Quando a prometida pick-up eléctrica da Tesla, a Cybertruck, surgiu em palco, a surpresa –  ou o choque – foi total. Em vez de um modelo convencional, com a cabina facilmente diferenciada da caixa de carga, Elon Musk, o CEO e o maior accionista da marca americana, revelou um veículo anguloso, recheado de arestas mas sem superfícies curvas, que em vez de se assemelhar a uma pick-up terrestre, parece acabadinha de chegar de Marte.

Musk já tinha prometido uma truck com “um estilo muito ficção científica”, além de nada parecida “com as pick-up que se constroem há dezenas de anos”. Ninguém o pode acusar de ter faltado à verdade. Mas as linhas futuristas estão longe de ser a única novidade da Cybertuck.

Segundo o CEO da Tesla, a pick-up recorre a um chassi monobloco, em vez do habitual chassi/cabina. Mas a diferença é que, mesmo nos monoblocos, há um chassi, forte e robusto, que depois é revestido por painéis de carroçaria, que lhe conferem o aspecto exterior. Na Cybertruck não há disso, pois a carroçaria é o próprio chassi, como se se tratasse de um exosqueleto.

Por dentro, há espaço para seis adultos e o mesmo ambiente “clean” e minimalista dos restantes modelos da Tesla

Resiste à martelada, mas a bola de ferro…

A curiosa carroçaria é construída no mesmo aço inoxidável que a SpaceX utiliza nos foguetões, o que só por si é um excelente argumento comercial, garantindo por outro lado resistência total à ferrugem. A Tesla não avançou com pormenores, nem mesmo se recorre à dupla camada de aço inox como acontece no novo foguetão Starship, disse sim – e provou que funciona – que a carroçaria exosqueleto é resistente às pequenas pancadas, mesmo quando não são assim tão pequenas. E para juntar uma boa imagem às palavras, Musk fez entrar um colaborador, devidamente equipado com uma marreta, que desatou às marteladas à carroçaria da Cybertruck. E o resultado, pelo que se pode ver através do vídeo (ao minuto 2.10), foi nem riscos nem mossas. E como nos EUA andar armado é um hábito há muito enraizado, com as consequência que se conhecem, Musk menciona ainda que a carroçaria resiste a um uma bala de 9 mm disparada a uma distância de 10 metros.

Embalado pelo sucesso da demonstração da robustez da carroçaria, Elon Musk passou aos vidros (minuto 5.40 do vídeo), começando por provar que se o vidro de um veículo normal não resiste a uma esfera de metal deixada cair de uma altura de aproximadamente 1 metro, o vidro de alta resistência da marca, denominado Tesla Armor Glass, suporta sem problemas um impacto ao triplo da altura. Depois veio a demonstração na própria Cybertruck e aqui as coisas não correram bem. É certo que a esfera em metal atirada contra as janelas da frente e traseira nunca perfurou o vidro, entrando no habitáculo, como aconteceria com um vidro convencional. Mas o vidro ficou estilhaçado em ambos os casos, sendo evidente a surpresa de Musk.

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250 kWh e mais de 1.000 cv?

Como é habitual na Tesla, não foram avançadas as potências para as três versões da Cybertruck, nem a capacidade das baterias, mas apenas o que essas versões são capazes de oferecer ao condutor, em matéria de capacidade de aceleração, velocidade e autonomia. O que, por extrapolação, permite retirar conclusões sobre os valores aproximados para a potência e a capacidade do acumulador.

A Cybertruck vai ser oferecida com apenas um motor e tracção traseira  na sua versão mais simples e acessível, denominada Single Motor RWD. Promete uma velocidade máxima de 177 km/h, 0-96,5 km/h em 6,5 segundos e uma autonomia superior a 250 milhas, o que equivale a 402 km, ou seja, quase tanto quando um Audi e-tron ou um Mercedes EQC. Isto apesar de conseguir transportar até seis adultos, transportar 1.587 kg (grande parte na caixa com 2,04 metros de comprimento) e rebocar 3.402 kg.

A versão intermédia da pick-up da Tesla, a Dual Motor AWD, está equipada com uma bateria um pouco maior e dois motores, um por eixo, para lhe garantir a tracção integral. A maior potência eleva-lhe a velocidade máxima para 193 km/h e reduz-lhe o tempo necessário para ir de 0 a 96,5 km/h para apenas 4,5 segundos. Tudo isto com uma autonomia superior a 300 milhas, ou seja, 483 km, sendo que estes valores são calculados pelo método americano EPA e não europeu WLTP, pelo que, entre nós, a distância a percorrer entre recargas deverá ser superior a 500 km.

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Mas a Cybertruck mais impressionante é, como seria de esperar, a mais potente e com maior bateria, todas elas capazes de serem recarregadas a 250 kW.  Está equipada com três motores, um à frente e dois atrás, numa solução próxima da utilizada pelo Model S Plaid que a marca levou a Nürburgring e que se estima que possuísse cerca de 1.000 cv. Com uma capacidade de bateria em torno de 250 kWh (2,5 vezes a de um Model S), a pick-up eléctrica consegue percorrer mais de 500 milhas sem visitar um posto de carga. Isto significa mais de 804 km em EPA, o que deverá permitir um mínimo de 830 a 850 km em WLTP, partindo do princípio que em EPA o Model 3 Long Range anuncia nos EUA 518 km (322 milhas) e em WLTP 560 km. E uma autonomia superior a 800 km é uma coisa do outro mundo, que poucos julgavam possível para um veículo eléctrico.

A denominada Tri Motor AWD é, assim, capaz de atingir uma velocidade máxima de 209 km/h e os 100 km/h ao fim de apenas 2,9 segundos, valor que envergonha o Porsche 911 Carrera 4S, a versão mais possante disponível da nova geração do modelo alemão, que anuncia 3,2 segundos de 0-96,5 km/h. E se o topo de gama da Cybertruck é rápido, a capacidade de reboque não fica atrás, anunciando poder lidar com 6.350 kg.

Exemplos deliciam público. O preço também

Anunciando os melhores ângulos de ataque (35º) e saída (28º) do mercado para todo-o-terreno – o ângulo ventral será um problema devido à enorme distância entre eixos –, o CEO da marca recordou que a pick-up tem um comprimento de 5,89 metros e 1,9 metros de altura. Mas apesar do peso necessariamente elevado das baterias, a Tesla afirma que a Cybertruck pesa tanto quanto uma Ford F-150, a pick-up mais vendida nos EUA, com motor de combustão.

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Para ser mais evidente a força da nova pick-up, a Tesla decidiu avançar com um exemplo para demonstrar a enorme capacidade de reboque. Vai daí, mostrou (minuto 10.50) uma prova entre a nova pick-up e uma Ford F-150, ligadas por um cabo, para determinar quem conseguia puxar quem. O resultado foi a Cybertruck arrastar a F-150 como quem passeia um cão pela trela, apesar das suas rodas patinarem desesperadamente. Demonstrada a força, Elon Musk apontou de seguida armas à rapidez, num outro vídeo (minuto 11.50) em que a “vítima” era um Porsche 911. Afirmando que deram um pequeno avanço ao ligeiro 911, a enorme pick-up ainda conseguiu ganhar a corrida, no que parece ser ¼ de milha.

Equipada com tomadas de energia para 110 ou 220V, bem como um compressor (provavelmente o mesmo que fornece ar para as suspensões pneumáticas) e uma caixa de carga onde é possível transportar um ATV – obviamente eléctrico e com um design similar ao da pick-up –, a Cybertruck estará à venda no final de 2021, nas duas versões mais acessíveis, para a mais cara e potente chegar apenas em 2022.

Para o fim estavam guardados os preços, que acabariam por ser uma das melhores notícias da noite. Depois de prometer uma pick-up eléctrica por menos de 50.000 dólares, a Tesla anunciou que os preços arrancariam nos 39.900$, correspondentes à versão Single Motor RWD, não muito longe dos 35.000$ de uma F-150 XLT com habitáculo para seis.

A Cybertruck Dual Motor AWD vai ser comercializada por 49.900$, para a Tri Motor AWD (a tal que bate o 911 e leva a F-150 a “passear”) exigir apenas 69.900$. Precisamente, o preço da versão mais barata da Rivian, com 105 kWh de bateria e uma autonomia de 370 km (230 milhas).

As encomendas para a Cybertruck já abriram, contra um depósito de 500 dólares, com o preço para Portugal a não ser ainda conhecido. Contudo, umas contas rápidas permitem concluir que o Model 3 Long Range da Tesla é comercializado nos EUA por 48.500$, antes de incentivos, enquanto em Portugal esse valor sobe para 60.500€, o que deixa antever um custo a partir de 50 mil euros para a Cybertruck Single Motor RWD. Veja aqui o resumo da apresentação: