Não é exatamente uma palavra, é uma expressão e designa um problema social de grande impacto: “violência doméstica” foi eleita Palavra do Ano 2019, com mais de 20 mil votos, anunciou a Porto Editora esta segunda-feira de manhã, na Biblioteca Municipal José Saramago, em Loures. A eleição foi disputada e a palavra “sustentabilidade” ficou em segundo lugar, a escassos 0,1% da vencedora. Em 2018, o vocábulo escolhido tinha sido “enfermeiro“.

Uma lista de 10 palavras candidatas foi conhecida a 1 de dezembro do ano passado, depois de um processo de seleção levado a cabo pela Porto Editora a partir de sugestões de leitores e de uma análise aos termos mais populares na comunicação social, nas redes sociais e nos dicionários online. A votação decorreu até 31 de dezembro e um dia antes a editora já tinha feito saber que “sustentabilidade” e «violência [doméstica]» competiam lado a lado pelo título.

Com aprovação de 27,7 %, correspondente a mais de 20 mil votos únicos registados no site palavradoano.pt, “violência doméstica” alcançou o estatuto de Palavra do Ano, o que os responsáveis da editora consideraram ser “consequência dos inúmeros casos que foram sendo conhecidos ao longo do ano e que infelizmente resultaram em vítimas mortais”. A estatística oficial mais recente, divulgada pelo Governo a 22 de novembro, indica que 33 pessoas morreram em 2019 em contexto de violência doméstica: 25 mulheres, uma criança e sete homens.

A votação relativa 2019 ficou assim ordenada:

  1. violência doméstica – 27,7%;
  2. sustentabilidade – 27,6%;
  3. desinformação – 13,8%;
  4. jerricã – 7,5%;
  5. nepotismo – 5,7%;
  6. seca – 4,3%;
  7. trotinete – 4,2%;
  8. lítio – 4,2%;
  9. influenciador – 4,0%;
  10. multipartidarismo – 1,0%.

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A palavra “sustentabilidade” liderou a votação quase até ao último momento, mas acabou em segundo lugar. É interpretada pela Porto Editora como uma escolha resultante da “crescente preocupação que o tema desperta na sociedade portuguesa perante as sérias ameaças que pendem sobre a vida coletiva em consequência das alterações climáticas”. Quanto à terceira eleita, “desinformação”, mostra que “o problema da difusão de informações falsas através das redes sociais não passou ao lado dos portugueses.”

Nos anos anteriores, as Palavras do Ano foram as seguintes:

  1. esmiuçar (2009),
  2. vuvuzela (2010),
  3. austeridade (2011),
  4. entroikado (2012),
  5. bombeiro (2013),
  6. corrupção (2014),
  7. refugiado (2015),
  8. geringonça (2016),
  9. incêndios (2017),
  10. enfermeiro (2018).

Na apresentação em Loures, esta segunda-feira, estiveram presentes representantes da editora e o presidente da Câmara Municipal, Bernardino Soares. “Estive a olhar para as palavras já escolhidas desde 2009. Tudo isto é subjectivo, mas a maioria destas palavras reflete problemas da sociedade e preocupações das pessoas”, disse o autarca. “A palavra mais positiva que apareceu desde 2009 foi ‘geringonça’, o que foi reconhecido pelas pessoas”, acrescentou, notando que “sustentabilidade” é “usada na maior parte dos casos de forma instrumental ou cínica”.

A violência doméstica, sublinhou Bernardino Soares, “não se resolve com campanhas, mas com a alteração das condições de vida das pessoas e respostas dos serviços públicos”.

A fiabilidade da votação e as “tentativas de ciberataques” registadas em anos anteriores foram comentadas pelo responsável de comunicação da Porto Editora. “Não houve qualquer problema este ano, até porque temos uma boa equipa de programação. Mesmo quando houve tentativas de influenciar a votação, os números que apresentámos eram fidedignos ”, garantiu Paulo Rebelo Gonçalves ao Observador.

Helena Sampaio, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, participou na sessão e destacou algumas medidas concretas que resultam do trabalho da equipa multidisplinar nomeada pelo Governo em 2019 para melhorar o apoio às vítimas de violência doméstica.

A Palavra do Ano é uma iniciativa anual da empresa fundada e dirigida por Vasco Teixeira, com o “principal objetivo” de “sublinhar a riqueza lexical e o dinamismo criativo da língua portuguesa”, lê-se no regulamento, porque as palavras e os seus significados têm “importância na produção individual e social dos sentidos com que vamos interpretando e construindo a própria vida.”

Fundada em 1944, a Porto Editora é hoje o maior grupo editorial português (desde que em 2010 comprou a Bertrand e o Círculo de Leitores), destacando-se na área dos livros escolares e dos dicionários. A Palavra do Ano aponta precisamente para a promoção dos dicionários da chancela, a começar pela Infopédia, dicionário e enciclopédia online no ar desde 2003.

Minutos antes do anúncio, três alunos da Escola Secundária José Afonso, de Loures, debateram as 10 palavras que tinha estado a votação.