Sérgio Conceição tinha a Taça de Portugal “entalada”. A segunda competição nacional até pode ser apelida de prova rainha mas tem uma carga especial para vários treinadores, com Jorge Jesus como exemplo paradigmático, e o técnico dos azuis e brancos não é exceção, sobretudo depois da forma como perdeu nas grandes penalidades as decisões com o Sporting em 2015 (Sp. Braga, a ganhar com mais um jogador em campo por 2-0 quase no final do tempo regulamentar) e em 2019 (FC Porto, a atirar uma bola ao poste aos 90′). Em paralelo, em quatro finais pelos dragões, perdeu três. Estava quase a tornar-se um estigma. Numa noite, tudo mudou e em duplicado.

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Ao longo de 90 minutos, Sérgio Conceição viveu um pouco de tudo – e sobretudo aquilo que não pensava viver. Do atraso da chegada das equipas oficiais, que foram conhecidas menos de meia hora ante do início, à expulsão de Luis Díaz logo aos 38′, passando pelo segundo amarelo aos 43′ que levou o treinador disparado para o túnel antes de se pegar de dedo em riste com o quarto árbitro Manuel Mota (e Pinto da Costa desceu da tribuna nesse momento) e a uma segunda parte onde esteve ao pé de um dos adjuntos (Dembélé) no camarote a dar indicações para Vítor Bruno, o técnico viveu várias experiências que, no final, levaram a uma explosão de emoções, chorando abraçado aos jogadores que cumprimentou um a um além de outros elementos da sua equipa e do staff.

Com a vitória frente ao Benfica, o treinador assegurou a primeira Taça de Portugal como treinador, naquele que foi o quarto título no FC Porto (depois de dois Campeonatos e uma Supertaça) e tornou-se o 14.º a ganhar a prova rainha como jogador e técnico, o quarto nos azuis e brancos depois de Pedroto, António Morais e António Oliveira. Em paralelo, foi também o terceiro a ganhar aos 45 anos, após Artur Jorge e Fernando Santos. Todavia, feito histórico à parte, o treinador não foi depois à sala de imprensa para a habitual conferência enquanto se iam vendo alguns vídeos nas redes sociais que mostravam Sérgio Conceição a dançar com os seus jogadores.

“Foi uma época atípica, com muitas nuances que nos obrigaram a readaptar constantemente. Penso que nesta altura não haverá muito a dizer sobre a nossa vitória. Neste momento acho que temos sim de destacar os valores do grupo. A equipa hoje reencarnou os valores do povo do Norte, que é um povo nobre, leal, humilde, trabalhador e que nunca vira a cara à luta. O caráter está presente no dia a dia. Os jogadores foram gigantes, com uma capacidade de trabalho incrível, em circunstâncias muito difíceis. Faltaram-nos os adeptos, faltou-nos o treinador, mas sobraram aqueles dez heróis que estavam no campo, somados àqueles que estavam na bancada e que tanto nos ajudaram”, afirmou à RTP Vítor Bruno, técnico adjunto que passou pela flash interview.

“Expulsão de Sérgio Conceição? Se houver câmaras vão perceber o que aconteceu, eu estava mais atrás, não vi. Vi, sim, uma reação pequena perante uma falta que é marcada. E perante isto o árbitro expulsou o treinador, num jogo decisivo. Acho que tem de haver um pouco mais de sensibilidade para perceber o contexto”, acrescentou ainda o número 2 da equipa técnica dos azuis e brancos, na única reação extra jogadores do FC Porto que não esqueceu também Marcano, central espanhol que se lesionou com gravidade no regresso aos treinos.