Espanha chegou na sexta-feira às 4.858 vítimas mortais por causa do novo coronavírus, na sua maioria homens, idosos e com outras patologias prévias. No entanto, escreve este sábado o El País, a realidade da doença no país vizinho “é ainda mais dura”. De acordo com um relatório feito pelo Instituto de Saúde Carlos III, ao qual o El País teve acesso, o vírus quase duplicou a mortalidade em algumas zonas de Espanha, mas o responsável pela coordenação dos serviços de saúde em Espanha, Fernando Simón (o homólogo da portuguesa Graça Freitas, que dirige a  Direção-Geral de Saúde), apenas está a revelar diariamente uma parte reduzida das verdadeiras dimensões da epidemia. Porquê? Porque apenas inclui nos relatórios diários os doentes que morrem depois de terem dado positivo nos testes de Covid-19.

O relatório do Instituto Carlos III – que funciona sob a tutela dos ministérios da Saúde e da Ciência – baseia-se nos dados obtidos pela rede de “Vigilância de Excesso de Mortalidade por todos os motivos”. Esta rede monitoriza as mortes diárias em toda a Espanha, com base nos registos civis, e compara-os com a média de 2008.

As diferenças são assustadoras. Na região de Castilla-León entre 17 e 24 de março, registaram-se 885 mortes, quando o expectável – segundo as médias dos anos anteriores –  seria de 500. Desse aumento de 385 mortes, considerado pelo instituto como um “excesso de falecimentos” (77% mais), as conferências de imprensa diárias por causa do coronavírus apenas deram conta de 112, menos de um terço. O El País escreve, por isso mesmo, que se trata de mortes que “passaram despercebidas e que foram registadas como tendo causas mais génericas, como pneumonia, ou que não podiam ser incluídas nos registos de coronavirús – mesmo que houvesse suspeita disso – porque as provas diagnósticas não tinham chegado a tempo”.

As comunidades de Castilla-La Mancha e Madrid são outras autonomias espanholas com dados reveladores. No caso de Castilla – La Mancha, entre 15 e 24 de marça, o instituto Carlos III identificou 938 mortes, 75,5% mais do que o expectável.

Deste “excesso de mortalidade” de 404 mortes, a administração de saúde espanhola deu conta de apenas metade nos briefings diários. E em Madrid, entre 10 e 16 de março, houve 1.318 mortes, mais 66% do que a média expectável (que era de 794 falecimentos).

Nas conferências de imprensa diárias, a administração espanhola de Saúde falou em 192 mortes, quando o excesso de mortalidade detetado pelo instituto Carlos III é de quase o triplo.

O cenário de Madrid é dos mais surpreendentes porque, depois de ter sido detetado este excesso de mortalidade até ao dia 16, os valores voltaram a níveis normais. Isto precisamente na altura em que houve um aumento maior no número de mortes causadas pelo vírus.

“É um enorme problema de qualidade dos dados. O sistema, também nos registos, está sobrecarregado. O mais importante deste estudo é que revela pela primeira vez os aumentos reais da mortalidade nas zonas e nas datas em que a qualidade dos dados é boa. E em todas elas os aumentos são devastadores”, indicam ao El País fontes conhecedoras do sistema de monitorização diário de mortalidade em Espanha.