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A questão é colocada este domingo pelo jornal espanhol El País: o novo coronavírus espalha-se ou não pelo ar? A dúvida existe desde, pelo menos, 15 de fevereiro. Nesse dia, um professor de ritmos latinos em Cheonan, na Coreia do Sul, deu uma aula que poderá ter sido parte de um surto de Covid-19 e infetou 112 pessoas. As autoridades do país disseram que a causa era “o fluxo de ar gerado por intenso exercício físico”. Contudo, nas instalações também decorria uma aula de pilates com um monitor infetados com o novo coronavírus que não contagiou alunos. Em que é que ficamos?

Sobre esta matéria, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma: “De acordo com as evidências atuais, o vírus Covid-19 é transmitido principalmente entre pessoas através de gotículas respiratórias e vias de contacto. Numa análise de 75.465 casos de Covid-19 na China, a transmissão aérea não foi reportada.”

Porém, há relatos de pessoas que foram contagiadas simplesmente por estarem a quatro metros de um infetado num restaurante chinês. Além disso, o mesmo jornal relembra o caso em que uma mulher com Covid-19 que se acredita ser a responsável por ter infetado 23 passageiros durante uma viagem de autocarro.

Respirar pode ser suficiente para espalhar o novo coronavírus?

Por um lado, estes casos parecem contradizer a teoria da OMS, mas também mostram situações específicas que são agora menos comuns com os cuidados que estão a ser implementados para evitar a propagação da pandemia. O mesmo jornal relembra que, por exemplo, o sarampo e a tubercolose são doenças que podem ser apanhadas pelo ar por alguém que não tenha estado no mesmo local em que um infetado esteve. Contudo, até agora, ainda não há prova de doentes com Covid-19 infetados desta forma.

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Emily Gurley, epidemologista na Universidade Johns Hopkins afirma que “a melhor prova da existência da transmissão por aerossóis do SARS-CoV-2 vem do surto na academia na Coreia do Sul, onde havia muitas pessoas reunidas em ambientes fechados, respirando pesadamente, durante 50 minutos“. Porém, não defendendo esta teoria, diz: “Não estou a negar que isso possa acontecer, mas temos muitos estudos meticulosos que mostram que a maioria das infeções deve-se principalmente ao contacto próximo e prolongado com pacientes infecciosos”.

Fernando Simón, o responsável espanhol pela coordenação da estratégia do Ministério da Saúde do país vizinho afirma aquilo que as autoridades de saúde de várias nações têm dito: “[o novo coronavírus] É transmitido por contacto direto com gotas mais espessas que caem rapidamente “. É por causa disso que é recomendado o distanciamento social para evitar que se apanhem as “gotículas” — as que a Direção-Geral da Saúde (DGS) alerta serem grande parte do problema e, daí, ser importante manter dois metros de distância.

Contudo, até Simón assume que há “estudos de caso concretos” que mostram que poderia haver transmissão a mais de dois metros, mas que isso é “improvável”.

No entanto, Miguel Hernán, professor de epidemiologia da Universidade de Harvard e consultor do Governo espanhol, diz ao El País que tal é “é improvável, mas é possível”. “As evidências acumulam que há contágio por aerossóis e que pacientes assintomáticos (um terço dos casos, de acordo um estudo espanhol) transmitem a infeção”, refere ao jornal. Por isso, Hernán salienta a importância do uso de máscaras e diz: “Se, ao que parece, houver contágio por aerossóis, devemos ter extrema cautela nos nossos contactos com idosos e pessoas vulneráveis”.

Esta recomendação da OMS de dois metros de distância tem sido, inclusive, considerada insuficiente. No final de maio, um artigo da revista Science referiu que há cada vez mais indícios de que esta distância terá de ser maior e é preciso mudar a recomendação. Esta é uma preocupação que é partilhada noutro artigo no Journal of American Medical Association.

Como o coronavírus se espalha quando alguém tosse num supermercado

José Luis Jiménez, especialista em aerossóis na Universidade do Colorado, nos EUA, refere neste artigo que um espirro causa cerca de “40 mil gotículas de todos os tamanhos, e as melhores podem voar até oito metros em um ambiente fechado”. Já a “tosse lança entre mil e três mil gotas e falar por alguns minutos pode causar entre 100 e seis mil, dependendo da vocalização, porque falar alto ou gritar gera três vezes mais partículas do que falar baixo”. Ou seja, dois metros pode ser pouco.

Não obstante, todos estes cenários dependem de mais fatores, lembra o jornal citando outros cientistas. A ventilação da sala, que gotículas são realmente infeciosas ou o tamanho destas, por exemplo. Num local com ventilação teoricamente dissolvem-se mais depressa. Num local fechado é diferente. As infeções em ambientes fechados são 19 vezes mais prováveis ​​que no exterior, refere o El País. Esta é uma preocupação que agora existe mais e tenta-se que se renove o ar de espaços interiores por ar exterior para evitar surtos como os referidos no início deste artigo. Agora, em locais como aviões é mais difícil.

Lidia Morawska , diretora do Laboratório Internacional de Qualidade do Ar e Saúde (referência para a OMS ) da Universidade de Tecnologia de Queensland, Brisbane, na Austrália, diz: “O problema não é se a transmissão aérea é uma rota mais ou menos importante, a chave é onde. Em locais bem ventilados, isso não é um problema, pois as gotículas carregadas de vírus são removidas com rapidez e eficiência. Porém, se a ventilação não for eficiente, como em muitos locais públicos comuns, essa pode ser a rota principal [para transmissão do vírus]”.

Para defender a sua tese Morawska lembra um caso que teve como base a infeção de 87% dos membros de um coro nos EUA. Nesta situação, o grupo esteve duas horas e meia a cantar num espaço fechado no início de março. Não houve abraços nem beijos, mas duas pessoas morreram com Covid-19. Em causa pode estar o tempo que se está no mesmo local, refere o jornal. No caso do restaurante chinês houve uma mesa ao pé do infetado que só esteve 18 minutos no local e não ficou infetada, por exemplo.

Num resumo sobre esta questão, Faheem Younus, chefe do departamento de doenças infecciosas da Universidade de Maryland, diz sobre a Covid-19 ao jornal: “Se o sarampo voa como uma águia, o coronavírus voa como uma galinha.” Morawska afirma que a OMS vai ter de ter em conta o contágio pelo ar. Contudo, outros cientistas dizem que são precisas mais evidências de que tal é assim.

Até lá, medidas como as máscaras de proteção parecem ser as mais eficazes a reduzir números de contágios, relembra o jornal.