A escritora Lídia Jorge foi esta sexta-feira distinguida com o Prémio da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, de Literatura en Línguas Românicas. O galardão mexicano junta-se ao Prémio Tributo de Consagração Fundação Inês de Castro/2019 atribuído, em julho passado, à obra de Lídia Jorge.

O júri do Prémio da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, que esta sexta-feira distinguiu a carreira literária de Lídia Jorge, realçou a sua “originalidade e subtileza de estilo”, a independência da obra e a “imensa humanidade” da escritora portuguesa.

O júri deste ano foi constituído pelo professor Mario Barenghi, da Universidade Bicocca, de Milão, Itália, pela escritora e crítica literária Anna Caballé, assim como pelo escritor Javier Rodríguez Marcos, ambos de Espanha, pela investigadora Luminita Marcu, da Universidade Bucareste, na Roménia, pelaa editora livreira francesa Anne Marie Métailié, pelo docente mexicano Rafael Olea Franco, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e pela escritora e ensaísta brasileira Regina Zilberman.

O júri destacou “o nível literário” de Lídia Jorge, e o modo “como a sua obra novelística retrata a forma como os indivíduos enfrentam os grandes acontecimentos da História”.

A “imensa humanidade” da escritora, “na forma de se aproximar tanto dos temas tratados na sua obra – adolescência, descolonização, lugar da mulher, emigração, agentes da História -, assim como na apresentação das personagens que a protagonizam”, foi outro fator sublinhado pelo júri do principal prémio literário da Feira Internacional do Livro (FIL), de Guadalajara.

Lídia Jorge foi apontada como “uma das principais autoras de língua portuguesa, por uma obra não só novelística mas também poética, ensaística e teatral”.

No ata, o júri explica que a escritora obteve “o respeito unânime da crítica com o seu chocante romance ‘A Costa dos Murmúrios’ (1988), escrito em resultado da sua passagem por Angola e Moçambique, em processo de descolonização. Nele, as terríveis consequências do colonialismo são descritas com um realismo às vezes brutal, emergindo também no romance um problema que passará por toda a sua literatura: a reflexão sobre como a História é construída e escrita”.

“Raramente o dizer e o pensar literários, para usar dois termos ‘heideggerianos’, oferecem maior prazer à leitura de uma obra. A fala literária da autora nunca é um exercício solitário, pois ela sempre convida seus leitores a irem a algum lugar com ela e o faz com uma subtileza estética que não pode e não deve passar despercebida no contexto da literatura em línguas românicas”, afirma ainda o júri.

Na sessão de anúncio do vencedor da edição deste ano do prémio, o presidente da FIL de Guadalajara, Raúl Padilla López, felicitou o júri pela “escolha desta magnitude”, que distinguiu a escritora portuguesa. Esta é a 30.ª edição do prémio que será entregue a Lídia Jorge no próximo dia 28 de novembro, na cerimónia de abertura da FIL de Guadalajara, no México, que decorrerá até 6 de dezembro.

Escritora Lídia Jorge lamenta “confinamento do pensamento crítico” apesar da liberdade

Lídia Jorge disse à Lusa que temos hoje “uma liberdade ilimitada e, ao mesmo tempo, parece haver um confinamento do pensamento crítico”. A autora afirmou-se “surpreendida” e “muito contente” com a atribuição do prémio, a distinção máxima da Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL Guadalajara), que lhe deu eco de outros leitores, além de Portugal.

Lídia Jorge, em declarações à agência Lusa, considera que “há uma contradição nos tempos que correm, em que há uma liberdade ilimitada e, ao mesmo tempo, parece haver um confinamento do pensamento e da reflexão crítica”.

“Este prémio, como que me veio dizer que escrevo para alguma coisa, e a minha vida tem um sentido”, afirmou.

Lídia Jorge disse que se sentiu “comovida” por o júri a ter apontado como uma das mais importantes vozes da literatura em língua portuguesa.

A autora está a trabalhar no seu próximo romance, “agora parado, devido a outros afazeres”, sobre o qual não adiantou pormenores, embora na sessão de anúncio do vencedor do prémio, que decorreu pela Internet, tenha aludido a uma nova obra, que poderá ter por título “Misericórdia”, influenciada pela recente perda da mãe e pela pandemia da Covid-19.

O homem é um hospedeiro e o hóspede é o Covid-19. Tem milhares de letras no seu genoma, mas não o conhecemos. É insidioso. Pensamos na ‘Origem das Espécies’, que explica que uns comem os outros. A natureza é uma questão de fome”, disse. “A escrita é um ato de jubilação e luta interior, muito solitário”, disse à Lusa a autora d’”A Noite das Mulheres Cantoras”.

Durante o conferência de imprensa deste tarde, que a anunciou como vencedora, Lídia Jorge afirmou que “a literatura é um ato de resistência absolutamente indispensável” e que é preciso “publicar, ler e divulgar”. Na mesma sessão, também dedicou o prémio aos “companheiros” da literatura portuguesa, citando autores como, entre outros, Nuno Júdice, Hélia Correia, Mário Cláudio, Mário de Carvalho e Almeida

Lídia Jorge estreou-se em 1980 com o romance “O Dia dos Prodígios”.

É também autora dos romances “O Cais das Merendas” (1982), “Notícia da Cidade Silvestre” (1984), “A Última Dona” (1992), “O Jardim Sem Limites” (1995), “O Vale da Paixão” (1998), “O Vento Assobiando nas Gruas” (2002), “Combateremos a Sombra” (2007), “A Noite das Mulheres Cantoras” (2011), “Os Memoráveis” (2014) e “Estuário – 2018”.

Da sua bibliografia fazem igualmente parte coletâneas de contos (“A Instrumentalina”, “O Conto do Nadador”, “Marido”, “O Belo Adormecido”, “O Organista”, “O Amor em Lobito Bay”), obras de literatura infantil (“O Grande Voo do Pardal”, “Romance do Grande Gatão”, “O Conto da Isabelinha”), de ensaio (“Contrato Sentimental”), de teatro (“A Maçon”, “Instruções para Voar”), de poesia (“Livro das Tréguas”).

Este ano publicou o livro de crónicas “Em Todos os Sentidos”.

O prémio máximo de Guadalajara junta-se a uma carreira já distinguida com o Prémio Tributo de Consagração Fundação Inês de Castro (2019/2020), o Grande Prémio de Literatura dst (2019), o Prémio Vergílio Ferreira (2015), da Universidade de Évora, o Prémio Luso-Espanhol de Cultura (2014), o Prémio Internacional de Literatura da Fundação Günter Grass (2006), o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Correntes d’Escritas (2002), o Prémio Jean Monet de Literatura Europeia (2000) e o Prémio D. Diniz da Casa de Mateus (1998), entre outros galardões.

Com um valor pecuniário de 150 mil dólares norte-americanos (cerca de 126 mil euros), o prémio da FIL de Guadalajara reconhece uma vida dedicada à literatura, e é patrocinado pelo Ministério da Cultura do Governo mexicano, a Universidade de Guadalajara, o Governo estadual de Jalisco, os municípios de Guadalajara e Zapopan, o Bancomext, Arca Continental e Fundação UDG, que fazem parte do Prémio Associação Civil Feira Internacional do Livro de Literatura em Línguas Românicas.

Este ano, segundo o comunicado divulgado, foram recebidas 68 propostas de 18 países, em que estiveram representados 55 escritores e sete línguas, como o catalão, espanhol, francês, italiano, romeno e o galego, além do português. As candidaturas foram apresentadas por instituições culturais e educacionais, associações literárias, editoras e pelos próprios membros do júri.

António Lobo Antunes, premiado em 2008, e os escritores brasileiros Ruben Fonseca, em 2003, e Nélida Piñon, em 1995, são os outros autores de língua portuguesa distinguidos com o principal prémio da FIL de Guadalajara.

A lista que também inclui autores como Juan José Arreola (1992), Augusto Monterroso (1996), Juan Marsé (1997), Tomás Segovia (2005), Fernando del Paso (2007), Rafael Cadenas (2009), Fernando Vallejo (2011), Claudio Magris (2014), Enrique Vila-Matas (2015), Norman Manea (2016), Emmanuel Carrère (2017), Ida Vitale (2018), entre outros.

O prémio foi entregue pela primeira vez ao chileno Nicanor Parra, em 1991.

Lídia Jorge sucede ao mexicano David Huerta, premiado em 2019.

Portugal foi o país convidado da FIL de Guadalajara, na edição de 2018.