O ataque dos pró-Irão à embaixada norte-americana em Bagdade durou menos de dois dias mas poderá ter consequências prolongadas para o aparelho de segurança do Iraque e os seus laços diplomáticos, segundo especialistas.

Há anos que Bagdade tenta manobrar entre os seus dois aliados norte-americano e iraniano, para evitar ser envolvido demasiado na tensão que tem vindo a crescer entre Washington e Teerão.

Embaixada dos EUA encerrada após ataque no Iraque

A rivalidade divide as forças iraquianas: por um lado os Estados Unidos treinaram e armaram unidades de elite, nomeadamente do contraterrorismo, por outro o Irão financiou, armou e treinou a maior parte dos paramilitares do Hachd al-Chaabi, integrados nas forças regulares após a vitória sobre os jihadistas.

O ataque de terça-feira contra a embaixada situada na Zona Verde — o bairro mais seguro do Iraque, cujas portas foram excecionalmente deixadas abertas — revela a extensão da influência do Hachd, considerou Harith Hassan, do Centro de investigação Carnegie do Médio Oriente.

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“Uma parte político-militar decidiu impor a sua vontade a todos e confiscar as decisões do país”, afirmou. Em consequência, 2020 corre o risco de ser “um ano difícil, levando ao isolamento do país”.

Oficialmente, o líder do Hachd é o conselheiro do primeiro-ministro para a segurança nacional, Faleh al-Fayyadh, mas os Estados Unidos consideram que hoje as unidades Hachd, nascidas segundo alguns no combate à ocupação norte-americana, servem mais os interesses do Irão do que do Iraque.

Washington acusa uma fação particular, as brigadas Hezbollah, de estar por trás dos ataques com mísseis contra os seus interesses no Iraque, que mataram recentemente um subcontratado norte-americano.

Um alto responsável da Defesa dos Estados Unidos acusou em declarações à agência France Presse que as tropas regulares parecem “incapazes ou pouco dispostas” a parar os disparos.

A nossa preocupação é que a infraestrutura de segurança foi infiltrada: o Hachd tem hoje autoridade nas forças de segurança iraquianas (…) os iraquianos dizem-nos. ‘o que é que podemos fazer?'”, disse.

Num Iraque em plena revolta, com a praça Tahrir em Bagdade cheia de manifestantes contra o poder e o seu aliado iraniano, unidades do Hachd deslocaram-se para a Zona Verde, onde se localizam as mais altas instituições do Estado, a embaixada dos EUA ou a sede da ONU no Iraque, e mantêm-se na área.

Durante dois dias, os militares iraquianos assistiram à destruição nos arredores da embaixada norte-americana, afirmando não terem recebido “qualquer ordem” e estarem “de mãos atadas”.

“O Hachd é hoje a força mais poderosa do Iraque porque os dirigentes políticos e os comandantes militares o deixam assumir esse papel”, afirmou um membro das forças especiais estacionado na Zona Verde à AFP.

Fayyad, que se encontrava regularmente com o embaixador norte-americano no âmbito das suas funções, mostrou-se ao lado dos que assaltaram a representação diplomática dos Estados Unidos. “Terroristas” e “tenentes do Irão”, acusou imediatamente o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, marcando uma mudança radical na abordagem.

A demonstração de força de terça-feira e o facto de altos responsáveis aparecerem “mostram a que ponto Teerão tem autoridade em Bagdade”, afirmou Phillip Smith, especialista dos grupos armados xiitas.

A termo, o ataque contra a embaixada — que fez os Estados Unidos reviverem os traumas de Teerão em 1979 e de Benghazi (Líbia) em 2012 — pode custar caro ao Irão no plano diplomático, asseguram responsáveis e especialistas.

Washington já colocou na lista negra figuras políticas iraquianas, unidades do Hachd e mesmo bancos iraquianos. “O Iraque arrisca tornar-se um Estado pária, isolado do resto do mundo como a Venezuela, a Coreia do Norte e outros”, alerta à AFP um diplomata iraquiano.