O alarme começou a soar em Itália na passada sexta-feira, quando morreu um homem de 78 anos na região de Veneto (no nordeste do país) que estava internado há vários dias com sintomas de gripe. Um dia depois, o número de mortos em Itália subia para dois — com uma mulher que estava internada num hospital perto de Milão a perder também a vida. Com o número de vítimas mortais a aumentar, a preocupação também duplicava: se nenhum deles tinha estado na China, nem em contacto com chineses, então, de onde vinha o vírus?

Sem respostas para a pergunta-chave, a escalada continuou durante o fim de semana até culminar com o seguinte cenário nesta terça-feira: 11 mortes em Itália, num total de 322 doentes infetados, sendo este o país europeu a despertar maior preocupação.

A juntar-se a isto, começaram a surgir complicações em Espanha: depois de detetados três casos nas Canárias, que levaram ao isolamento de cerca de mil turistas num hotel de Tenerife, o novo coronavírus chegou esta terça-feira à Espanha continental — primeiro Barcelona, depois Valência e, finalmente, Madrid. Tudo pessoas que tinham estado em Itália e que, portanto, “importaram” o vírus.

Em Portugal, ainda não há alarme: além de Adriano Maranhão, o português infetado que estava a bordo do cruzeiro Diamond Princess, no Japão, e que esta terça-feira foi finalmente autorizado a sair do navio e a ser transportado para um hospital de Okazaki, houve um total de 17 casos considerados suspeitos, sendo que 16 deram negativo. Resta saber os resultados das análises a um outro paciente, um homem de 31 anos que esta terça-feira foi transportado de Torres Novas para o Curry Cabral, depois de ter estado em Milão.

A epidemia está-se a espalhar pela Europa, mas a verdade é que nenhum líder político considera fechar fronteiras. Representantes dos governos de Itália, França, Suíça, Áustria, Croácia, Alemanha e a comissária europeia da Saúde, Stella Kyriakides, reuniram-se esta terça-feira em Roma e decidiram “avaliar caso a caso” o possível cancelamento de grandes eventos. Também esta terça-feira, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que podemos estar perante um “problema europeu”, dado o aumento exponencial de casos em Itália, mas alertou para a impossibilidade do fecho de fronteiras.

“Temos a noção de que há aqui um problema que se pode converter num problema europeu, porque a Itália não descobriu ainda a fonte, a origem da cadeia que chega agora a muitas localidades. E, não descobrindo, e com a circulação que existe sobretudo para os países vizinhos em termos de fronteiras da Itália, isto acaba por ir parar um pouco a toda a Europa”, disse o Presidente. Marcelo garantiu que, apesar dessa mais fácil propagação do vírus pela Europa, o fecho de fronteiras não é uma opção viável.

Itália “exporta” casos para Espanha, Croácia, Suíça e Áustria

O foco de tensão reside em Itália, sobretudo na região da Lombardia, e é daí que têm sido exportados os novos casos para os países vizinhos. Só esta terça-feira Itália registou mais de 100 novos casos, tendo agora doentes infetados em oito regiões diferentes, num total de 322 pacientes:

240 na região de Lombardia (zona de Milão)

43 na região de Veneto, no nordeste

26 em Emilia Romagna (norte)

3 na região da Lázio (região centro, onde fica Roma)

3 na região de Piemonte (norte de Itália)

3 na Sicília (sul)

2 na Toscana (centro)

1 na região de Trentino-Alto Ádige (no extremo norte de Itália)

1 na Ligúria (capital é Génova)

A polícia montou entretanto postos de controlo em 12 cidades do norte do país que estão de quarentena. Não se conhecendo o paciente-zero em Itália, o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, apontou já o dedo a uma suposta gestão inapropriada de um hospital, o hospital de Codogno, onde chegaram alguns dos primeiros pacientes infetados:

Houve um surto e dali espalhou-se, mas a gestão de uma estrutura hospitalar não é inteiramente nossa, de acordo com os protocolos estabelecidos para casos destes. Isto contribuiu para o contágio”, disse, sublinhando que “sabe-se agora que houve uma gestão ao nível de uma estrutura hospitalar que não é completamente apropriada segundo os protocolos de prudência recomendados”.

Só em Itália, o número de mortos subiu para 11 esta terça-feira, com o presidente da Proteção Civil italiana, Angelo Borreli, a confirmar que se trata de idosos na casa dos 80 anos provenientes, maioritariamente, da região da Lombardia. Os sintomas que apresentam são os de uma gripe dita normal.

Ao longo da tarde desta terça-feira, começaram a ser conhecidos novos casos de doentes infetados noutros países que, até então, estavam a escapar ilesos: foi o caso da Áustria, Croácia e Suíça, que confirmaram que os seus primeiros pacientes infetados com o Covid-19 tinham todos viajado recentemente para Itália. Um deles, natural da região dos Balcãs, tinha estado em Turim, no norte de Itália. O caso registado na Suíça foi na zona de Ticino, na fronteira com Itália.

OMS faz relatórios diários do número de casos do coronavírus em todo o mundo. Ponto da situação de 25 de fevereiro mostra como o Covid-19 está a ganhar expressão na Europa.

É Espanha, contudo, o país que mais tem sido afetado pelas “exportações” do vírus a partir de Itália. Depois de terem sido detetados três casos nas Canárias (em Tenerife) esta segunda-feira, tudo pessoas que tinham estado em Itália, o Covid-19 chegou esta terça-feira à Espanha continental: primeiro a Barcelona, depois a Valência e depois foi ainda detetado um outro caso em Madrid. No total, são 7 o número de infetados em Espanha (continente e ilhas).

Mil turistas em quarentena em Tenerife. E vírus chega à Península Ibérica

A escalada em Espanha deu-se esta terça-feira, quando foram confirmados ao início da tarde cinco novos casos (antes tinham sido dados como confirmados dois casos nas Canárias, um turista alemão no final de janeiro, e um britânico, a 9 de fevereiro, que entretanto já tiveram alta). Os novos casos conhecidos esta terça-feira remetem para um casal de turistas italiano, que estava de férias em Tenerife (Canárias), e que determinou a quarentena de cerca de mil turistas e funcionários do hotel onde estavam alojados no Adeje Palace; e uma mulher italiana de 36 anos, italiana, que vive em Barcelona e esteve de férias em Milão e Bérgamo. Este foi o primeiro caso confirmado no território continental de Espanha, que levou a que cerca de 25 pessoas que tinham estado em contacto com a mulher recebessem instruções para ficarem em casa, em isolamento.

Ao início da noite desta terça-feira, contudo, surgiram dois outros casos: um em Valência e outro em Madrid. Ao todo são sete (ou cinco, já que dois deles estão considerados inativos depois de uma primeira análise ter dado positivo). Tudo casos de viajantes provenientes de Itália.

A comunidade de Madrid confirmou esta noite que o paciente afetado se trata de um jovem de 24 anos que tinha estado em viagem no norte de Itália e que, no regresso a casa, chamou as autoridades sanitárias a sua casa, onde recolheram as primeiras amostras: deram positivo. As amostras foram enviadas para o Centro Nacional de Microbiologia para uma dupla confirmação, e o jovem seria levado esta noite para o Hospital Carlos III com sintomas de tosse, expetoração e febre. Antes, a comunidade de Valência tinha confirmado um outro caso: trata-se de um homem que se tinha dirigido ao hospital de La Plana com sintomas de gripe.

Perante o aumento de casos no país, o primeiro-ministro Pedro Sánchez reuniu esta terça-feira o Conselho de Ministros, tendo também reunido o Conselho interterritorial do Sistema Nacional de Saúde. À entrada para essa reunião, o ministro da Saúde, Salvador Illa, sublinhou que “todos os casos são importados”. “Não temos sinais, nesta altura, de nenhuma transmissão em Espanha”, disse, sugerindo que não há propagação entre espanhóis, mas há sim “importações” do vírus de Itália para Espanha, devendo agora o país atuar de forma preventiva para evitar o contágio.

O Governo da comunidade autónoma do arquipélago das Canárias também ativou, nas primeiras horas desta terça-feira, o protocolo em vigor em caso de infeção com o Covid-19 e, como medida preventiva, procedeu à colocação em quarentena do parceiro da pessoa infetada, assim como cerca de mil turistas que estavam instalados no mesmo hotel. Segundo a imprensa espanhola, as farmácias em Tenerife já estarão perto de esgotar o stock de máscaras médicas.

Até no Reino Unido, onde não há vítimas de coronavírus, os cuidados estão a ser redobrados. Segundo o The Guardian, as indicações do governo são para os viajantes que regressaram do norte Itália se manterem em isolamento voluntário se tiverem desenvolvido sintomas de gripe, e para se manterem em isolamento durante 14 dias aqueles que tiverem estado numa as 12 cidades italianas colocadas em quarentena (nas regiões de Lombardia e Veneto), mesmo que não tenham desenvolvido sintomas. Algumas escolas britânicas estão a mandar miúdos para casa, por terem regressado de férias da neve do norte de Itália.