Analistas moçambicanos defendem uma maior presença do empresariado chinês no país após a pandemia de Covid-19, mas alertam para uma possível redução de empréstimos e apoios estatais do gigante asiático.

“Os grandes empréstimos deverão reduzir-se, mas, em contrapartida poderemos ver mais investimento privado chinês em Moçambique”, disse à Lusa Sérgio Chichava, investigador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos. “Haverá necessidade de uma revisão e (o apoio) não poderá continuar na mesma escala porque a economia chinesa está com algumas dificuldades, tal como todas as economias”, observou.

Chichava faz ainda a referência aos casos de maus tratos a cidadãos africanos e afro-americanos na China, desde abril, em casos de discriminação e racismo impulsionados pela nova pandemia, e a um assassinato de três empresários chineses na Zâmbia, em junho.

Segundo refere, os casos têm manchado as relações interpessoais, mas não foram suficientemente fortes para abalar a cooperação económica e empresarial.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

“A imagem da China no atual contexto da pandemia em África não saiu manchada, pelo contrário: a China é vista como um país que conseguiu em muito pouco tempo vencer o novo coronavírus”, afirmou o pesquisador, que destaca ainda o apoio de empresários chineses a países africanos durante a pandemia como um ponto positivo.

O jornalista e analista Fernando Lima considera que a situação de tensão devido a relatos de discriminação e racismo provocou “ressentimento”.

O contexto gerou desconforto entre pequenos empreendedores que compram produtos na China e vendem em Moçambique. “Este setor foi muito penalizado, por um lado, pelas restrições devido a pandemia e, por outro, por esta onda de racismo”, afirma.

Contudo, acredita que a conjuntura não vai ter impacto nos grandes negócios.

Apesar de destacar a importância da China quando Moçambique ficou sem apoio direto dos parceiros intranacionais devido ao escândalo das dividas ocultas do Estado, em 2016, Fernando Lima observa que a cooperação com o país asiático “não é barata”.

“Moçambique tem uma grande dificuldade de ir aos mercados externos e encontrar fundos concessionais para o desenvolvimento da sua própria infraestrutura. Logo, isto significa que tem de se sujeitar muitas vezes aos termos das linhas de financiamentos que são estabelecidas pela China”, declarou Fernando Lima.

Por seu turno, o empresário moçambicano Dino Foi, que tem negócios na China e em Moçambique ligados ao setor agrícola e import/export, lembra que o país asiático foi um dos primeiros países a apoiar o continente africano face à pandemia e isso deve ser levado em consideração.

Dino Foi considera que o impacto da Covid-19 abre espaço para uma renegociação da dívida de Moçambique à China, mas lembra que o país asiático não é uma organização de caridade.

“Estas dívidas são estabelecidas entre estados e por isso há sempre espaço para renegociação. Agora, é preciso perceber que de onde sai dinheiro, tem de entrar dinheiro. A China vai aproveitar-se disto. Moçambique não pode ficar relaxado no argumento das relações seculares. Temos, sim, de renegociar a nossa dívida, mas também temos de trabalhar para aumentar a nossa produtividade para pararmos de ser vistos como pedintes “, afirma Dino Foi.

Segundo a universidade norte-americana Johns Hopkins, o Governo, bancos e empresas da República Popular da China emprestaram cerca de 143 mil milhões de dólares (131 mil milhões de euros) aos países africanos, entre 2000 e 2017.

Os governos africanos contraíram ainda mais de 55 mil milhões de dólares (50 mil milhões de euros) nos mercados internacionais de dívida, só nos últimos dois anos