A saída não foi pacífica, teve episódios pelo meio como um jantar com Peter Kenyon e Jorge Mendes no Porto ou uma passagem pelo iate de Roman Abramovich quando estava em Portugal, mas o verão de 2004 acabou por ser um momento de viragem para José Mourinho e para o Chelsea. Campeão europeu pelos dragões, em dois anos e meio onde ganhou tudo o que havia para ganhar, o treinador assumiu a sua primeira experiência como número 1 no estrangeiro nesse período. Casou com os blues, separou-se, voltou a casar, voltou a sair. 15 anos depois, fazia mais um dérbi de Londres mas contra aquele que foi o seu primeiro amor na Premier League. Mais do que isso, fazia mais um dérbi de Londres enfrentando um dos seus mais fiéis escudeiros: Frank Lampard. 

“Adoro aquele tipo, vou adorá-lo para sempre mas espero que ele perca no domingo [hoje]… Se o vou convidar para beber um copo? Acho que não, vou isso sim dar-lhe um grande abraço antes e depois do jogo porque vou estar eternamente grato por tudo o que me deu como jogador”, reconheceu Mourinho antes do encontro especial não só com a antiga equipa mas também com o ex-capitão que, a par de John Terry, fez parte da base de uma geração de sonho no Chelsea a que se juntaram nomes como Petr Cech, Drogba, Ricardo Carvalho ou Paulo Ferreira que ganhou dois Campeonatos, uma Taça de Inglaterra, duas Taças da Liga e uma Supertaça entre 2004 e 2007 (no segundo período, entre 2013 e 2015, Lampard já não estava no plantel que se sagrou campeão).

Do outro lado, Frank Lampard, que quando estava no Derby County conseguiu eliminar o Manchester United do antigo técnico da Taça da Liga, nas grandes penalidades e em Old Trafford, admitiu a importância do português na carreira mas foi menos expansivo nos saudosismos. “Estou feliz de jogar contra o José. Ele teve uma grande influência na minha carreira enquanto jogador. No ano passado, com o Derby, defrontá-lo foi muito importante para mim. Vou ter sempre respeito por ele mas não guardei nada. É um bom treinador mas não quero ser um clone ou algo do género”, frisou, quase como reforçando a ideia de querer fazer um caminho “a solo”.

Em entrevista ao comediante Omid Djalili, publicada este domingo no Record (conteúdo fechado), Lampard teve outros elogios para Mourinho. Exemplos? “Ele apareceu com uma confiança como nunca tinha visto no futebol. Foi uma obra prima de gestão porque desbloqueou qualquer coisa em mim. Se precisava disso? Sim. Penso muitas vezes que isso foi muito natural, ele foi sempre ele próprio. E foi isso que realmente me influenciou: a confiança no dia a dia e a personalidade. As pessoas perguntam-me o que Mourinho fez e muito deve-se à sua personalidade, mais as táticas, a organização. Ele tinha uma visão de futuro”, disse entre algumas deixas como “José teve um impacto tão grande como qualquer treinador com quem trabalhei”.

Foi essa confiança que permitiu a José Mourinho chegar ao Tottenham, naquela que foi a terceira experiência na Premier League depois do Chelsea e do Manchester United, e passar de um lugar na segunda metade da tabela longe dos primeiros para a possibilidade de, em caso de vitória frente aos blues, assumir a quarta posição que já dá acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões (após somar 12 pontos em cinco jogos, o melhor rendimento nesse período à exceção do Liverpool). No entanto, se essa possibilidade de configurava como um sonho alcançável, a primeira parte tornou-se um autêntico pesadelo para os spurs perante do total domínio dos visitantes.

Sem medo de jogar com linhas subidas, capaz de explorar o jogo entre linhas e sobretudo inteligente na forma como nunca permitiu que as transições adversárias saíssem por Dele Alli, Lucas Moura ou Son, o Chelsea “abafou” por completo o Tottenham (Harry Kane, com um remate ao lado, teve a única amostra atacante dos visitados aos 27′) e contou com um Willian inspirado, a fazer os desequilíbrios individuais e coletivos que colocaram a equipa de Lampard sempre por cima e também os golos que davam vantagem ao intervalo: primeiro na sequência de um canto, onde combinou com Kovacic, ganhou espaço descaído na esquerda e rematou em arco para o 1-0 (12′); depois de grande penalidade, após falta de Gazzaniga sobre Marcos Alonso numa saída da baliza (45′).

No segundo tempo, os spurs ainda deram mostras de poderem reentrar no encontro com Eriksen no lugar de Eric Dier mas o jogo “acabou” pouco depois do quarto de hora inicial – já depois de Abraham ter visto um golo anulado por fora de jogo, na recarga a um remate de Marcos Alonso (54′) – quando Son viu o vermelho direto num lance onde esticou em demasia a perna quando estava no chão e atingiu Rudiger (decisão confirmada pelo VAR), fazendo com que a última meia hora tivesse pouco ou nenhum interesse junto das balizas. Antes do Natal, Lampard deu um chocolate de bola a Mourinho e reforçou quarto lugar na Premier League antes do Boxing Day.