Já há doentes de COVID-19 no Hospital Curry Cabral e no Dona Estefânia a serem tratados com medicamentos tipicamente utilizados no tratamento da malária, ébola ou em casos de infeção pelo vírus da sida, confirmou fonte oficial do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC).

Cada vez que os médicos entendem que esses medicamentos se aplicam a um determinado paciente — internado e com os sintomas mais graves da doença —, o caso desse doente é avaliado individualmente pela Comissão de Farmácia e Terapêutica do CHULC e é definido um tratamento para o paciente. Até agora, todos os casos levados à comissão foram aceites. Mas, neste momento, ainda não se conhecem os resultados destas terapêuticas no tratamento da COVID-19 nestes hospitais nem em quantos doentes estão a ser aplicadas.

A norma que impôs a fase de mitigação na resposta ao surto de COVID-19 em Portugal a partir desta quinta-feira admite a utilização de medicamentos como a cloroquina, hidroxicloroquina, remdesivir e a associação lopinavir/ritonavir no tratamento de doentes infetados com o novo coronavírus. A Direção-Geral de Saúde explica que essas soluções “podem ser equacionadas”, mas criteriosamente e “de acordo com o juízo clínico”.

A cloroquina e a hidroxicloroquina são fármacos utilizados no tratamento da malária; a associação lopinavir/ritonavir é aplicada em pessoas infetadas com um retrovírus, sobretudo o VIH; e o Remdesivir é um novo medicamento antiviral que atualmente está a ser utilizado no combate ao ébola.

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Agora, em Portugal e noutros países do mundo, esses mesmos medicamentos estão a ser usados também no combate à infeção pelo novo coronavírus. Por cá, essas terapêuticas podem ser aplicadas em pacientes em acompanhamento na enfermaria com queixas de insuficiência respiratória ou evidências de pneumonia; e em doentes internados nos cuidados intensivos, quaisquer que sejam os seus sintomas.

Em conferência de imprensa esta quinta-feira, a diretora-geral da Saúde garantiu que “os nossos doentes estão a utilizar todo o arsenal terapêutico disponível no mercado”. Sobre estes em medicamentos em particular, Graça Freitas afirma que “aparentemente resultam, mas são medicamentos que estão a ser utilizados fora da indicação primária e nós ainda temos uma casualística muito pequena em Portugal para tirar conclusões”.

“Nós estamos a aprender muito e a basear-nos também na casualística dos outros países”, acrescentou a diretora-geral:” Tudo aparenta que dá resultado, estamos a usar. Quando tivermos mais utilização em Portugal, contribuiremos para a ciência a nível mundial”.

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Os tratamentos com cloroquina mostraram-se promissores em laboratório. Um estudo considerou este produto “altamente eficaz no controlo da infeção por 2019-nCoV [o outro nome do vírus] in vitro“, outro diz que a cloroquina “tem eficácia aparente e segurança aceitável contra a pneumonia associada ao COVID-19 em ensaios clínicos multicêntricos realizados na China”.

Na Europa, um ensaio clínico com 24 pacientes franceses concluiu que, após seis dias de tratamento com hidroxicloroquina, apenas 25% dos pacientes ainda continuavam com o vírus, enquanto 90% dos doentes que não tiveram esse tratamento ainda tinham a COVID-19. Pode ler mais sobre estes estudos aqui em baixo.

o mesmo entusiasmo em relação ao remdesivir, que, de acordo com as declarações de Bruce Aylward, líder da equipa da Organização Mundial de Saúde enviada à China em fevereiro, é o único medicamento “que acreditamos ter eficácia real neste momento”. É que há testes feitos em animais que mostram que este medicamento é ativo contra a MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio) e a SARS (síndrome respiratória aguda grave), duas doenças causadas por outros coronavírus.

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Apesar de a utilização destes medicamentos nos hospitais de outros países — como os Estados Unidos, França, Coreia do Sul e China — parecer surtir algum efeito, ainda é cedo para concluir que são realmente eficazes para tratar a COVID-19. Os ensaios clínicos publicados até agora não testaram as terapêuticas num número suficientemente grande de pacientes para que as conclusões tenham solidez. É preciso mais gente, mais tempo e mais testes.