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No início de 2019, para alertar para o aquecimento global, o climatologista britânico Ed Hawkins, professor de Ciências Climáticas na Universidade de Reading, disponibilizou na internet o Show Your Stripes, uma ferramenta capaz de replicar em gráficos de barras, em vários tons de azul e de vermelho, a evolução das temperaturas em qualquer país do mundo desde 1850 (ou 1901, depende dos dados disponíveis) até 2018.

Em apenas uma semana teve mais de um milhão de downloads e em pouco mais do que isso, as riscas ganharam estatuto de ícone, com direito a instalação no palco principal do Festival de Música de Reading, nesse mesmo agosto, e adaptações bastante mais livres e em todo o mundo para posters, postais, t-shirts e até gravatas, elétricos e Teslas.

Ainda assim, como o próprio Hawkins garantiu, num artigo publicado em setembro passado na Fast Company, mais importante do que a popularidade do site, é a ciência em que ele assenta. “Estes gráficos são simples e bonitos, mas são baseados em ciência sólida e trazem uma mensagem séria. Traduzem dados complexos para um formato facilmente acessível que transcende a linguagem e quase não precisa de contexto para explicá-la”, garantiu o cientista e professor.

“Ajudar a ciência a dar este salto do laboratório para as redes sociais é crucial para mudar mentalidades. A minha investigação tem-se focado frequentemente na comunicação dos impactos das alterações climáticas a novos públicos. Quanto mais pessoas virem e compreenderem este enorme problema, maiores serão as hipóteses que teremos de o resolver”, acrescentou na altura. Agora, com o mesmo objetivo em mente, o climatologista revelou um novo gráfico de barras e respondeu à pergunta que ele próprio formulou: “E antes de 1850 o que aconteceu?”.

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Dada a inexistência de registos anteriores à data, a partir da qual começaram a medir-se, praticamente em todo o mundo, as temperaturas com regularidade, Ed Hawkins recorreu a outro tipo de dados, indiretos, como a medição das variações dos anéis das árvores ou dos corais, ou dos núcleos de gelo, entre outros. Apesar de terem uma margem de erro maior, serão igualmente fiáveis, explicou, no Twitter.

“O clima da Terra já mudou antes por razões que nada têm a ver com a atividade humana. As mudanças na posição dos continentes, a intensidade da energia solar, o número de erupções vulcânicas e a órbita da Terra — todas estas razões  influenciaram o clima do nosso planeta. Os climatologistas estudam estas razões. Sabemos que nenhuma delas pode explicar o aquecimento medido desde 1850. E também sabemos que o aumento dos níveis de emissões dos gases de efeito estufa na atmosfera vai aquecer o planeta, tal como temos observado. São as nossas emissões de CO₂ que dominam as recentes tendências de aquecimento”, contextualizou o cientista na mesma rede social.

“A incerteza nestas estimativas é maior do que a que verificamos na informação mais recente, recolhida por termómetros, mas não é por isso que elas deixam de nos dar um contexto realmente útil para as alterações recentes”, admitiu Hawkins sobre a suposição de temperaturas a partir de dados indiretos.

Afinal, a qualidade dos dados não altera o estado das coisas: “Os dados mostram uma lenta tendência de arrefecimento até cerca de 1900, e depois um aquecimento muito acentuado, consistente com as medições do nosso termómetro”.