Da Tesla ao Grupo Volkswagen, os dedos de uma mão não chegam para contar os fabricantes de automóveis que estão a ser prejudicados pelo coronavírus. Segundo a Bloomberg, o surto terá um impacto financeiro superior ao da epidemia de síndrome respiratória aguda grave (SARS), doença também detectada na China, no final de 2002. Sucede que, nessa altura, o mercado automóvel chinês tinha um sexto da dimensão que possui actualmente.

Em 2019, no maior mercado automóvel mundial venderam-se 21,4 milhões de veículos. Um número que já de si representa uma queda (menos 2,3 milhões, dados LMC Automotive), sendo que o Governo de Pequim já tinha previsto que se continuasse a registar um arrefecimento da procura.

Com o surto do coronavírus, as estimativas tornaram-se mais pessimistas, pois 14 províncias e cidades que representam perto de 70% do produto interno bruto chinês viram empresas e fábricas suspender actividade, situação que se deverá manter até à segunda semana de Fevereiro. Cessou a produção fabril e não se sabe quando é que os consumidores voltarão aos stands locais – o que coloca a China em risco de perder o título de maior mercado automóvel do mundo, um estatuto que detém há uma década, mas sobre o qual paira agora a ameaça de um recuo de 20% nas novas matrículas.

Wuhan é uma das motor city chinesas. A capital da província de Hubei é uma cidade com 11 milhões de habitantes, mas o centro de uma região que move 30 milhões de pessoas. General Motors (GM), Nissan, Renault, DS, Peugeot, Citroën e Honda são alguns dos fabricantes que aí produzem automóveis não só para responder às necessidades domésticas, mas também para exportar. Mas as medidas para parar a propagação do coronavírus paralisaram a indústria e não apenas a instalada em Wuhan. Com estradas, linhas ferroviárias e aeroportos fechados, o que mexe é a ansiedade de voltar à normalidade. A CNN avança que as medidas para conter o surto podem levar a uma queda de 1,2% na economia chinesa, surgindo a indústria automóvel como uma das lesadas.

Estima a Aptiv, fornecedora de grupos como a GM e a Volkswagen, que a sua produção irá baixar 10% no final do ano, enquanto a dos construtores de automóveis deverá cair 15% neste trimestre. A Honda, que concentra em Wuhan 11% da sua receita global, mantém três fábricas fechadas. Segundo a consultora JPMorgan, cada mês sem produzir na China custará à marca nipónica uma diminuição de 6,1% do seu lucro operacional. Para a Nissan, a estimativa é de 11%, de acordo com a mesma fonte.

O cenário não é mais animador no caso dos fabricantes franceses. A PSA, que vendeu menos 55% em 2019 na China, agora vê a sua fábrica temporariamente encerrada. A Renault emprega 2000 pessoas em Wuhan, onde as suas instalações fabris possuem uma capacidade instalada para produzir 300 mil carros/ano. Se o valor das acções da marca têm vindo a baixar ainda devido ao efeito Ghosn, somar-lhe o efeito coronavírus é uma agravante para os mercados.

As fábricas da Toyota, Volkswagen e GM continuarão fechadas, pelo menos, até 9 de Fevereiro, sendo que só o gigante americano tem em Wuhan 10% dos seus trabalhadores na China, empregando 6000 pessoas. E porque os efeitos desta crise extravasam a motor city, até a Tesla, cuja Gigafactory foi erguida em tempo recorde em Xangai, admite um atraso de 10 dias no aumento da produção, com “ligeiro impacto” na empresa.