O BCP está a cobrar comissões a depósitos de instituições financeiras desde outubro, em linha com o que estão a fazer outros bancos, disse à Lusa o presidente executivo do banco.

À margem da Money Conference, organizada pelo jornal Dinheiro Vivo e a rádio TSF em Lisboa, Miguel Maya afirmou à Lusa que o banco começou a cobrar em outubro, após ter informado os clientes atempadamente de que o ia fazer. Em 7 de novembro, na apresentação de resultados, Maya apenas tinha dito que “tudo” o que o banco está a fazer “tem cobertura regulamentar”, mas sem querer dar mais informações sobre o tema.

Com esta confirmação é já conhecido que três grandes bancos cobram comissões por depósitos de bancos e outras instituições financeiras: BCP, Caixa Geral de Depósitos (CGD) e BPI. A CGD está a cobrar comissões a depósitos de instituições financeiras desde o terceiro trimestre deste ano. Segundo fonte oficial do banco público, a cobrança de comissões é feita para “saldos acima de determinado valor”, sem indicar o valor em causa.

De acordo com o Jornal de Negócios, que avançou com esta notícia na quinta-feira, o saldo a partir do qual são cobradas comissões pela CGD ronda os cinco milhões de euros, mas pode variar consoante o cliente e o tipo de depósito. O BPI foi o primeiro banco a admitir que estava a cobrar comissões nos depósitos de clientes financeiros, em 4 de novembro, na conferência de imprensa de apresentação dos resultados do terceiro trimestre.

O BPI disse mesmo que a comissão é de 0,3% e que passará para 0,5% no final do ano com o objetivo de reduzir ainda mais esses depósitos de bancos de instituições financeiras (seguradoras, fundos de investimento).

As contas do BPI indicam que os depósitos de investidores institucionais e financeiros diminuíram 63% para 350 milhões de euros em setembro, face aos 945 milhões de euros de final de 2018, devido à “política ativa do BPI de redução destes depósitos com o objetivo de otimizar os rácios de liquidez”. Do Santander Totta, fonte oficial disse à Lusa que o banco “ainda não está a cobrar”e o Novo Banco ainda não respondeu à questão da Lusa sobre este tema. A tendência será, contudo, a de todos os bancos cobrarem por depósitos de clientes financeiros.

Os bancos portugueses têm-se queixado de que os depósitos de grandes clientes institucionais os penalizam, uma vez que os bancos não podem cobrar juros negativos, ao contrário de outros países europeus, e ainda têm de aplicar esse excesso de liquidez no Banco Central Europeu (BCE), que lhes cobra juros para isso. Além disso, referem, há grandes empresas a mudarem os depósitos para bancos portugueses, já que nos seus países de origem têm de pagar para os ter nos bancos.

Por esse motivo, tem havido pressão da associação que os representa, a Associação Portuguesa de Bancos (APB), junto dos decisores para poderem cobrar juros nos depósitos de grandes clientes, nomeadamente clientes institucionais e grandes empresas multinacionais. Os bancos têm, contudo, vincado que não têm intenção de cobrar juros por depósitos nem a particulares nem a pequenas e médias empresas (PME). Para já, o que os bancos estão a fazer é cobrar comissões no dinheiro depositado por bancos e outras instituições financeiras (seguradoras, fundos de pensões), após autorização do Banco de Portugal.

A cobrança de comissões sobre o montante dos depósitos é um modo de contornar a proibição de taxas de juro negativas, tendo os bancos pedido ao Banco de Portugal para analisar a possibilidade de cobrar comissões em depósitos de grandes clientes, e não só clientes financeiros.

A taxa de juro média dos novos depósitos constituídos em Portugal em setembro fixou-se em 0,08%, um novo mínimo histórico, segundo dados do Banco de Portugal. No mesmo mês, a taxa de juro média dos depósitos da zona euro ficou em valores negativos.

Em setembro, o Banco Central Europeu (BCE) desceu a taxa dos depósitos bancários de -0,40% para -0,50%, aumentando o valor que os bancos pagam para aí aplicar o seu excesso de liquidez (dinheiro que não emprestam), mas introduziu um sistema de dois escalões que possibilita que uma parte do excesso de liquidez do setor não pague este custo, o que deverá poupar milhões de euros aos bancos portugueses.