Pois que estive a ver de uma penada os primeiros cinco episódios da quarta temporada de “La Casa de Papel” (que em português quer dizer “A Casa de Papel”, para quem não domina o castelhano). Até deixei crescer ligeiramente as unhas para poder roê-las, tal era a excitação. Não farei aqui spoilers. Não é que não me apeteça imenso, para vos estragar a série. Apetece. Mas tive de assinar um documento que me proibia explicitamente de fazê-lo, e não quero mais problemas com a Justiça do que aqueles que já tenho. Por exemplo, só às Finanças, devo mais de um milhão de euros, imaginem. Mas isso são contas de outro rosário.

O gancho “problemas com a Justiça” não podia vir mais a propósito, pois que trata este seriado espanhol de um grupo de pessoas que anda mesmo a pedi-las. Mas, por enquanto, tem a Justiça mais problemas com eles do que o contrário.

E quem são estes malandros? Eu conto. São um bando de meliantes — cada um com o nome de código de uma cidade, desde cidades civilizadas como Estocolmo a cidades de terceiro mundo como Bogotá, passando por Lisboa, que está mais ou menos a meio entre uma coisa e outra —, chefiados por um mastermind, o Professor, que se juntou para dar o golpe do século. E já deu. Na primeira e segunda temporada, tomou de assalto — literalmente — a Casa da Moeda em Madrid.

[o trailer da nova temporada de “La Casa de Papel”:]

A Casa da Moeda em Madrid é um edifício imponente e majestoso, não é aquela coisa amorosa, mas pouco impressionante que temos cá, no Arco do Cego. Desde pequeno que, quando por lá passo, penso: “Que será que fazem ali dentro?”. Com as primeiras temporadas de “La Casa de Papel”, fiquei a saber que é dinheiro. Em retrospetiva, estava-se mesmo a ver. Casa. Da. Moeda. Mas, em retrospetiva, tudo se está mesmo a ver. Por exemplo, olhando hoje para as fotografias do casamento dos meus pais, estava-se logo a ver que não ia correr bem.

A quarentena está a dar-me cabo da pinha, desculpem. Adiante.

Dizia eu que este punhado de macacos entrou pela Casa da Moeda adentro, com um plano elaboradíssimo, não para roubar o dinheiro (que as notas já vêm com os números de série e depois é uma chatice para não se ser apanhado) mas para imprimir notas novas. Realmente, há gente com muita cabeça! Só lhes dá é para o mal! Mas o plano é ótimo, e contraria aquela frase feita de que a melhor forma de roubar um banco é ser o dono.

É deste assalto que se ocupa a primeira e a segunda temporada. Podem rever que não pagam mais por isso.

Na terceira, dois anos passados, o alvo é o Banco de Espanha. A motivação aqui é mais uma vingança pessoal e não tanto o dinheiro. Mas, em podendo juntar as duas coisas, porque não? Vingamo-nos da pessoa e vamos rir para uma ilha no Pacífico. Ou para uma mansão horrorosa forrada de azulejos em Celorico da Beira, isto vai dos sonhos de riqueza de cada um.

Como sabem, e se não sabem ficam a saber, a terceira temporada terminava precisamente com uma intervenção musculada da polícia, como se diz agora, e com aquilo a dar para o torto. A correr pior, como diria André Ventura, “que uma festa de casamento cigana”.

E, curiosamente, a quarta temporada começa precisamente onde acaba a terceira. Isto parece óbvio, mas nem sempre é assim, umas vezes porque os argumentistas, entretanto, se esqueceram de onde iam, outras vezes por opção artística.

[reveja os últimos quatro minutos na parte 3 da série:]

Ou seja, seguimos dentro do Banco de Espanha, segue o plano para derreter uma data de lingotes de ouro e fugir com ele. Com o ouro, não com o Banco de Espanha. Mas tinha graça, por acaso. Levarem o Banco de Espanha pedra por pedra e deixarem só o ouro no lugar. Mas, pronto, é por estas e por outras que nunca me convidaram para escrever uma série.

E, claro, as coisas vão levar grandes reviravoltas, dentro e fora do banco. Vão acontecer imensas coisas, que isto é “La Casa de Papel”, não é o “Downton Abbey”.

Destes cinco episódios, tenho a dizer que os primeiros dois são algo soporíferos, pelo menos para quem estava habituado ao ritmo alucinante das primeiras temporadas, ou para quem já não durma há uma data de horas, que era o meu caso.

Mas não desistam. Os dois últimos episódios compensam em ação o que falta aos primeiros, que também não são propriamente uma estopada. Digamos que a temporada não é uma salada russa de ação, tudo misturado. É um bife com batatas fritas e ovo a cavalo e depois a salada — a ação — vem à parte, num pratinho. E já vem temperada.

Vamos assistir a mais umas quantas alterações ao plano inicial do Professor. A este propósito, devo dizer que quem já não se lembra bem da história inicial tem o trabalho facilitado, que a narrativa é feita in media res, que é uma locução latina que hoje já ninguém usa, e que significa que começa no meio e depois anda para trás e para a frente. É uma espécie de box, mas não precisa de comando.

[cenas “memoráveis” de “La Casa de Papel”:]

Dentro do banco, vamos assistir a lutas pelo poder, a desavenças amorosas (não há cenas de sexo, para isso, procurem outras plataformas, que não há poucas) e a novas paixões (também sem sexo, fazendo jus aquele dito nortenho: “Estamos aqui para roubar um banco, não estamos aqui para levar no **”).

A temporada é cheia de sobressaltos, cada um de nós torcendo pela sua personagem preferida. É que não há nenhuma que, a dada altura, uma pessoa não leve as mãos à cabeça e pense: “Ai, credo! Vai morrer! É desta!”.

Se alguém morre ou não, isso só vendo, não conto. Mas que andam todos lá perto, isso andam. Temos até uma complicadíssima operação cirúrgica feita de improviso e mostrada passo a passo, o que pode ser útil nesta fase de quarentena, se alguém precisar. Ou queira simplesmente matar um familiar.

E tem uma caça ao homem — a parte mais excitante da temporada — que, juro, me fez saltar para posição fetal em cima do sofá e tapar os olhos com as mãos, a espreitar por uma nesga entre os dedos, de nervos. Sem querer revelar muito, faz os James Bond parecerem filmes de espiões. Espera! Os James Bond são mesmo filmes de espiões. Bom, foi um mau exemplo, desculpem. Mas é mesmo de ficar colado ao ecrã. Está muito bem feito e os atores são ótimos, parece que aquilo é mesmo tudo verdade.

Do lado de fora do banco, do lado da polícia, que nesta série são os maus (nesta série e em todos os bairros pobres das periferias das cidades), temos a minha personagem preferida. Não é que eu não esteja do lado dos ladrões, claro que estou. Mas apaixonei-me pela tipa que está agora à frente das operações e que é uma cabra com C grande. Aliás, com C, com A, com B, com R, com mais outro A grande. Fiquei cheio de vontade de ser amigo dela. E até de apresentá-la à minha mãe. “Mãe, esta é a minha amiga Alicia. É espanhola. É inspetora da polícia”. E, depois, como de costume, a minha mãe dava-lhe só um beijinho e deixava-a pendurada, como faz as minhas amigas todas. Enfim…

[uma coleção de “bloopers”, erros na rodagem:]

Curiosamente, apesar de contar a história de um assalto megalómano ao Banco de Espanha, as cenas mais inverosímeis da série são as várias mensagens politicamente corretas que salpicam a ação. Como a forma leve, natural e civilizada com que uns burgessos reagem a temas como a emancipação das mulheres ou a transexualidade. Mais depressa fugiam com o ouro todo sem serem apanhados.

No meio de tudo isto, deste morre-não-morre, escapa-não-escapa, podemos ainda assistir à forma descomplexada com que se lixa o Banco de Espanha. Quer o assalto corra bem quer corra mal, está ali muito trabalho para limpar. Que eu tenha visto, deram cabo de uns trinta candeeiros, de dois elevadores, de múltiplas mesas e cadeiras e de três ou quatro obras de arte. Isto sem falar do chão de mármore da entrada do banco. Com tanto assaltante e refém, imaginem o quão patinhado aquilo não ficou.

Fiquei completamente em pulgas para ver os outros três episódios e conto com um grande desfecho. Ainda não é aqui que a série tem o seu fim. Estão prometidas mais duas temporadas. Quer dizer, não por mim, pela Netflix.

Não consigo terminar sem um spoiler, é mais forte que eu. Não sobre esta série, que, como já disse, não posso. Mas, quem ainda não viu a última temporada de Guerra dos Tronos, saiba que o Jon Snow mata a Daenerys no fim.

Pronto, já vos consegui estragar pelo menos uma série.

O resto, façam vocês aos vossos amigos.