“O medo é o que nos mantém vivos. Prometi a mim mesma que se me encontrasse outra vez numa situação extrema e não sentisse medo nenhum, deveria reavaliar esta atividade”.

É assim que Krystle Wright, fotógrafa profissional — e “aventureira” — descreve, “sem arrependimentos”, aquilo que tem sido a sua vida, pelo menos nos últimos treze anos. Esteve no Exodus Aveiro Fest (festival internacional de fotografia e vídeo dedicado a viagem e aventura, promovido pela National Geographic) no passado fim de semana e falou com o Observador numa altura em que qualquer um arrisca muitas vezes a vida mas para conseguir o maior número de likes na demanda da mais bela fotografia de paisagem. “Ser fotógrafo profissional vai muito mais além de uma imagem bonita”, conta.

Quem pesquisa pelo nome da fotógrafa pode ficar com inveja. Ou com falta de ar. É que além das aventuras na terra e no ar — que já lhe causaram valentes sustos, como o acidente de parapente em 2011 no Paquistão — através das quais já construiu um portfólio que passa por cinquenta países, Krystle “caça monstros”, ou seja, tempestades. “Sou viciada em certos tipos de cenários cheios de adrenalina, como os que encontrei nas duas últimas primaveras no Tornado Alley [região central dos Estados Unidos da América onde é frequente o surgimento de tornados]. Ver o poder cru e a beleza da Mãe Natureza é selvagem”. Selvagem, sim, mas no entender da também cinematógrafa, são momentos que lhe trazem pura felicidade. “Quando fiz mergulho com cachalotes nos Açores, ou com orcas na Noruega, e regressei à superfície, comecei a gritar, feliz, como se nada pudesse articular a explosão de alegria que senti quando a natureza decide interagir contigo”, comenta.

[um vídeo sobre o trabalho de Krystle Wright:]

Mas a conversa não podia debruçar-se apenas sobre as suas aventuras. É que as redes sociais vieram democratizar a forma como cada um de nós capta a natureza, o que, muitas vezes, se transforma numa corrida atrás do maior número de gostos. Ainda que, para a Krystle, “qualquer pessoa que tenha um aparelho que capta imagens pode ser fotógrafo” — um argumento que, segundo a própria, já irritou muitos dos seus colegas. “A diferença entre um fotógrafo amador e um profissional é a habilidade para ser um contador de histórias [storyteller]. O problema é que, infelizmente, deslocamos o valor da fotografia para o número de likes, como se um maior número de seguidores fosse uma validação para ter reconhecimento como artista”, ainda que daí possam surgir boas oportunidades de trabalho, argumenta.

Uma das coisas que talvez poucos saibam é o facto da fotógrafa ter começado no fotojornalismo, tendo convivido de perto com as mudanças na área. Diz-nos que alguns dos seus colegas fotojornalistas ainda olham para os anos 90 “com alguma saudade”. Tendo começado como fotojornalista, Krystle olha para a realidade destes profissionais com algum pragmatismo: “Posso não estar o dia todo a fotografar vários eventos num só dia mas, como freelancer, estou sempre a lutar para ter uma atitude teimosa, para ser proativa”. Ou seja, é possível fazer trabalhos editoriais, mas o lado comercial, onde os valores financeiros são superiores, também é relevante, conta.

[o instagram de Krystle Wright:]

Quando a conversa vira para os movimentos feministas como o #metoo e de como é que uma fotógrafa enfrenta estes novos tempos, Krystle não podia ser mais esclarecedora. “O trabalho está a tornar-se irrelevante. Há alturas em que alguns artistas precisam de uma ajuda para que a sua arte seja ouvida. Mas o que me faz confusão é quando o talento é suplantado puramente pelo background ou género do artista”. Opinião, essa, que até se estende a algumas marcas que acabaram por se “tornar preguiçosas”, pois escolhem uma agenda que “reclama um estatuto de uma diversidade politicamente correta que acaba por falhar completamente o objetivo”. Aqui, Krystle acaba por revelar estar muito mais preocupada com o valor artístico do que com o próprio autor: “Não quero que me deem um prémio só porque sou mulher. Espero ser reconhecida pelo meu trabalho”.

Para fim de conversa, fica a promessa de voltar aos Açores, “um dos sítios preferidos do mundo”, onde até tem amigos que já construíram uma casa. Sobre se já se aventurou pelas ondas gigantes da Nazaré, provavelmente o fenómeno natural mais noticiado em Portugal neste momento, Krystle garante que já as viu, mas que ainda não as navegou: “Seria fenomenal poder ver pessoalmente. Saltaria na primeira oportunidade para as documentar!”.