As declarações caíram como uma bomba na bolha interna do Barcelona. No final do empate a zeros com o Sevilha, que deixou os catalães à mercê de serem igualados pelo Real Madrid, Piqué pareceu deitar a toalha ao chão e entregar o título espanhol aos merengues. Quique Setién procurou enquadrar as frases do jogador quando surgiu na conferência de imprensa, a possibilidade de um castigo já surgiu na comunicação social mas a opinião, essa, foi pública e é importante. E pode ser um foco de desmotivação para o Barcelona e funcionar no caminho inverso para o Real Madrid.

“Ao ver como é que os jogos acabaram até agora, vai ser muito difícil para nós ganhar a liga. Este empate deixa-nos numa posição em que já não dependemos apenas de nós próprios. E ao olhar para os jogos, é difícil imaginar que o Real Madrid vá perder pontos. Mas vamos continuar a dar tudo para tentar e para tentar ganhar”, disse o central espanhol, que parecia entregar desde já a conquista da liga espanhola ao Real Madrid. E a verdade é que, com o empate do Barcelona e com as duas vitórias inequívocas nesta retoma, a equipa de Zidane só precisava de ganhar este domingo à Real Sociedad para se colocar lado a lado com os catalães na liderança da tabela.

Defender livres de Messi com barreiras de oito funcionou e Sevilha “secou” Barcelona (no jogo com invasão de campo virtual)

Mas este “só” acabava por ser um obstáculo difícil de ultrapassar. Afinal, a Real Sociedad está no sexto lugar da liga espanhola, na luta tanto pelo acesso à Liga dos Campeões como pelo acesso à Liga Europa, e tem assentado no talento de jogadores como Odegaard e Oyarzabal e na experiência de elementos como Nacho Monreal para se tornar uma das equipas mais promissoras da atual temporada. Ainda assim, a Real Sociedad não deixava de estar a ter um recomeço algo sofrível, entre um empate com o Osasuna e uma derrota com o Alavés, e esse contexto poderia ser o ponto de partida necessário para uma das jornadas mais importantes da época do Real Madrid.

No primeiro jogo fora de Valdebebas — e no primeiro confronto com um verdadeiro estádio de primeira liga totalmente vazio –, Zidane surpreendeu logo a partir o onze inicial, deixando Hazard e Modric no banco de suplentes para lançar Vinícius e James, recuando Valverde para a zona do meio-campo. Os merengues foram notoriamente superiores durante a primeira parte, ainda que sem grandes oportunidades de golo, mas enfrentavam uma equipa que não perdia em casa há oito jogos consecutivos para todas as competições. A Real Sociedad, bem organizada e muito compacta defensivamente, não permitia grandes investidas por parte do trio ofensivo da Real Madrid e eclipsou tanto a criatividade de Valverde como a inteligência de James, permanecendo Benzema e Vinícius como os elementos mais perigosos nos últimos 30 metros adversários.

No início da segunda parte, depois de um primeiro tempo praticamente sem balizas, o Real Madrid procurava afastar a pressão de ter apenas 45 minutos para aproveitar o deslize do Barcelona em Sevilha. E só precisou de esperar parcos instantes para que a oportunidade surgisse: Vinícius pegou na bola na ala esquerda, tirou vários adversários da frente para entrar na grande área num lance individual delicioso e terá sido carregado em falta por Llorente — numa jogada duvidosa que vai causar muita polémica nos próximos dias em Espanha. Na conversão da grande penalidade, Sergio Ramos bateu Remiro e tornou-se o defesa mais goleador da história da liga espanhola (50′), ultrapassando Ronald Koeman, antigo central do Barcelona e atual selecionador espanhol, com 68 golos marcados.

Mas a verdade é que, depois de garantir a vantagem merengue, o capitão do Real Madrid só permaneceu mais dez minutos em campo. Depois de um choque na grande área de Courtois, o central espanhol ficou com queixas num joelho e ainda regressou ao relvado, para solicitar a substituição logo de seguida. Éder Militão entrou, Ramos foi para a bancada com gelo no joelho mas não deixou de ter a braçadeira empírica no braço, assobiando várias vezes para dentro de campo e gritando instruções aos colegas de equipa.

Depois do golo de Sergio Ramos, a Real Sociedad assumiu a posse de bola e colocou a primeira fase de construção muito subida no relvado. Januzaj aproveitou o melhor momento da equipa de Imanol Alguacil para protagonizar o que parecia ser o empate da Real Sociedad, através de um grande remate de fora de área que Courtois não conseguiu parar (68′), mas o lance foi anulado porque Merino, em fora de jogo, impediu a linha de visão do guarda-redes belga. Logo em seguida, no melhor momento possível, Benzema aumentou a vantagem com um remate rasteiro depois de um cruzamento de Valverde (70′) — igualando Moreno, do Villarreal, como segundo melhor marcador da liga espanhol, apenas atrás de Messi –, o VAR ainda analisou a jogada por possível braço do francês mas acabou por validar o golo.

Até ao fim, Merino ainda reduziu a desvantagem, colocando uma pressão adicional nos ombros do Real Madrid nos minutos finais — até porque a equipa de Zidane tem dificuldade em encerrar os resultados para não sofrer nos últimos instantes –, mas os merengues acabaram por segurar a vitória e igualar o Barcelona no topo da liga espanhola, relançando a renhida corrida pelo título. E a verdade é que, em igualdade pontual, a vantagem cai para o Real Madrid: e só dá razão à visão do pessimista Piqué.