Foram detidas cinco pessoas suspeitas de envolvimento na morte do jovem estudante Luís Giovani: são todos habitantes de Bragança, mas não são estudantes — e não há qualquer evidência de motivo de ódio racial na investigação realizada até agora, apurou o Observador. Mas houve, acredita a PJ, intenção de matar ou, pelo menos, os suspeitos conformaram-se com a possibilidade de que Giovani poderia morrer em resultado das agressões.

Num conferência de imprensa rara dada ao final da manhã, o diretor da PJ, Luís Neves, confirmou que “os cinco suspeitos estão indiciados por homicídio qualificado”. O diretor voltou a insistir que não há sinais de que o crime ocorrido em Bragança tenha sido cometido por racismo: terá sido por “motivos fúteis”.  Segundo as suas explicações, terá sido uma “desavença que aconteceu no interior do espaço lúdico e teve desenvolvimento no exterior” — “acontecimentos muitas vezes sucedem e que não acabam com morte”, explicou o responsável.

Não se trata de um crime entre nacionais de um país ou outro, entre raças”, disse Luís Neves.

O diretor lembrou que Bragança e Portugal “são terras de grande acolhimento do ponto de visto humano” e um “território de grande irmandade.

Na CMTV, o antigo inspetor da Polícia Judiciária e presidente da Comissão de Proteção de Vítimas de Crimes, Carlos Anjos, admitiu a possibilidade de os agressores, agora detidos, serem “um grupo de ciganos”, depois de ter sido questionado sobre o facto de essa informação estar a ser repetida nas redes sociais. Ao Observador, porém, a Polícia Judiciária nega, explicando que apenas um dos suspeitos tem ascendentes familiares na comunidade cigana, mas que nenhum deles mantém contacto com essa mesma comunidade.

A operação que levou à detenção dos suspeitos foi “desencadeada no dia de ontem [quinta-feira] em total sigilo“, pelo Departamento de Investigação Criminal de Vila Real, explicou Luís Neves. Foram realizadas “buscas domiciliárias, inquirições e interrogatórios de várias pessoas, suspeitas de estarem envolvidas nos acontecimentos que determinaram a morte daquele jovem”, lê-se no comunicado da PJ.

Os homens — com idades entre os 22 e os 35 anos — estão indiciados por um crime de homicídio qualificado e três de homicídio na forma tentada. Segundo explicou o diretor da PJ, os suspeitos não tinham antecedentes criminais, vivem em Bragança e “muitos são desempregados” — mas não são estudantes. Neste momento, não há informações que possam indicar que Giovani conhecia os suspeitos.

As cinco pessoas detidas, que tinham estado no bar, são as que estiveram diretamente envolvidas nas agressões a Luis Giovani, dentro de um grupo mais alargado que estava no local. Na conferência de imprensa, Luís Neves descreve este cinco suspeitos como “o núcleo duro que perpetuou as agressões”, afastando a hipótese de estarem por realizar mais detenções.

A investigação que foi feita até agora continua a não encontrar indícios de ódio racial na motivação do crime. O homicídio terá acontecido na sequência de uma altercação de um contexto de discoteca e do consumo de bebidas alcoólicas, disse ao Observador fonte da PJ, que adiantou que “há questões de género associadas”. Isto porque a Polícia Judiciária concluiu que o desentendimento dentro do bar começou quando um dos jovens do grupo de Giovani pediu a uma rapariga que estava no início na fila para pagar que pagasse os cartões do grupo. Um dos agressores não gostou daquele contacto e a rixa começou ali.

Os detidos chegaram cerca das 15h15 desta sexta-feira ao Tribunal de Bragança para interrogatório judicial e aplicação das medidas de coação, tidas por adequadas. Luís Neves contou ainda que a PJ já falou com o embaixador cabo-verdiano e com o pai de Giovani, que chegou a Cabo Verde na terça-feira. É lá que o funeral de Luís Giovani se realiza este sábado.

Agressores vêm de “estruturas sociais mais baixas, que procuram problemas”

O Observador falou, já esta sexta-feira, com Óscar Monteiro, que é membro da comunidade africana em Bragança, uma comunidade africana daquela cidade — onde existem cerca de 2.000 estudantes dos PALOP, que garantiu que a notícia da detenção “com muita satisfação” porque “já estávamos todos em agonia” por causa do arrastar das investigações.

Relembrando que o funeral de Luís Giovani acontece sábado, em Cabo Verde, Óscar Monteiro destaca que, pelo menos, os familiares do jovem morto “não têm de fazer a viagem sem pelo menos ter a consciência de que quem fez isto ao seu filho [referindo-se ao pai do jovem] vai pagar por isso”. O jovem acrescenta, porém, que os cinco detidos poderão ser só “um começo” porque quem assistiu percebeu que havia muitos mais homens envolvidos no ato.

Ao Observador, Óscar Monteiro diz que os detidos (e os outros) são pessoas que a comunidade a que pertence “conhece de vista” por “frequentar alguns dos mesmos lugares” — são pessoas que vêm de “estruturas sociais mais baixas” que são bem conhecidas por “procurar problemas”. Exatamente por serem pessoas conhecidas, Óscar Monteiro diz que muitos estranharam a “demora nas detenções porque não estava a acreditar que era tão difícil assim para os agentes da PJ identificarem os indivíduos”.

Óscar Monteiro concluiu que “as pessoas de bem de Bragança” estão todas a colaborar com a investigação porque não querem que a sua cidade seja “manchada” por este acontecimento.

Líder do Politécnico de Bragança também afasta motivação racista

Também o presidente do Instituto Politécnico de Bragança afastou motivações racistas na morte do estudante cabo-verdiano Luís Giovani e considerou que o caso foi inicialmente desvalorizado pelas autoridades.

Não foi isso que aconteceu. Isso não existe de forma nenhuma“, afirmou Orlando Rodrigues, esta sexta-feira em entrevista à Lusa, na cidade da Praia, sobre a tese de possibilidade de as agressões que se revelaram fatais terem tido uma motivação racista.

O dirigente do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) está em Cabo Verde para o funeral do estudante, de 21 anos, que morreu em 31 de dezembro, 10 dias após as agressões.

Foi um dos nossos a quem aconteceu esta tragédia e, portanto, não podia deixar de vir para dizer um último adeus ao Giovani e para me associar a esta dor coletiva que partilhamos com o povo cabo-verdiano e com a família”, afirmou Orlando Rodrigues.

As alegadas agressões aconteceram na noite de 21 de dezembro, tendo o estudante, natural da ilha do Fogo – onde no sábado decorrem as cerimónias fúnebres — sido transportado de Bragança para um hospital do Porto, onde acabaria por morrer. A Polícia Judiciária só foi chamada ao caso após a morte do estudante.

“É verdade que houve algumas falhas. Inicialmente desvalorizou-se, não houve a perceção da gravidade da situação num primeiro momento“, observou Orlando Rodrigues, garantindo que a situação foi depois ultrapassada: “A partir do momento que as autoridades se inteiraram da gravidade foi de imediato posta uma equipa de investigação da Polícia Judiciaria a trabalhar sobre o caso”.

Assegura que Bragança continua a ser “um exemplo de segurança” e que o que aconteceu na noite de 21 de dezembro não passou de uma “rixa seguida de agressão”, cujas “consequências trágicas” foram acidentais.

“Ninguém acredita que os envolvidos esperassem este fim, mas na verdade aconteceu e foi absolutamente excecional, nunca tínhamos tido uma situação deste tipo em Bragança, e nessa medida deixou-nos a todos muito surpreendidos e em choque“, contou.

Garante que o que aconteceu “foi claramente” motivado por “jovens desintegrados socialmente”. “Provavelmente alguns deles [agressores] habituados a pequenos furtos, numa noite de mais copos e numa situação de rixa veio a ter esta consequências”, disse.

No último sábado realizaram-se manifestações pacíficas e vigílias em memória de Luís Giovani, estudante desde outubro no polo de Mirandela do IPB, e a pedir justiça para este caso, incluindo uma que em Bragança juntou mais de 3.000 pessoas. Na Praia, uma manifestação com várias centenas de cabo-verdianos levou à mobilização da polícia para travar protestos à porta da Embaixada de Portugal e da residência oficial da embaixadora portuguesa, por entre acusações de racismo e dúvidas sobre a atuação da polícia portuguesa.

Descarto por completo essa possibilidade [crime de ódio]”, insistiu Orlando Rodrigues.

“Obviamente há pessoas boas e más em todos os sítios. Mas em Bragança temos a certeza absoluta que não há qualquer tipo de movimento sustentado em base ideológica racista ou de ódio racial. Isso não existe“, acrescentou o dirigente do IPB, instituição que conta com 9.000 alunos, dos quais 1.200 são cabo-verdianos.

Orlando Rodrigues diz estar convicto que os responsáveis pela morte do estudante cabo-verdiano serão “condenados” e assegura que Bragança continua a ser “uma cidade muito segura”, apesar deste caso, “que ninguém imaginaria que pudesse acontecer”.

“As pessoas ficaram muito surpreendidas, muito alertas. É impossível que isto volte a acontecer. Há um profundo afeto da população pelos nossos estudantes cabo-verdianos”, assume o dirigente.

Segundo Orlando Rodrigues, o IPB vai manter o luto institucional até à realização do funeral de Luís Giovani, previsto para sábado, no município de Mosteiros, ilha do Fogo. Está ainda prevista uma homenagem ao estudante cabo-verdiano no dia 28 de janeiro, durante as comemorações do dia do politécnico.