Não faz muito sentido sensibilizar os condutores a optar por automóveis eléctricos, através de incentivos ou outros tipos de ajudas, se a electricidade com que recarregam as baterias é produzida com energia poluente, gerada a partir da queima de carvão ou de derivados de petróleo. É certo que, mesmo assim, retira-se dos centros das grandes cidades o excesso de partículas, NOx e enxofre, proveniente da combustão da gasolina e do gasóleo, mas não se limitam as emissões de CO2.

Isto vem a propósito de uma discussão entre a França e a Alemanha, no seio da União Europeia, sobre a classificação das centrais nucleares como geradoras de “energia verde”, ou seja, não poluente, o que idealmente é (ou deveria ser) sinónimo de renováveis. Para os franceses, o país europeu que mais depende de energia nuclear – e daí que tenha todas as vantagens de possuir energia disponível em quantidade e barata –, com mais de 400.000 GW de produção e 58 reactores nucleares em serviço, trata-se de tentar não desmantelar o sistema que lhe garante quase 75% da energia de que o país necessita, tendo de realizar investimentos colossais para apostar na eólica e fotovoltaica.

Porém, foi exactamente isso que a Alemanha se viu obrigada a fazer, especialmente depois do acidente de Fukushima em 2011. Daí que Angela Merkel esteja pouco receptiva a acolher as pretensões dos franceses. Se, por um lado, é certo que o nuclear não produz CO2, logo não contribuindo para o aquecimento global, a realidade é gera subprodutos bem mais complicados, a começar pelos resíduos nucleares, que teimam em ficar activos durante 1 milhão de anos.

Mais uma vez, a tarefa de Macron não parece fácil de conseguir, pois o parceiro mais difícil de convencer é de novo a Alemanha, que lida com um grave problema relacionado com esses mesmos resíduos. Os alemães procuram hoje um local onde enterrar 28.000 metros cúbicos de lixo nuclear, o equivalente a seis torres como a do Big Ben que existe em Londres. Os resíduos estão de momento enterrados em locais provisórios (uma década ou pouco mais) próximo das centrais onde foram produzidos, mas necessitam de um local, no mínimo a um quilómetro de profundidade, sem lençóis de água e em rocha maciça. E como já não é aceitável recorrer a países no terceiro mundo, o buraco tem de ser escavado em território alemão e não há uma única zona que revele um mínimo de receptividade à ideia.

Se os alemães têm de lidar com 28.000 m3, os franceses têm de enterrar 138.000 m3. E quanto mais tarde começarem a lidar com o problema, mais agudo ele se torna.