Título: Eu, Elton John
Autor: Elton John
Editor: Porto Editora
Páginas: 360
Preço: 22,00€

Por um lado, podemos ler Eu, Elton John em busca de histórias divertidas sobre os bastidores da fama a que o cantor teve, naturalmente, um acesso privilegiado, embora durante grande parte do tempo estivesse drogado ao ponto de ter dessas histórias apenas memórias difusas.

Desse ponto de vista, é preciso uma invejável verticalidade moral para não nos rirmos de quando, por exemplo, Elton John conta a história dos Grateful Dead no Château d’Hérouville. Elton John decidiu, em 1972, mudar de ares e gravar Honky Château, o seu quinto álbum de estúdio, em Hérouville, nos arredores de Paris. No entanto, teve de vencer a enorme desconfiança dos locais em relação aos artistas que ocupavam o estúdio por causa da memória que aqueles ainda tinham da passagem dos Grateful Dead pelo Château, um ano antes. Segundo Elton John, os Grateful Dead decidiram oferecer um concerto gratuito a todos os moradores de Hérouville. Não contentes com tamanha generosidade, os autores de “Friend of the Devil” “decidiram expandir as mentes da França rural ‘minando’ as bebidas [dos habitantes] com LSD” (p. 99).

Tal como é também difícil não achar graça à festa “absolutamente insana” que Elton John deu numa casa arrendada em Los Angeles e em que, segundo o próprio, consumiu tanta droga que desatou a expressar alto e em bom som a sua indignação por um dos jardineiros se estar a servir tranquilamente de um cocktail. Chegada a situação a esse ponto constrangedor, foi então informado de que a pessoa que julgava ser seu jardineiro era afinal Bob Dylan. Ao perceber o erro, Elton John tornaria a emenda pior do que o soneto e insistiria para que Dylan trocasse as suas roupas simples pelo guarda-roupa mais espalhafatoso que Elton John tinha nos quartos o que, naturalmente, deixou Bob Dylan horrorizado.

A frustração que o leitor sente com este lado da autobiografia tem a ver quase exclusivamente com o espaço que ocupa no livro. Elton John é um razoável contador de histórias e parece munido de episódios divertidos em quantidade suficiente para encher um livro bem maior do que a sua autobiografia (ou não tivesse o músico vivido imerso no centro do mundo do pop rock desde os anos setenta até hoje). No entanto, na sua autobiografia, o espaço que é dado a histórias deste género é relativamente curto quando comparado com as páginas dedicadas à ascensão triunfal de Elton John, páginas essas em que todas as maiores estrelas da pop do mundo vão surgindo em catadupa, mas sempre simplesmente para apontarem para a glória do Rocket Man, reverenciando-o.

Talvez por isso, as histórias em que o cantor se encontra com Ray Charles, Brian Wilson, Dusty Springfield ou Elvis Presley sejam sempre variações de um refrão que encontramos quando se conta a história da gravação de The Union, um refrão que presta tributo ao rapazinho que veio de nenhures e ascendeu ao Olimpo:

“Se me dissessem em 1970 que um dia eu iria gravar um disco com o Leon Russel eu teria desatado às gargalhadas” (p. 314);

“O Ray Charles? Só podiam estar a gozar com a minha cara! O Ray Charles? Estávamos a falar do Brother Ray! O Génio! Um artista com o qual eu passara horas a fantasiar quando era miúdo (…) e agora um idiota qualquer tinha decidido que era uma boa ideia ele aparecer num programa de televisão a cantar comigo” (p. 283);

“Eu idolatrava os Beach Boys nos anos sessenta (…) ele [Brian Wilson] era nosso fã e adorava que lhe fizéssemos uma visita” (p. 93);

“A Dusty Springfield veio ter connosco ao camarim e ofereceu-se para fazer segundas vozes durante a nossa atuação. Fiquei de queixo caído. Tinha viajado até Harrow para ver um concerto dela com os The Springfields quando ainda andava na escola” (p. 74);

“Fazia sentido: a minha mãe tinha-me apresentado a música do Elvis e agora eu ia apresentá-la ao próprio Elvis” (p. 144)

A outra perspectiva de leitura de Eu, Elton John tem a ver, como seria de esperar, com a revelação das idiossincrasias do músico, bem como das condições que o levaram a tornar-se num dos artistas mais rentáveis e célebres da história da pop. Em certo sentido, o sucesso de Elton John parece ficar a dever-se em grande parte a duas características que, sob uma perspectiva estritamente moral, tenderiam a ser descritas como defeitos: o seu egocentrismo e a sua irredutível superficialidade. Elton John é inegavelmente um músico bastante virtuoso, com um ouvido notável e que assimilou toda a música relevante a que conseguiu ter acesso. No entanto, aquilo que o destacou numa fase inicial da sua carreira foi a união dessas virtudes ao lado espampanante do seu guarda-roupa bem como às excentricidades que fazia ao vivo.

Logo no início da autobiografia, Elton John confessa a sua adoração por Little Richard e Jerry Lee Lewis. Todavia, ao apresentar os motivos pelos quais os admirava não escreve uma linha sobre a música que ambos faziam, parecendo isso ser uma mera alínea da devoção que tinha aos seus ídolos:

“Eles eram os meus verdadeiros ídolos. E não era só por tocarem com tal agressividade que pareciam estar a chicotear o teclado. Era pela forma como se levantavam enquanto tocavam, a maneira como pontapeavam o banco e saltavam para cima do piano” (p. 30).

A relação com o seu guarda-roupa ou com os cenários dos seus concertos parece assentar nas mesmas premissas do seu amor a Little Richard ou a Jerry Lee Lewis. Elton John procura sempre apenas a excentricidade pela excentricidade, sem com isso querer servir qualquer interesse artístico para além do de se destacar dos demais e de ficar, assim, na memória do seu público. Daí que tenha decidido tocar “Your Song” no encore de um concerto no Central Park vestido de Pato Donald, o que dificultava imensamente a sua capacidade de tocar piano, mas servia na perfeição o propósito de dar nas vistas. Daí que as indicações que dava aos planeadores das digressões sejam sempre semelhantes às que deu para a tournée de promoção de Leather Jackets:

“Disse ao Bob Mackie para se exceder o mais possível na roupa, razão pela qual acabei num palco australiano a usar uma peruca moicana cor-de-rosa gigante, com os lados da cabeça a imitar a pele de um leopardo” (p. 203).

As virtudes do egocentrismo para a criação artística já foram bastante glosadas ao longo da história da literatura. No entanto, quando o egocentrismo se alia à superficialidade, nem sempre o resultado é o mais favorável. Apesar de estar a escrever a história da sua vida, Elton John parece pouquíssimo interessado em momentos de introspecção acerca de tudo o que não seja a quantidade de sucessos que produziu. A típica resposta aos traços do seu carácter que não compreende é a que encontramos quando fala da empatia que sempre sentiu com o seu letrista, Bernie Taupin:

“Não sei porquê. Não sei explicar nem quero explicar. Aliás, adoro o facto de não saber explicar por que razão isso acontece. É a espontaneidade que torna tudo mais bonito” (p.100).

Elton John dramatiza a sua vida inteira de forma a torná-la num bizarro espectáculo que aponte incessantemente para si e que leve a audiência a admirá-lo efusivamente ou a temer pela sua segurança. É isso que acontece com as suas duas semi-públicas tentativas de suicídio, em que a morte parece sempre um resultado altamente improvável, mas que gerariam necessariamente consternação nos seus inocentes espectadores, bem como é isso que acontece com a troca do vício em drogas e álcool pelo vício em reuniões de alcoólicos ou toxicodependentes anónimos, reuniões essas em que Elton John terá participado, segundo as contas do próprio, mais de mil e quatrocentas vezes. E é isso que acontece, também, quando confessa que gostaria de morrer em palco.

Depois de ler esta autobiografia, podemos correr o risco que pensar que gostar das canções de Elton John é apenas mais uma maneira de gostar daquilo que Elton John estava a ouvir quando as compunha com Bernie Taupin e que transformava depois em formas pouco discretas de apontar para si mesmo e enaltecer o seu talento: gostar do álbum Tumbleweed Connection é pouco mais do que gostar de uma versão caricatural dos The Band; gostar de Saturday Night’s Alright (For Fighting) é gostar de uma caricatura dos Rolling Stones, gostar de “Rocket Man” é só mais uma forma de gostar de “Space Oddity”. E talvez esse seja um caminho que o música não previa.

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