O surto de Covid-19 está a afetar severamente o setor produtivo nacional e a joalharia não é exceção. Segundo um inquérito promovido pela AORP (Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal) junto de 88 empresas, num total de mais de 400 associados, 80% encerraram totalmente a sua atividade na sequência do estado de emergência em vigor em Portugal desde 19 de março. Uma fatia de 65% tomou a decisão por tempo indeterminado.

Às dificuldades comuns a todos os setores acresce o encerramento das contrastarias nacionais, das quais dependem, salvo raras exceções, a certificação de todas as peças de joalharia, exigida por lei. O serviço é prestado pela Imprensa Nacional Casa do Moeda (INCM), organismo que fechou portas na sequência da crise de saúde pública que assola o país.

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“Para além das fragilidades transversais a toda a economia, temos a particularidade de sermos um setor certificado. A Casa da Moeda encerrou por motivos sanitários e isso é mais uma areia nesta engrenagem. Há empresas presentes no mercado digital e para as quais esse canal podia continuar a ser uma forma de escoar produto. Contudo, esse produto não está devidamente marcado, é algo obrigatório em todas as peças em metais preciosos”, explica Nuno Marinho, presidente da AORP, ao Observador.

A solução, segundo o responsável, passaria por uma ordem de exceção — garantir o funcionamento das contrastarias de Lisboa e do Porto, “acautelando a segurança dos funcionários e dos agentes económicos que a elas recorressem, com recurso a transportadoras e a atendimento por marcação, de forma a que as empresas que ainda conseguem trabalhar não se vejam também obrigadas a parar”, completou Nuno Marinho.

De volta ao mesmo inquérito, aferido a 23 de março, mais de metade das empresas preveem um impacto nas vendas entre os 76% e os 100%, enquanto uma fatia de 19% dos inquiridos situa os danos entre os 51% e os 75%. À parte do encerramento da entidade de certificação, as empresas acusam ainda a quebra no volume de vendas, o mais imediato dos sintomas, o encerramento de instalações e das cadeias de distribuição a montante e a jusante. No horizonte, o setor vê medidas como o lay-off, os despedimentos e mesmo o encerramento de atividade cada vez mais próximas.

“Falamos de um bem associado ao segmento do luxo. É o primeiro a ser dispensado e o último a recuperar numa fase de retoma”, assinala Nuno Marinho. “Não tenho conhecimento de empresas que tenham assumido a decisão de fechar definitivamente, mas sei que há perspetivas de encerramento. É um setor com muitas micro empresas, empresas familiares que não têm grandes almofadas financeiras que as façam aguentar muito tempo sem trabalhar. Diria que dois ou três meses assim já é o suficiente para levar as mais frágeis à falência”, remata o presidente da AORP.

Em Portugal, o setor é composto por 4.300 empresas e representa um volume de negócio anual de mil milhões de euros, do qual 10% correspondem a exportação. Contudo, o tecido empresarial é sui generis — 81% tem menos de 10 trabalhadores, apenas 19% faturam acima de um milhão de euros por ano.

O expositor de uma marca portuguesa na Bijorhca, uma importante feira do setor, em Paris © Facebook

“Algumas medidas pecam por serem curtas”, admite Nuno Marinho, referindo-se aos apoios às empresas anunciados pelo Governo ao longo da última semana. Juros mais baixos nos financiamentos garantidos pelo Estado, a redução das contribuições e não o simples diferimento e a revisão “fundamental e urgente” dos requisitos para o lay-off — “pelo menos, poder ser aplicado com efeito retroativo” — são os apelos feitos pela associação junto do Ministério da Economia. No caso particular das contrastarias, as tentativas de sensibilização são dirigidas ao Ministério das Finanças, que tutela a INCM.

Até aqui, a internacionalização era uma espécie de âncora do setor. Escusado será dizer que as ações agendadas para os próximos meses foram canceladas. Nos últimos cinco anos, a AORP investiu entre 4 e 5 milhões de euros numa estratégia ainda encetada para responder à crise anterior. O presidente assegura que a joalharia portuguesa estava “finalmente” a ver os frutos do trabalho. Agora, o lockdown é praticamente universal. Falta saber o que vai sobreviver.