocação da Testa à pista alemã. É que após a chegada da Porsche, o fabricante americano apercebeu-se que, afinal, havia mais clientes do que inicialmente imaginava dispostos a pagar mais por uma berlina eléctrica mais rápida em circuito, habilidade que nunca interessou muitos aos americanos, mais preocupados nas acelerações 0-60 milhas (0-96 km/h) e ¼ de milha (o a 402 metros). Daí que Elon Musk tenha decidido, ainda antes do alegado recorde do Taycan ter sido anunciado, conceber uma versão mais potente e mais rápida do Model S, que denominou Plaid, para a tornar imbatível em pista.

A Tesla atacou os testes em Nürburgring como a Porsche, para desenvolver o seu Plaid, deslocando duas unidades dos EUA para a Europa, muito provavelmente com distintas soluções mecânicas – tudo indica que com três motores, dois atrás e um à frente, com cerca de 1.000 cv e baterias de 120 kWh –, mas igualmente com diferentes níveis de apoio aerodinâmico. Estes, se agora surgem em forma de asas exuberantes, deverão ser posteriormente substituídos por asas móveis e activas, para manter o Model S discreto, mas com o necessário apoio em curva e nas travagens quando ele é necessário.

Ao contrário do fabricante alemão, a Tesla nunca anunciou recordes nem o melhor tempo por volta. Curiosamente, uma conceituada revista alemã (Auto Motor und Sport) tratou disso, cronometrando à mão os tempos conseguidos pelos Model S Plaid azul e vermelho que rodaram na Alemanha. Após o primeiro conjunto de dias de testes, a Tesla fixou a melhor volta em 7 minutos e 23 segundos, esmagador quando comparado com os 7.42 do Taycan. Agora, passado cerca de um mês, os americanos regressaram ao Nürburgring com algumas alterações e, sempre de acordo com a Auto Motor und Sport (AMS), o Model S Plaid terá percorrido duas voltas em 7.13.

Para se ter uma ideia da actual diferença entre os tempos não oficiais do Taycan e do Model S Plaid, que a Tesla anunciou pretender lançar no mercado em 2020, o tempo de 7,42 por volta equivale ao valor conseguido pelo Honda Civic Type R (7.43,8 em Abril de 2017) e o Renault Mégane RS Trophy-R (7.40.1 em Abril de 2019). Por outro lado, os 7.13 do Model S Plaid colocam-no ao nível do Porsche 911 Turbo S (7.17 em 2018), Porsche 918 Spyder (7.13 em 2014) e o Porsche 911 GT3 (7.12 em 2017).

A marca alemã alegou que o Taycan que rodou em 7.42 foi o Turbo e não o Turbo S. Mas não é fácil tirar 29 segundos por volta –  o equivalente a passar de um Civic Type R (com 320 cv) para o 911 Turbo S (com 580 cv) – com apenas 81 cv a mais durante um período que, alegadamente, está limitado a 8 segundos e associado ao launch control.

A Tesla só voltará à pista alemã em 2020, em meados do ano, já com o Model S Plaid, provavelmente ainda camuflado e antes de entrar em produção, um pouco à semelhança do que aconteceu com o Taycan Turbo. Então saberemos quem é o mais veloz numa volta à pista de 20 km. Sendo que, independentemente de quem vença, vão certamente ganhar os utilizadores de automóveis eléctricos, uma vez que este duelo germano-americano tem o condão de fazer acelerar o desenvolvimento das tecnologias que são mais fundamentais aos modelos alimentados por bateria.