Os países do continente americano, nomeadamente Estados Unidos, México ou Colômbia, estão a falhar na proteção dos direitos dos profissionais de saúde que estão na linha da frente do combate à Covid-19, denunciou esta terça-feira a Amnistia Internacional (AI).

Num relatório esta terça-feira publicado, a organização não-governamental (ONG) de defesa dos direitos humanos alertou para as “terríveis condições” que enfrentam os profissionais de saúde na região das Américas, que é atualmente o centro da pandemia do novo coronavírus, ao registar o maior número de casos de infeção confirmados, cerca de 2,1 milhões.

Em relação às vítimas mortais associadas à doença, o continente americano totaliza cerca de 127 mil óbitos.

No relatório, publicado na semana em que decorre a reunião anual da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Amnistia relatou que estes profissionais estão a trabalhar, frequentemente, sem condições de segurança e com equipamentos de proteção insuficientes, bem como correm o risco de sofrer represálias por parte das autoridades ou das entidades empregadoras quando denunciam tais situações.

Segundo a ONG, alguns destes profissionais, após divulgarem a precariedade das condições de trabalho, chegam mesmo a ser alvo de ameaças de morte e agressões físicas.

Lembrando a “imensa dívida de gratidão” que o mundo deve ter para com este amplo conjunto de profissionais (equipas de limpeza nos hospitais e lares de idosos, médicos, enfermeiros, auxiliares, especialistas em epidemiologia, entre outros) “nestes tempos difíceis”, a Amnistia Internacional instou todos os governos, nomeadamente as lideranças na região das Américas, “a darem prioridade e a protegerem os direitos dos profissionais de saúde durante e pós-pandemia”.

Nesse sentido, a ONG faz um apelo direto ao principal ator da região, os Estados Unidos da América (EUA), exortando Washington a tomar “ações rápidas e decisivas” para garantir o financiamento contínuo à OMS.

Nas Américas estão cerca de metade das pessoas no mundo que testaram positivo para a Covid-19, existindo mais de dois milhões de casos confirmados. Como a América Latina ainda enfrenta as semanas mais letais, é vital que todos os países se reúnam para garantir que o financiamento da saúde não seja prejudicado neste momento crucial”, afirmou a diretora para a região das Américas da AI, Erika Guevara-Rosas, citada num comunicado.

E prosseguiu: “Esta pandemia não tem fronteiras e os EUA devem apoiar uma solução global, juntando-se a outros países para financiar a OMS de forma a garantir que a sua capacidade técnica e especializada seja aplicada onde for mais necessário“.

O pedido dirigido a Washington é conhecido poucas horas depois de o Presidente norte-americano, Donald Trump, ter feito um ultimato (de 30 dias) à OMS, que acusa de “falta de independência” em relação à China, e de ter exigido uma reforma da agência da ONU.

Caso tal não aconteça, Trump admite a saída dos EUA daquela organização e ameaça suspender, de forma permanente, o financiamento norte-americano.

Os EUA são atualmente o país com mais mortos (90.369) e mais casos de infeção pelo novo coronavírus confirmados (mais de 1,5 milhões).

Para elaborar este relatório, a Amnistia Internacional informou que realizou 21 entrevistas exaustivas a profissionais de saúde de oito países do continente americano: EUA, México, Honduras, Nicarágua, Guatemala, República Dominicana, Colômbia e Paraguai.

“Apenas dois casos disseram à AI que consideravam ter equipamentos de proteção individual adequados ou quase adequados”, referiu a ONG.

Nos casos documentados no relatório, a AI expõe, entre outros episódios, situações de trabalhadores que limpam hospitais sem luvas, casos de despedimentos após a denúncia das condições de trabalho ou ataques e apedrejamentos de profissionais de saúde.

Preocupações relacionadas com os períodos de descanso ou com um apoio inadequado à saúde mental são outros aspetos abordados pelos profissionais ouvidos pela AI.

Desde que o novo coronavírus foi detetado na China, em dezembro do ano passado, a pandemia da doença Covid-19 já provocou mais de 318 mil mortos e infetou mais de 4,8 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço da agência de notícias France Presse (AFP).

Mais de 1,7 milhões de doentes foram considerados curados.