Depois de três semanas com três derrotas entre setembro e outubro, o Manchester United foi recuperando lugares, passou da quinta posição para a liderança, desceu ao segundo posto mas sabia que a chave para alcançar o tri na Premier League passava por não perder pontos com equipas teoricamente mais acessíveis. No entanto, o nulo com o Crystal Palace mantinha-se depois do intervalo. Pior: Richard Shaw, central dos visitados, estava a “secar” Eric Cantona, uma das principais referências dos red devils. Num pontapé longo a explorar a profundidade, o francês não aguentou a forma como estava a ser travado e agrediu o inglês. Os adeptos protestaram, alguns jogadores da casa colocaram-se à sua volta, o avançado continuava quase a olhar para o vazio. E viu o vermelho.

Os segundos que se seguiram marcaram o futebol mundial e ainda hoje são recordados, 25 anos depois. O United não tinha propriamente uma equipa dócil, dos defesas David May e Gary Pallister aos médios Roy Keane e Paul Ince. Todavia, Cantona teve e terá sempre um feitio muito próprio que naquele dia explodiu e levou à expulsão. Mas não só: a andar a passo de cabeça levantada com aquele ar altivo, o gaulês ajeitou a gola para ver se estava para cima (naquela que era uma das marcas como jogador), suspirou, parou perto do banco onde Alex Ferguson não olhou sequer por estar fixo na direção do árbitro, continuou a andar em direção do balneário, ouviu uma frase que não gostou dos adeptos contrários e deu um pontapé kung fu, ainda agora mais famoso do que um golo – ao ponto de a Lego ter feito uma animação que recria o momento em menos de um minuto.

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Um elemento do Manchester United ainda tentou agarrar o número 7, com a ajuda de um steward lá conseguiram retirar o avançado daquela zona próxima da bancada pouco antes do gigante Peter Schmeichel ter chegado também a essa parte do campo para retirar Cantona para o balneário enquanto protestava para as bancadas. Alvo do ataque? Matthew Simmons, que desceu 11 escadas para ficar mais perto do relvado e insultar o avançado com a frase “Vai à m**** e volta para França com a tua mãe, seu francês bastardo”. Além do pontapé, houve alguns murros. Algo nunca antes visto neste tipo de palcos, que levou alguns a pedir para o gaulês ser deportado, outros a defender que não devia jogar mais na Premier League e ainda outros a sugerir uma suspensão para a vida.

O Manchester United e a Federação Inglesa suspenderam de imediato o jogador depois da agressão mas decorreu também em paralelo um processo civil por agressão nos tribunais. Cantona não teve problemas em assumir o que tinha feito e foi condenado a duas semanas de cadeia, trocada pelo pagamento de uma fiança. Na semana seguinte, essa decisão foi revertida em 120 horas de serviço comunitário, feito com as equipas mais jovens do Manchester United. Mais tarde, convocou uma conferência que se tornaria surreal por ter deixado uma única frase com a sala cheia e abandonado o espaço como se nada se passasse deixando os jornalistas no mínimo intrigados.

Quando as gaivotas seguem a traineira, é porque acham que a sardinha vai ser atirada ao mar. Muito obrigado”, disse o antigo jogador numa conferência caricata mas ainda hoje recordada.

A suspensão seria prolongada pela Federação Inglesa até 30 de setembro de 1995 mas a punição desportiva não ficou por aí (longe disso): a FIFA alargou essa suspensão a todos os países, a seleção francesa (onde nunca mais voltaria) tirou-lhe a braçadeira e nem em jogos particulares à porta fechada o avançado estava autorizado a jogar – algo que aconteceu uma vez, o que levou o Manchester United a ser multado. Por mais do que uma ocasião, Eric Cantona, que antes passara por Auxerre, Marselha ou Leeds manifestou a vontade de sair, chegou a ser falado para Itália mas foi convencido por Alex Ferguson a permanecer, ganhando ainda mais dois Campeonatos, uma Taça de Inglaterra e uma Supertaça até terminar a carreira em 1997, com apenas 31 anos acabados de fazer.

25 anos depois no jogo no Selhurst Park, como estão os protagonistas do pontapé mais famoso da Premier League? Eric Cantona alargou o seu génio em campo a outras áreas do desporto e da sociedade: após vários anos como principal referência da seleção francesa de futebol de praia e de uma curta experiência como diretor desportivo dos americanos do New York Cosmos, apostou em definitivo numa carreira de sucesso como ator entre vários filmes, séries e documentários, escreveu em coautoria livros e tornou-se muito ativo na análise política e social que faz do mundo e dos grandes líderes, como ainda recentemente demonstrou na Web Summit, em Lisboa (onde vive atualmente por ser, como o próprio já descreveu em entrevista, uma espécie de Rio de Janeiro da Europa).

Já Richard Shaw, o central agredido no lance que originou o momento, jogou até aos 40 anos passando nesse ano de 1995 para o Coventry e mais tarde para o Milwall, tendo depois seguido o caminho de treinador que ainda hoje leva, com o comando dos Sub-23 do Crystal Palace, além de ter criado em sociedade com um amigo a Tornado Football Limited, empresa ligada à venda de equipamentos desportivos e demais acessórios. Já Matthew Simmons, que na altura tinha apenas 20 anos, foi entretanto condenado há alguns anos por agredir… um árbitro, que neste caso estava a dirigir um encontro do seu filho numa prova mais regional, com alguns murros.

E Cantona, o enfant terrible que chegou a ter desentendimentos físicos com companheiros, bolas atiradas a adeptos e árbitros e insultos abertos ao selecionador francês na TV, estará ele arrependido? “Devia ter-lhe dado com mais força”, chegou a dizer numa conferência em Nottingham. “Claro que devia ter evitado aquilo mas sou um ser humano. Não me arrependo porque acho que os nossos atos numa determinada altura acontecem porque algo aconteceu. Aquele golpe de kung fu ajudou-me a crescer”, acrescentou. “Peço desculpa ao clube, aos colegas, aos adeptos, à Federação… e também à prostituta com quem estive na tarde passada”, tinha dito antes. “É a minha vida, feita de coisas boas e de coisas más. Mas o que é o ‘bem? O que é o ‘mal’? É como é. Depois, basta assumir, basta seguir em frente. Onde me encontro hoje é o resultado do caminho que segui. Se não tivesse vivido tudo o que vivi, não estaria onde estou hoje. E, hoje, estou muito contente por estar aqui consigo”, referiu ainda.