Portugal já está a “entrar numa fase piloto” para mais tarde começar a fazer testes de imunidade à doença Covid-19 à população, com o objetivo de detetar quem passou pela doença assintomático e sem nunca saber que esteve infetado. Além dos doentes curados que passaram pelo sistema de saúde, também estas pessoas podiam assim sair à rua, trabalhar e estar junto de infetados sem correrem o perigo de contraírem a doença ou infetarem outros. Isso permitiria dar a essas pessoas o chamado  “passaporte imunológico” e contribuir para uma menor paralisação de serviços. Países como Alemanha e o Luxemburgo também estão a estudar como aplicar de forma eficaz este processo.

A pergunta foi feita este sábado na conferência de imprensa diária. A ministra da Saúde preparava-se para responder, mas acabou por dar a vez à diretora-geral de Saúde. Graça Freitas adiantou o “Instituto de Saúde Ricardo Jorge está neste momento já a entrar numa fase piloto ou em estudos para perceber como é que esses testes podem ser feitos e quando é a altura ideal”.

Mas não estará para breve. A diretora-geral de saúde recorda que estes “são testes de imunidade, e a imunidade é uma coisa que leva tempo a instalar.” Ou seja: “Entre a data de infeção e a data em que o nosso corpo começa a produzir anticorpos visíveis, há um tempo que temos mesmo de esperar. Parece que foi há muito tempo mas a doença em Portugal começou há cerca de um mês, portanto a maior parte dos nossos doentes ainda está em fase de recuperação.”

Portugal não está a caminhar para esta solução sozinho e está em permanente contacto com outros países. Graça Freitas explica que se trata de “um estudo internacional” em que “o Instituto Ricardo Jorge, obviamente com a colaboração dos cientistas, dos académicos e da Direção Geral [de Saúde], vai entrar numa fase piloto com outros países para perceber o que se está a passar e ver qual é a altura ideal para introduzir o teste“. Isto porque, “se for demasiado precoce pode não haver ainda anticorpos”.

A diretora-geral de Saúde explica ainda que é preciso “encontrar uma data para fazer numa amostra da população”. Mas não esconde que vão avançar: “Vão ser efetuados (…) Portugal vai fazer testes serológicos para saber a percentagem da população que adquiriu imunidade a este vírus“. O tempo e a forma como vão avançar é que estão em estudo, já que “a metodologia desses estudos e a data estão agora a ser analisados pela comunidade internacional”. Depois disso ainda têm de ser repetidos “para ver a duração da imunidade”, já que, reitera Graça Freitas, “o histórico deste vírus ainda é muito curto, temos de aguardar que o tempo passe para sabermos mais coisas”.

A Alemanha foi dos primeiros países a avançar com a ideia, como noticiou a revista alemã Der Spiegel. O plano dos investigadores do Centro Helmholtz para a Investigação de Doenças Infecciosas é testar 100 mil pessoas, concedendo um “certificado de imunidade” às pessoas que provarem ter anticorpos contra o novo vírus. O plano alemão era permitir que a economia alemã não fosse tão afetada e que se começassem a reabrir escolas e serviços públicos.

Quem tiver tido Covid-19 poderá, depois da realização de um teste que comprove a total recuperação, voltar à vida normal com um “certificado de imunidade”. Esta é a ideia que está a ser estudada na Alemanha para evitar que as medidas de contenção do coronavírus afectem a economia mais do que o estritamente necessário, revela a revista alemã Der Spiegel. O objectivo dos investigadores do Centro Helmholtz para a Investigação de Doenças Infecciosas que estão a desenvolver o plano é testar 100 mil pessoas, dando certificados a todas as que, entretanto, tiverem desenvolvido os anticorpos e, portanto, a imunidade ao novo coronavírus, e que poderão assim regressar ao trabalho de forma normal. Com esta medida, a Alemanha espera conseguir ir gradualmente abrindo as escolas e permitindo ajuntamentos públicos de maior dimensão.

Alemanha pondera criar “passaporte imunológico” para saber quem pode ir à rua

Já terça-feira a agência Lusa noticiou que laboratórios científicos portugueses estava a desenvolver um teste de diagnóstico da covid-19 que permitisse detetar anticorpos gerados pelo sistema imunitário contra o coronavírus que causa a doença infecciosa. Em declarações à Lusa, o imunologista Luís Graça, do Instituto de Medicina Molecular (IMM) João Lobo Antunes, da Universidade de Lisboa, considerou que os testes serológicos poderão ser úteis em Portugal numa altura em que aumentam as infeções por transmissão comunitária. Ao poderem confirmar a presença de anticorpos contra o SARS-CoV-2, estes testes levam a que as pessoas possam “recomeçar as atividades produtivas com a confiança de que não vão ser contaminadas ou contaminar outras pessoas“, explicou o especialista. E acrescenta: “À medida que a pandemia avança, os testes [serológicos] permitem identificar as pessoas que contactaram com o vírus e que, em princípio, estão protegidas”, reforçou, em declarações à Lusa.

Luís Graça estimou na terça-feira que este teste poderá estar validado laboratorialmente dentro de três a quatro semanas. O Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET), que se associou ao IMM no ensaio de um teste serológico, tem uma “plataforma de produção de proteínas” que lhe permite produzir proteínas do SARS-CoV-2 para “muitos testes” ou para ensaios clínicos de uma eventual vacina. A presidente do IBET, Paula Alves, explicou à Lusa também na terça-feira investigadores podem produzir proteínas do vírus sem trabalhar diretamente com o SARS-CoV-2, mas com “os genes que codificam estas proteínas” e que estão “dentro de plasmídeos”, estruturas celulares constituídas por ADN e que podem ser replicadas independentemente dos cromossomas.

A imunologista Helena Soares, do Centro de Estudos de Doenças Crónicas (CEDOC) da Universidade Nova de Lisboa, também envolvido no desenvolvimento do teste serológico para a Covid-19, diz que está a “chegar o momento” em que é necessário estudar os “níveis serológicos” da infeção, para “antecipar problemas, controlar variáveis e adequar medidas”, como direcionar os médicos e enfermeiros que ganharam imunidade ao coronavírus para “tarefas de maior risco”. Segundo a investigadora, os testes serológicos são uma ferramenta importante para se perceber que percentagem da população “está protegida” e planear “medidas para o próximo surto”.

A diretora do Instituto Gulbenkian de Ciência, Mónica Bettencourt-Dias, lembrou também em declarações à Lusa que o valor económico dos testes serológicos à Covid-19: “É importante para a economia”.