Ganhou um novo Dele Alli com uma conversa no primeiro treino em que lhe perguntou se quem estava ali à sua frente era o próprio ou o irmão. Conseguiu uma melhor Son com uma ideia de jogo que privilegia as transições em velocidade para explorar os pontos fortes do sul-coreano. Agarrou Lucas Moura quando o brasileiro soube que, no São Paulo, chegou a ser opção para o Real Madrid. Elogiou Harry Kane numa mensagem de Natal onde o apelidou de “melhor avançado da Europa”. E recuperou agora Eriksen que, em final de contrato, parece estar decidido a sair do clube mas recuperou lugar no meio-campo. Lá na frente, José Mourinho não tem propriamente problemas. O problema era mesmo atrás. Um problema que tem vindo a condicionar a equipa no seu todo.

Mourinho teve um Natal triste, assumiu-o antes do jogo mas teve em Kane o melhor amigo (pouco) secreto para a reviravolta

“Vai ser difícil [vencer] se continuarmos a dar prendas aos adversários. Se deixarmos de dar prendas, aí podemos ganhar a todos. Com a forma como jogamos com bola, é possível vencer sempre mas temos de parar com estas ofertas, caso contrário, será difícil vencer jogos”, destacou o técnico português no lançamento do encontro com o Southampton após um empate frente ao Norwich (2-2) onde a equipa voltou a ser penalizada pelos erros defensivos (e neste caso com um golo na própria baliza à mistura, por Aurier). Ano novo, vida velha nesse aspeto. E bastou pouco mais de 15 minutos para se perceber que essa será a principal tarefa de Mourinho.

Já depois de uma grande jogada de Redmond que terminou com uma defesa para a frente de Gazzaniga, Danny Ings ganhou a profundidade nas costas da defesa do Tottenham, passou a bola por cima de Alderweireld (que caiu de forma quase embaraçosa com a finta) de pé direito e rematou sem hipóteses de pé esquerdo para o primeiro golo do jogo (17′), confirmando em paralelo o bom momento que os visitados atravessam na Premier League. Já estava comprovado o calcanhar de Aquiles da equipa, que em 11 jogos na era Mourinho só não sofreu contra o Burnley.

Por lesão de Ndombelé, Lo Celso entrou ainda na primeira parte em campo, Eriksen foi ganhando algum espaço de manobra no meio-campo mas não foram muitas as oportunidades para os londrinos chegarem ao empate, com os minutos a passarem e os visitados a conseguirem controlar a maior posse de um Tottenham que levava uma média superior a dois golos por jogo (23 golos em dez jogos) e que ficara apenas em branco na receção ao Chelsea. E se as coisas não estavam fáceis, pior ficaram à entrada do último quarto de hora do encontro.

No seguimento de um livre no corredor central mas com cruzamento para a área, Eriksen colocou na zona entre a linha defensiva e o guarda-redes e Harry Kane conseguiu desviar para a baliza de McCarthy de pé esquerdo mas não só o golo foi (bem) anulado por uma questão de centímetros como o avançado ficou de imediato agarrado à coxa esquerda, pedindo substituição (entrou Lamela porque não há outro jogador com as características do inglês) indicando uma provável lesão muscular que o pode afastar dos próximos compromissos. E no minuto a seguir à decisão do VAR, Mourinho viu também o cartão amarelo no banco por se ter deslocado à área técnica da equipa visitada sem que se tivesse percebido muito bem a razão para que tal tivesse acontecido.

Com este resultado, Mourinho somou a terceira derrota na Premier League em nove jogos desde que assumiu o comando do Tottenham (a que se juntam cinco vitórias e um empate), ficando mais longe dos lugares de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões. E se os londrinos voltaram a perder um encontro a abrir o ano civil 11 anos depois, também o treinador português perdeu pela primeira vez no St. Mary’s Stadium depois de três vitórias e três empates que tinha registado quando estava no comando do Chelsea e do Manchester United.