Enviada especial à Índia

“This is beautiful!” Mais um beijinho na testa de Joana Vasconcelos com Marcelo Rebelo de Sousa tão imbuído do espírito que, mesmo perante uma interlocutora portuguesa, é em inglês que elogia o bule de ferro forjado de mais de dois metros da artista, exposto no Museu Nacional da Índia. “É à escala da Alice no País das Maravilhas”, diz Vasconcelos — pelo menos na parte em que encolhe, antes de entrar na realidade (ainda mais) paralela onde vai parar ao chá do Chapeleiro Louco e do Coelho Branco. É mais ou menos da perspetiva desta versão de Alice que Marcelo olha para a Índia: um colosso no qual garante que a sua diplomacia não se tem ficado pelo chá e bolinhos. Quer entrar pelo bule adentro, mas deixa de fora as questões políticas mais relevantes que a Índia enfrenta neste momento. No fim, é mesmo só chá e bolinhos.

Há uma ideia que Marcelo tem repetido, ao longo das primeiras 24 horas na Índia, que encerra em si esta linha de raciocínio: “Estas visitas normalmente são mais teóricas e mais políticas puras e esta foi mais concreta”. “É impossível ter uma amizade profunda só pensando em política”, disse também à tarde durante a visita ao interior do Museu Nacional. É uma forma airosa de afastar do caminho pedras mais incómodas como o radicalismo nacionalista de Narendra Modi — que, aliás, arrumou com uma referência redonda à necessidade de defender os direitos humanos — e focar-se naquilo que afinal leva Portugal até àquelas terras, 13 anos depois da última visita de Estado. É quase uma versão renovada e adaptada do “deixem-me trabalhar” que celebrizou o seu antecessor Cavaco Silva quando ainda liderava o Executivo.

O encontro com Modi foi longo e estendeu-se para o almoço Palácio onde está instalado o primeiro-ministro indiano ESTELA SILVA/LUSA

Depois de mais de três horas de encontro com o primeiro-ministro indiano — sempre a milhas dos jornalistas (apenas quatro repórteres de imagem puderam entrar para tirar umas imagens do encontro) — , o Presidente português saiu já com um “balanço muitíssimo positivo” aos fim das primeiras horas na Índia. “Trata-se de gente muito prática”, disse aos jornalistas, garantindo que os encontros que teve “foram muito rápidos e efetivos, já havia uma linha de prioridades definidas”.

“Há empresas que, desde que chegaram na delegação há dois ou três dias, já estabeleceram o começo de negócios com empresas da Índia” e o chefe de Estado diz ter a “certeza que amanhã [sábado em Bombaim] haverá também negócios importantes que poderão avançar”. E mais: diz Marcelo que entre “os interlocutores indianos” deste dia foi notado um indicador que chegou de Lisboa: um crescimento do PIB em 2019 (que ficou nos 2%) que superou as previsões do Governo. Os interlocutores, garante Marcelo, “estavam muito felizes”.

Multiplicação da vontade de parcerias. E um convite de Marcelo para… 2021

Quando é questionado sobre os acordos, o Presidente fala sobretudo no das Águas de Portugal, que será firmado em Goa, no domingo. “E depois também colaboração no domínio da defesa, porventura no domínio concreto — a três com o Brasil — no caso de um contrato já celebrado para o fornecimento do KC390 e da eventual junção da Índia em termos de produção”.

Na conversa com o primeiro-ministro indiano, Marcelo destaca a “convergência” entre os dois países e no final foram assinados vários documentos: um memorando de entendimento para estabelecer um museu marítimo e outro para a ASAE e o Departamento de Promoção da Indústria e do Comércio Interno indiano. Um acordo de co-produção de audiovisual (a indústria cinematográfica indiana, Bollywood, já tem alguns filmes com cenas rodadas em Portugal), outro sobre transportes e o desenvolvimento portuário e outro ainda para uma parceria entre a Invest India e a Startup Portugal. Finalmente, uma declaração conjunta para uma parceria na mobilidade”.

O PR foi recebido com honras militares pelo homólogo indiano, Ram Nath Kovind D.R.

Ao fim do dia, ainda assinou mais outros tantos no encontro com o Presidente indiano (ao todos são 14 os acordos assinados), mas os de hoje são não institucionais, segundo a Presidência da República, “são entre entidades privadas”. É aqui que se incluirá uma intenção, referida pelo próprio Kovind, de aprofundar o estudo do yoga, originário da Índia, em Portugal. O indiano referiu mesmo que na conversa com Marcelo pôde constatar que existem 10 mil praticantes de yoga em 162 escolas e disse também esperar ver “em breve” que esta venha a ser uma disciplina incluída “nos currículos das escolas portuguesas”.

Nas declarações finais, antes do banquete oficial, os dois presidentes iniciaram o momento formal com trocas de cumprimentos na língua um do outro. “Boá tarde” e “muitó ôbrigado” para cá e “namaste” para lá, mas da parte do indiano houve também uma referência à “notável gestão da robusta democracia portuguesa” que atribui a Marcelo. O Presidente português não respondeu com um elogio semelhante, focou-se mais uma vez nas mais-valias do aprofundamento da relação “Portugal-Índia”.

São tantas que do encontro saiu o convite de Marcelo para Ram Nath Konvid “visitar Portugal. Espero que possa aceitar para o próximo ano“, 2021. Atirou, portanto, esta visita para o mandato do próximo Presidente da República, já que o seu (primeiro?) mandato em Belém termina no início do ano que vem.

O chá gigante de Vasconcelos

No Museu Nacional, perto das cinco da tarde na Índia, foi a hora do chá. Quase literalmente. Marcelo Rebelo de Sousa teve o seu primeiro momento cultural desta visita (o outro será em Goa), com a artista plástica portuguesa Joana Vasconcelos a ser a primeira portuguesa a expor naquele museu. A peça está no exterior do edifício e é um bule com cerca de dois metros e meio de altura com seus lugares sentados dentro. “Pode-se entrar e tomar chá”, explica Joana Vasconcelos.

Não foi o que Marcelo foi ali fazer, aproveitando antes a origem do chá para mais uma proximidade entre os dois países. O chá foi trazido da Índia e da China pelos portugueses e foi Portugal que o introduziu na corte europeia, através de Catarina de Bragança.

“É uma diplomacia com chá, esta aqui de Joana Vasconcelos que traz uma peça pensada para o chá das cinco e que tem amplo acolhimento na Índia” e que “significa a capacidade de encontro, porque ali cabem várias pessoas”. Na Índia de Marcelo (e de António Costa) também têm agora de caber várias empresas portuguesas.