O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, lamentou esta terça-feira que José Manuel Durão Barroso, então na qualidade de primeiro-ministro, tenha demorado 17 anos a reconhecer o erro que cometeu, ao defender a invasão do Iraque na cimeira das Lajes.

“O reconhecimento de um erro é sempre bem-vindo. Eu já errei também muitas vezes na vida. Pena é que, neste caso, tenha demorado 17 anos”, respondeu Santos Silva à questão da agência Lusa sobre a “confissão” de José Manuel Durão Barroso.

O jornal Público noticiou esta terça-feira que, numa entrevista ao novo ‘podcast’ da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), o também ex-presidente da Comissão Europeia (CE) afirmou que, se fosse hoje, “provavelmente não teria a mesma posição” que tomou, de apoio à invasão do Iraque.

Lembrando que Durão Barroso “não gosta de fazer julgamentos hipotéticos”, o diário português refere que, na entrevista à FLAD, o também antigo presidente da Comissão Europeia recordou um dos momentos mais tensos da sua passagem pelo Governo português.

Na entrevista, o atual ‘chairman’ do banco Goldman Sachs, para onde entrou após deixar a presidência da CE, ressalvou que, com a informação que tinha na altura, em 2003, “manteria a mesma posição”.

Se soubesse o que sabe hoje, prosseguiu, “provavelmente não tinha tomado a mesma posição no encontro que esteve na origem da guerra contra o regime do então Presidente iraquiano, Saddam Hussein.

Na reunião, Durão Barroso foi anfitrião do então Presidente norte-americano, George W. Bush, e dos, na altura, primeiros-ministros britânico, Tony Blair, e espanhol, José Maria Aznar.

A 20 de março de 2003, quatro dias depois da cimeira das Lajes, começou o ataque que levaria ao fim do regime de Saddam Hussein.

Hoje, Durão Barroso considera que “houve muitos erros graves na forma como foi gerido o processo”.

“A ideia de querer ‘limpar’ toda a administração do Iraque foi um erro completo. É uma ideia que vem da desnazificação, que os alemães e os Aliados fizeram na Alemanha a seguir a [Adolf] Hitler, mas não era sensato fazê-lo ali” disse Durão Barroso, ressalvando, porém, que não tem “pena nenhuma” de Saddam Hussein.

“A situação foi mal gerida. (…) Na altura, eu várias vezes perguntei ao então Presidente dos EUA, quando ele me garantia a mim e aos outros que a vitória estava garantida: então e ‘after’? E no dia a seguir?”, contou o também antigo líder do Partido Social Democrata (PSD) português.

De George W. Bush, disse, ouviu a resposta: “as coisas estariam mais ou menos garantidas”,

Durão Barroso sublinhou que “não foi uma posição ideológica ou belicista, mas sim “ponderada”.

“Sei que é legitimamente controversa, até porque, infelizmente, não se concretizou aquilo que nos tinha sido comunicado”, afirmou.

Durão Barroso descartou, por outro lado, que o seu envolvimento na Cimeira das Lajes o tenha catapultado para a presidência da CE, contrapondo que talvez “até tenha sido uma dificuldade” acrescida.

“Não se pode ser presidente da CE sem o apoio forte da França e da Alemanha”, argumentou, lembrando que, Jacques Chirac, que se opunha à intervenção militar dos Estados Unidos no Iraque, era o então Presidente francês.

“É importante notar que, apesar dessa posição que eu tomei na questão dos Açores, eles não se opuseram. Não é fácil ser eleito presidente da CE, e sobretudo duas vezes. Até agora ninguém foi mais”, disse.