“Vem brincar”… se ao ler estas duas palavras não completou imediatamente com “traz um amigo teu”, não nasceu nos anos 80 com certeza. Ou então não tinha televisão em casa (duvido, já que essa moda de gabar o que não se tem chegou agora, na altura vivia-se o exibicionismo de ter uma TV em cada divisão da casa). “O sol nasceu, como está lindo o céu” era, ao mesmo tempo, o hino de uma (pequena) geração e também o mote para o lanche. Voltar à Rua Sésamo não é voltar aos tempos de escola, é sobretudo regressar ao tempo de voltar da escola. Sentávamo-nos à hora marcada. Não faço ideia qual era: seriam quatro e meia? Cinco e quarto? Seis e quarenta? Na infância não há relógios, a única hora que conhecemos é a “já devias estar na cama”.

Enquanto víamos o Ferrão reclamar com a vida dentro do seu caixote do lixo, debicávamos não o agripino, que ele tanto promovia, mas um pão com tulicreme e um copo de sunquick, já que à época não se falava ainda dos malefícios do pão branco, do drama do óleo de palma ou do açúcar enquanto sinónimo mais óbvio de veneno, em substituição do cianeto… Bons velhos tempos! Assinalam-se esta semana os trinta anos desde a estreia da Rua Sésamo em Portugal (6 de novembro de 1989), os 50 do primeiro episódio absoluto, nos EUA (10 de novembro de 1969), e eu assinalo aqui a minha saudade desse condomínio tão bem frequentado.

Hoje o meu filho continua a ter o seu ritual pós-aulas (talvez “aula” seja um nome demasiado pomposo para aquilo que se faz aos três anos), mas é com a “Vera e o Reino do Arco-Íris”, um original da Netflix que pode ser visto (e revisto) a qualquer hora, para mal dos meus pecados… Já não há aquele suspense da espera, de carcaça em punho, no sofá de casa dos nossos pais, forrado desde aquela tarde em que o nosso primo Tiago lá deixou cair o seu Rol. Vou resistir a dizer que antigamente é que era bom, mesmo sabendo que hoje a Olá já não comercializa Rol nem Feast. Se calhar o meu filho vai ser tão nostálgico em relação à Vera e à Patrulha Pata como eu sou em relação à Rua Sésamo, e quem sabe se não estará daqui a 30 anos a escrever um artigo num jornal a recordar o sofá da sala, o dia em que o manchou com Slime e tudo o que aprendeu com os seus desenhos animados favoritos.

Ainda assim duvido que escreva tão bem como quem aprendeu o alfabeto com o Gualter e os números com o Conde de Contar. Espero estar enganada mas acho que o fim da Rua Sésamo foi um duro golpe para a educação em Portugal… Além de reivindicarem o reconhecimento dos nove anos de carreira congelados, os professores deviam exigir também a reposição da Rua Sésamo. Era uma grande ajuda para educadores em geral. Eu, pelo menos, convenci-me de que gostava de “sopa ao almoço e ao jantar” graças a uma canção da Rua Sésamo: “sopa de massinhas, sopa de letrinhas, e sopa de grão, sopa de lentilhas!”, é o tipo de música que gostava de cantar em conjunto com milhares de pessoas num festival de verão. Qual Taylor Swift qual quê.

A Rua Sésamo era uma série à frente do seu tempo, que já na altura se preocupava com o ambiente e o bem estar animal: “eu tenho orgulho em ser uma vaca” era um dos grandes hits, a par do “ginasticar”, que lutava contra o sedentarismo muito antes de ser inventado o crossfit, enquanto que o “pensa lá bem” era uma ode ao mindfulness e à auto-ajuda: “mas só tu é que vais decidir o que estás agora a sentir, mais ninguém te vai dizer, tens de te conhecer”:

Claro que, se quisermos, conseguimos arranjar uma polémica (estéril, como todas as que se produzem quando vamos analisar acontecimentos do passado com os nossos olhos de agora) conseguimos. Reparem nesta letra, então cantada por tantas crianças:

“Há uma rapariga de quem gosto, o meu amor por ela não tem fim, e para tal eu provar, um sinal vou desenhar, para que ela saiba então que é só para mim, faço uma roda à volta dela vou cercar a miúda que eu amo, e os outros homens vou riscar se a quiserem namorar”

Que horror. Objetificação da mulher. Misoginia. Machismo. Masculinidade tóxica. Ou então só bonecos de feltro. Como aqueles que cantavam “eu sou peludo e azul, foi mesmo assim que eu nasci, vocês fiquem a saber que gosto de o ser”, num bonito exercício de exaltação da diferença, sobretudo quando se junta ao Monstro das Bolachas,  ao Gualter e ao Crespo um monstro peludo e… laranja, fazendo adendas à canção, a bem da diversidade:

Apercebo-me agora que tenho muitas saudades da Rua Sésamo. Voltar lá é como regressar à terra em que nascemos. Já está tudo diferente, a começar por nós, mas é bom rever velhos amigos. Bom, a Avó Chica é provável que já não encontremos, e a Guiomar é capaz de estar abatida, depois de se ter juntado a más companhias para fazer “Na Cama Com…” e “A tua cara não me é estranha” (títulos que, em sequência, dão um resultado bizarro), mas os bonecos não envelhecem, quando muito cheiram a mofo, mas mantêm tudo aquilo que nos fez gostar deles.

Na tentativa de voltar a um sítio onde já fui feliz, ainda que toda a gente o desaconselhe, comprei um pijama da Rua Sésamo para o meu filho. No fundo, estou a tentar cumprir a profecia cantada no genérico “tu vais poder também ensinar como se vai até à Rua Sésamo”… Foi por isso que o ensinei a dizer o nome de todas as personagens, do Elmo ao Poupas, passando pelo Egas e o Becas. E descobri que, ao fim destes anos todos, ainda não consigo distingui-los, confundo sempre o Egas e o Becas, como se fossem gémeos univitelinos. Acontece-me o mesmo com os Anjos, Nelson e Sérgio.

Porque é que decidi partilhar esta informação absolutamente irrelevante? Não sei, e peço desde já desculpa. Acho que, de repente, me senti demasiado à vontade com o leitor. Como se tivéssemos passado muitas tardes juntos, no tal sofá lá de casa, com os meus primos, todos a comer Rol e a comentar as últimas do João Esquecido e a ouvir os êxitos do Monstro das Bolachas e a Orquestra das Migalhas.

Joana Marques é humorista, faz rádio muito cedo e deita-se demasiado tarde